Toda uma vida em verde e branco

Não lembro bem como isso começou. Talvez com uma camisetinha verde e branca com alguns meses, aquela da coca-cola, quando ainda era carequinha. Depois passou para alguns chutes na bola, jogos na TV, um Palmeiras x Fluminense em 1993, com dois gols de Sorato, pipoca e o Vô Edson. 

Meu time faz cem anos hoje. Parabéns a ele. É uma paixão antiga, dessas que a gente não escolhe e nem cogita renunciar. É um amor esquisito, ingrato, que irrita, mas quando acalenta, deixa o coração em paz. Uma relação turbulenta e cheia de entreveros, de pedras, mas que a gente passa por cima sem problema.

O palmeirense sangra todo dia essa paixão e conta a história do próprio sofrimento sem dizer uma palavra. Você olha na cara dele e imediatamente sabe identificar. Talvez seja por isso que somos tão únicos. Nutrimos um amor bandido pela camisa alviverde, que nem sempre orgulha, batemos no peito quando toca o hino e cantamos a pleno pulmão, não importa o momento. Nos abraçamos na dificuldade e sabemos que não importa a montanha, sempre vamos escalar de um jeito ou de outro.

Ontem mesmo fui ao bar ver meus irmãos de sangue verde, e me pareceu sempre que estamos sendo campeões de algum torneio. A alegria em celebrar o século palmeirense ainda é maior do que a preocupação com uma possível queda. Mais do que qualquer outra torcida, vivemos do nosso time, não de ilusões que taças possam trazer. Vivemos de Palmeiras, nos alimentamos dessa tradição e dessa história rica em reviravoltas fascinantes.

Vivemos da eterna crença de que somos uma grande família que independe de motivos para sorrir para se sentir unida. Vivemos da vibração semanal que é apoiar qualquer time que entre em campo com essa camisa. Vivemos de Palmeiras e isso nos basta. Nem o natal nos une tanto quanto um 26 de agosto como esse. Nenhuma data pode ter a pretensão de nos juntar num bar para pular e cantar o belíssimo hino enquanto viramos mais um copo de cerveja. Olhamos um para o outro como irmãos que somos nessa guerra diária que é confrontar o pessimismo e o ódio alheio.

Porque sim, na pior das crises, teremos alguém torcendo pelo nosso fracasso absoluto, querendo a nossa ruína e rindo dos nossos tropeços. Enquanto houver isso do outro lado, você pode ter certeza da sua grandeza, Palmeiras. Porque nós estaremos aqui defendendo a sua honra, mais do que muitos jogadores jamais conseguiriam. Nós somos a resistência, a linha de frente, o homem que atira contra a nuvem de inimigos que possa aparecer no horizonte.

Nós somos a paixão confessa e inevitável, o seu primeiro e último amor, na alegria, na tristeza, na saúde e na doença. Somos desgraçados eternamente com as suas cores. Somos eternamente abençoados pelo seu verde e branco, pelas suas glórias, pela sua garra e pela sua imponência. Somos doentes pelo teu nome, somos devotos pelo seu santo da camisa 12, pelo seu matador da camisa 9. Dizem que vivemos do passado, e não importa o quão verdadeiro isso possa parecer, continuaremos aqui, pois é isso que sabemos fazer da vida, deixem que eles falem e queiram dimensionar sem sucesso o tamanho da nossa loucura. O amor que temos por você é problema nosso. Ser palmeirense é viajar no tempo com poucas palavras-chave, é se arrepiar em ver o time subir do túnel para um combate, é sempre esperar que a salvação vá estar na nossa própria força.

Somos Palmeiras. Ainda bem. Tomara que nessa vida e na próxima.

1 pensamento em “Toda uma vida em verde e branco”

  1. “Porque sim, na pior das crises, teremos alguém torcendo pelo nosso fracasso absoluto, querendo a nossa ruína e rindo dos nossos tropeços. Enquanto houver isso do outro lado, você pode ter certeza da sua grandeza, Palmeiras.”

    Boa, irmão!

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