A amargura que não tem fim

Se alguém duvidava ser impossível decair semana a semana, o Palmeiras mostra que não há limites para a sua própria derrota. Já era complicado antes do clássico contra o São Paulo, ficou ainda pior depois dele. Assim, se segue a marcha rumo a outro rebaixamento, e os passos são largos, bem largos, agravados pela inércia de uma diretoria tão culpada pelo fracasso quanto o próprio time.

É um exercício complicado imaginar um time grande e com mais ‘saúde’ do que vários outros da Série A, patinar na própria incompetência, como quem desliza numa cozinha toda bagunçada e com o chão engordurado. Paulo Nobre é sim o principal culpado por essa baderna, o cozinheiro atrapalhado que vai do ovo quebrado no fogão até o bolo queimando na prateleira do forno.

Assumiu com a missão de consertar as incontáveis burradas de Arnaldo Tirone na gestão anterior. Disse que iria gastar pouco. Precisava subir da Série B para poder trabalhar com calma. Começou a tropeçar nas próprias promessas. Peitou as organizadas, coisa que nenhum outro conseguia fazer. Emprestou dinheiro do bolso ao clube, coisa que ninguém havia requisitado. Perdeu Barcos numa negociação que é difícil explicar, repôs o atacante com Alan Kardec, gastou milhas com Leandro, perdeu outros atletas relevantes em função de sua política de austeridade, que se provou seletiva demais para quem queria economizar.

Desonrou Gilson Kleina, que foi humilhado com uma redução de salário, entre outros anúncios de que o clube estava atrás de outro treinador. Perdeu Alan Kardec por troco de pinga e teimosia. Se opôs a Ricardo Gareca quando o argentino foi contratado. Agora volta atrás na sua política de austeridade, entendendo que um clube de grande porte merece ter contratações de grande porte, ou mesmo manter os seus principais jogadores. Depois de tantos erros e poucos acertos, sobra muito pouco para se comentar de Paulo Nobre. É sensato pedir a sua saída imediata, para que qualquer outra entidade demoníaca tome conta do clube. O Palmeiras anda muito limpinho, inteligente, sensato, equilibrado e centrado para quem está lutando para se manter na elite brasileira, um ano depois de conseguir o acesso da B.

Não é hora de adotar o bom mocismo e as práticas seguras, economicamente falando. É hora de ousar, pensar o impensável, fazer o impossível, e não de uma forma negativa como o piloto de rally já provou que consegue. Não podemos permitir que o técnico mais promissor que pisou no clube em muito tempo, seja vítima de burrices injustificáveis de Nobre e seu fiel escudeiro, o defasado José Carlos Brunoro.

Quanto mais esses senhores se calam diante da desgraça que apodrece a história de um gigante, mais fundo o Palmeiras cava a sua própria cova, cheia de desculpas esfarrapadas para o fracasso. Se acostumou a não disputar títulos, a transitar entre as divisões, a passar vexames quase que anualmente, a perder clássicos, a perder jogadores, a não formar ídolos e sobretudo a destruir a sua autoestima.

Hoje o Palmeiras entra em campo sempre como o azarão, não importa o adversário. Se enfrenta o lanterna do Brasileirão, é porque está diante de um desesperado que precisa pontuar. Se enfrenta o líder, é porque reconhece que o adversário é bem superior. Se enfrenta alguém na mesma situação, é porque ainda não encaixou um padrão. Todas essas desculpas mancham o escudo que um dia, eu digo UM DIA, botou medo em alguém.

Os rivais do Palmeiras não fazem mais as mesmas piadas de antes, não jogam clássicos como se pudessem perder, apenas manifestam um sentimento de pena, aquele que abandona o instinto competitivo e parte para uma relação quase caridosa. Há anos o clube vem mendigando qualquer esmola em cenário nacional, e infelizmente acostumou a sua torcida a seguir o mesmo caminho. O resultado disso é o pessimismo crônico, que não alivia nem com algum título. Coisa que também não vai acontecer nos próximos anos. Naturalmente, o palmeirense prefere olhar para o passado, um lugar onde ele era odiado por ser vencedor e imponente, tão imponente quanto o seu hino tenta convencer.

É uma amargura sem fim torcer para esse time, que já esgotou todo tipo de ofensa que um apaixonado possa falar da boca pra fora. Hoje a dor bate no fundo do coração, magoa e deprime. Faz a gente ter ódio nos dias de jogo, causa tensão e mau humor, faz a gente disparar fogo pelas ventas, mesmo quando a vitória se aproxima. Uma hora isso vai cansar além do que deve, vai transformar a velha paixão em inimizade declarada. Aí vamos chegar a um ponto crucial de ruptura, porque aqueles momentos de glória do passado vão parecer inexistentes, vão se perder na nossa própria mágoa.

Você se apequenou, Palmeiras. Respeita a sua própria história ao invés de exigir que os outros o façam no seu lugar. Pare de arrumar desculpas para as suas quedas e trate de acordar desse seu sono pesado. Porque o tempo vai ser (já está sendo) implacável para a sua ruína.

1 pensamento em “A amargura que não tem fim”

  1. Você mandou bem, resumiu em poucas e amargas palavras, mas sinceramente, não queria ter lido nada disso. Preferia ter visto um time sendo massacrado em campo e saído com uma vitória mínima. Que venha a próxima, mas que não seja tão amarga enquanto dure.

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