Um título místico e surpreendente

Em 2012, parecia quase impossível o Palmeiras terminar o ano com algum título. O time era sofrível, vinha de uma campanha merreca no Campeonato Paulista, e dava pouca esperança aos torcedores. De tão feio, caiu diante do Guarani no Estadual, pouco se esperava daquela temporada. Felipão de repente não era mais aquele cara para impor respeito aos adversários, e isso se refletia em campo.

Quando a Copa do Brasil começou, era difícil imaginar que o Palmeiras passaria das quartas de final. Estreou contra o Coruripe, fazendo 1 a 0 fora, e 3 a 1 em Jundiaí. Classificou para pegar na segunda fase o Horizonte, do Ceará, fora de casa, e venceu, com um 3 a 1, eliminando o jogo de volta. Depois disso, parecia um Campeonato Paranaense em pequena escala, valendo pelo torneio nacional.

Paraná e Atlético Paranaense estavam na Série B, eram adversários que não deveriam oferecer tanto risco na vaga para as fases seguintes. O Verdão derrubou o Paranito com duas vitórias, por 2 a 1 e 4 a 0, o segundo jogo para incendiar a torcida. Ali começava a famigerada ‘Mística de Barueri’, um lugar longe pra cacete de São Paulo, de difícil acesso, mas que por alguma razão que ninguém entendeu, virava um caldeirão em partidas com presença da torcida palmeirense.

Barcos, Mazinho, Juninho, Assunção e Henrique estavam em grande fase. Muito embora isso não significasse que o time conseguia produzir algo bonito. Produzia resultados, e até onde sei, é isso que importa no futebol, essencialmente falando. Aí veio o Atlético Paranaense. Encardido, que segurou um duro 2 a 2 na Vila Capanema e chegou com esperanças ao jogo de volta, em Barueri. Sem dar sopa para o azar, o Palmeiras fez 2 a 0, e classificado para as semifinais, contou outra história à parte.

Pela frente vinha o Grêmio, que estava sedento para colocar um fim no seu jejum. Dois adversários com uma igual obsessão em transformar a espera em euforia, em gritaria descontrolada. O palmeirense, naturalmente esperava o pior contra um time superior. Sabia que ali poderia ser o fim da linha na campanha. Em Porto Alegre, o jogo do alviverde ficou em segundo plano na cidade de São Paulo. Ao mesmo tempo, Corinthians e Santos disputavam a primeira semifinal da Copa Libertadores. Lembro bem que durante um primeiro tempo modorrento no Olímpico, troquei de canal para ver o clássico paulista.

Entrando na faixa dos 40 do segundo tempo, o impossível aconteceu. Choveu milho, o mar inundou de soda limonada, o céu foi ao chão. Mazinho abriu o placar e Barcos sacramentou. Era pouco provável até aquele momento que o Palmeiras fosse vencer o torneio, mas o Grêmio era o adversário ideal para testar a força. Em Barueri, como nos velhos tempos, o alviverde de Felipão jogou com o regulamento debaixo dos braços. E empatou em 1 a 1 no jogo que tirou Henrique do primeiro jogo da final. Uma confusão generalizada com Edílson tirou o camisa 3 de cena. Nem isso afetou o espírito do time, que pegava o Coritiba na decisão. Um ano antes, eles perderam para o Vasco.

A história se repetiu em 2012, com direito a Green Hell e festa coxa-branca no Couto Pereira. O jogo de ida, em Barueri, foi um campeonato à parte. O Coxa foi melhor e perdeu várias chances de gol quando poderia bem ter feito 3 ou 4 a 0. A incompetência foi fatal. Maurício Ramos sofreu pênalti e Valdivia bateu. 1 a 0. Pouco depois, Thiago Heleno fez de cabeça e garantiu uma vitória injusta, mas que separou os dois times no embate: a Copa do Brasil não era questão de querer.

A tradição falou mais alto quando o grito palmeirense ecoou no Couto. Todo torcedor merecia estar na arquibancada naquele dia. Foi a redenção e a liberdade numa noite só. Nem toda a tensão de pensar em mais um vexame conseguiu tirar da cabeça do palmeirense que aquele dia era especial. Foram 12 anos de espera por um campeonato nacional.

Comemoramos o Paulistão de 2008, mas nem esse foi tão libertador quanto o da Copa do Brasil. Milhões engoliram a seco o gol de Ayrton e esperaram pelo pior. Só para que Assunção fizesse o cruzamento para o gol do herói insólito Betinho. O gol do alívio e que abriu uma passagem para a felicidade, que naquela hora foi o lugar comum de cada sofrido e maldito alviverde de Palestra Itália, que numa década de vexames se viu temporariamente curado de uma doença chamada melancolia.

Cada um comemorou da sua forma. Uns beberam, outros foram às ruas buzinar, gritaram até a voz ir embora, passaram a noite em claro e por fim se deixaram levar por uma onda de prazer que durou até a manhã seguinte. Naquelas 48 horas, a melhor coisa foi ser um palmeirense vivo pra contar como é que a mística superou barreiras que nós mesmos considerávamos intransponíveis. Parece que faz tanto tempo…

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