Na multidão, só sobraram a lua e meu falecido avô

Por Luiz Augusto Lima

Vou escrever aqui sobre uma noite fria e enluarada. Uma noite na qual mais de 100 mil pessoas se espremeram no Cícero Pompeu de Toledo. (Como você pode ver, eram outros tempos. Tempos em que não se falava de arenas ou arquibancadas cobertas). Nesta noite de junho, o São Paulo Futebol Clube mudou de status. O “campeão da década” dos anos 80 garantiu para si, a partir daquele momento, o direito de ser “copeiro”, “místico”, internacional. Foi o momento de se igualar a Santos, Cruzeiro, Flamengo e Grêmio. Foi o momento de alcançar uma outrora inalcançável Taça Libertadores da América. Por fim, foi o momento de Telê Santana se livrar de vez da pecha de pé frio para ser reconhecido como um herói do futebol-arte.

Todos já perceberam que estou falando da final da Libertadores de 1992, entre São Paulo e Newell’s Old Boys. Agradeço aos céus o fato de estar na casa dos 18 anos durante a “Era Telê”. Isso significa que pude frequentar o Morumbi a valer bem no período mais romântico da história tricolor.

Naquela decisão não foi diferente. Ao lado de amigos queridos, eu estava lá, em um gomo da arquibancada localizado atrás de um dos gols. Naqueles tempos, a arquiba do Morumbi era dividida em diversos setores, conhecidos como gomos.

Vale mais uma lembrança de época? Vale, né? Então vai: a Libertadores daquele ano foi transmitida pela Rede OM Brasil, emissora que acabaria extinta pouco depois. Pois bem, a Rede OM tirara Galvão Bueno da Globo, e portanto o bom e velho Galvão narrou toda aquela campanha do São Paulo, com comentários de Roberto Avallone (exclamação)!!!.

Enquanto eu roía as unhas no estádio lotado, pensava no sofrimento do meu irmão caçula, vendo o jogo na TV lá de casa… E havia motivos de sobra para ficar nervoso. Aquele Newell´s  dirigido por Marcelo Bielsa era osso duro de roer e tinha vencido o primeiro jogo, na Argentina, por 1 a 0.

O primeiro tempo foi amarrado, sofrido. O Newell’s levava perigo no contra-ataque, a ponto de carimbar a trave de Zetti. A torcida logo começou a vaiar Muller, que havia sido fundamental nas conquistas do ano anterior, mas não venha bem naquele primeiro semestre de 92.

Tanto que a coisa só começou a andar quando o craque foi trocado por Macedo, já com o segundo tempo em andamento (e amarrado). Foi o folclórico atacante quem sofreu o pênalti redentor, cobrado com perfeição por Raí. Que alívio indescritível! Só faltavam mais um gol, e tínhamos mais de 20 minutos pela frente!

Mas o gol não saiu. O silêncio voltou a ser dono daquelas cento e poucas mil pessoas. O sonho ia ser decidido nos pênaltis.

Tenho lembranças muito confusas do que aconteceu durante aquela disputa. Minha imagem mais clara, na verdade, é da bonita lua que deu as caras acima do gol onde ocorriam as cobranças (no lado oposto ao qual estávamos). A cada novo chute eu olhava para aquela bola lá no céu e pedia ajuda para o meu falecido avô. “Vô, você que já está aí no céu, ajuda o São Paulo, ilumina o Zetti?!? Sei que você torcia para a Portuguesa, mas gostava do São Paulo, né? Pede para todos aí nos ajudarem?”

Foi exatamente este pedido que eu fiz quando o Gamboa ajeitou a bola decisiva e bateu. Me lembro do silêncio. Da lua, do meu avô. E do Zetti espalmando. “Obrigado!!!!”

Todos já viram na TV o mar de gente que tomou conta do gramado. Nunca vi invasão igual, talvez nunca tenha havido nada igual. No degrau de cima da arquibancada, um bebum não conseguiu segurar o xixi. Mijou ali mesmo, e provavelmente nós tenhamos caído por cima da poça. Faz parte, era uma Libertadores…

Fui embora rouco. E até hoje a lua me traz duas lembranças: daquela noite, tão tricolor, e do meu avô – sempre tão presente.

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