Especial Scolarismo: A queda do próprio legado

Chegamos na última parte do Especial Scolarismo. Sim, atrasado, mas está aí. O último capítulo trata da passagem de Felipão pela Seleção Brasileira, em dois períodos diferentes. No primeiro, o que representou a sua consagração, e no segundo, a sua queda, vergonhosamente coroada com um 7 a 1 diante da Alemanha. O que se perdeu no caminho?


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ESPECIAL SCOLARISMO: PARTE I – O duro jogador chamado Luiz Felipe
PARTE II – Na terra de Canuto, a primeira taça de Felipão
PARTE III – Conquistando o Brasil com o Criciúma
PARTE IV – A América é do Grêmio de Felipão
PARTE V – Uma máquina palmeirense de guerra
PARTE VI – Uma família portuguesa, com certeza

Primeiramente, vamos tentar nos ater aos fatos: Scolari venceu dois campeonatos em duas passagens. Foi campeão do mundo com uma Seleção desacreditada e humilhado com uma que representava o oposto. Depois dos tempos de treinador da equipe de Portugal, ficou claro que o técnico vencedor não era mais tão vencedor assim, que o espírito de guerra nas equipes não existia mais, e que Felipão virou refém da própria fama de rabugento e doutrinador.

Ainda assim, foi difícil ver a imagem de um ídolo se desfazendo pelo implacável efeito do tempo, que derruba até estátuas antes exaltadas pela torcida. Teve suas passagens por Chelsea e Bunyodkor, antes de retornar ao Palmeiras, com quem foi campeão da Copa do Brasil e semi-rebaixado em 2012. Meses depois, foi chamado para assumir a Seleção Brasileira, outra vez. Mas o que aprendeu com a primeira passagem?

Felipão quase ficou de fora da Copa de 2002. Treinava um time que patinou nas Eliminatórias Sul-Americanas e era treinado por Emerson Leão. Em terceiro lugar, o Brasil só se classificou nas rodadas finais, e com apenas três pontos a mais que o Uruguai, que precisou passar pela repescagem. Toda aquela sensação de que daria algo errado passou quando 2001 acabou. Daquele ponto em diante, o técnico conseguiu fechar o grupo, e mesmo com as suas teimosias, convenceu o grupo de que era possível ser campeão novamente.

Não sem uma grande polêmica: a ausência de Romário no Mundial foi extremamente criticada pela imprensa e pela torcida. O baixinho ainda tinha alguns anos de bom futebol pela frente, mas Scolari preferiu bancar um ataque com o ainda preocupante Ronaldo, auxiliado por nomes como Rivaldo, Edílson e Luizão.

A primeira fase passou de forma tranquila. 2 a 1 controverso contra a Turquia, com direito a pênalti inexistente em Luizão, expulsão de zagueiro turco por cena de Rivaldo, goleada contra a China por 4 a 0 e mais um espetáculo contra a Costa Rica, por 5 a 2. Nas oitavas de final, uma Bélgica perigosa, que apesar do 2 a 0 sofrido, foi o jogo mais complicado que a Seleção teve. Diante da Inglaterra, uma virada com requintes de malandragem, no gol de falta quase do meio campo feito por Ronaldinho, 2 a 1. A semifinal marcou o reencontro com a Turquia, o placar de 1 a 0 mais apertado daquele Mundial. Na decisão, uma Alemanha remendada sem Ballack, caiu diante de uma atuação competente de Ronaldo, autor dos dois gols da vitória por 2 a 0. Brasil campeão do mundo, e a Família Scolari virou modelo de conduta.

Com o título e a consagração garantidos, Felipão tentou nadar em novos mares. Treinou Portugal (ler parte VI do Especial) e retornou ao Brasil depois de sair do Palmeiras em cacos. Muitos diziam que era um prêmio não merecido ao treinador que quase rebaixou o alviverde. Se diziam que a Seleção não tinha resultados com Mano Menezes e ainda por cima jogava um futebol contestável, Felipão tratou de dar um jeito em pouco tempo. Perdeu e patinou no início, mas conseguiu encontrar o caminho para trazer o time do Brasil para mais perto da torcida.

Antes da queda: a ilusão

A Copa das Confederações talvez tenha sido a maior miragem da Segunda Era Scolari na CBF. Jogos convincentes, time jogando para a torcida como deveria ser: dominando, calmo, bola no chão e habilidade, características para qualquer equipe que quer ser vencedora. A prova diante da Espanha, por 3 a 0, na decisão, iludiu a todos que esperavam um Mundial vencido em casa, para superar os próprios fantasmas.

Amistosos inconclusivos: o susto com Neymar

Vários amistosos depois, contra times sem expressão alguma, o Brasil chegou a uma semana da Copa para enfrentar a Sérvia, no Morumbi. Nos segundos que sucederam o apito inicial, um susto: Neymar levou uma pancada violentíssima e sentiu no gramado. Retornou, mas só do brasileiro pensar que ele poderia desfalcar o time, como outras várias seleções foram desfalcadas às vésperas da competição, bateu um tremendo desespero.

Descontrole emocional

O Brasil saiu perdendo para a Croácia e virou para 3 a 1, mas expôs ao mundo um problema sério no time: o problema em controlar as suas emoções. Sempre à flor da pele, com faltas estúpidas ou momentos de apagão, a Seleção empatou com o México em 0 a 0, num jogo em que Ochoa brilhou. Venceu Camarões jogando mal por 4 a 1, avançou. Ficou a um chute na trave de Pinilla de se despedir da Copa, diante de sua torcida, no Mineirão. Bem verdade que o juiz anulou um gol legal de Hulk, mas os pênaltis contaram a história de um grupo completamente perdido na própria vaidade e nervosismo. Distantes durante os chutes, capitão e time passariam por mais um desafio enorme adiante, contra a Colômbia. Com 1 a 0 no placar logo no início, foi fácil lidar com a vantagem, ampliada no segundo tempo em golaço de David Luiz. Mas o segundo trecho da etapa final deu más notícias aos torcedores.

Sem Neymar e sem defesa

A Colômbia fez um gol, que foi corretamente anulado. James Rodríguez diminuiu de pênalti e o Brasil passou muito perto de levar outro empate. Escapou no tempo normal, não antes de ver Neymar sair de campo após uma joelhada brutal na coluna. O Brasil parou para se chocar com a imagem do seu camisa 10 estendido no chão e levado de maca, só para depois ouvir a notícia que ele estaria fora do Mundial. Desnecessário relembrar o que aconteceu depois, na semifinal, em pleno Mineirão. Sete gols contra um time que nem entrou em campo e poderia muito bem ter saído dele ao intervalo.

Felipão não tinha mais voz. Seus gritos não mais eram ouvidos. Os golpes precisos dos alemães desnortearam toda uma nação, descrente no massacre a que estava sendo submetida dentro de sua casa. De repente, a expressão séria de Scolari virou uma máscara deprimida e resignada da missão, a penúltima. Lhe restou fingir que aquilo não ocorreu, como muitos ainda tentam fazer para curar a ferida de um desastre. Encarou a Holanda e levou 3 a 0, com a mesma postura entregue do jogo contra a Alemanha.

Pediu demissão e carregou nas costas a vergonha de 11 que não conseguiram jogar em nenhum momento daqueles últimos 180 minutos. Uma despedida com sabor amargo, que envenenou as conquistas de outrora e ainda transformou um herói em um vilão essencial para explicar a tragédia dos 7 a 1. Felipão teve sua parcela de culpa, apesar de não ter entrado em campo. E durante muitos anos será o principal lembrado nas imagens que retratam como o Brasil foi qualquer outra seleção medíocre que não a pentacampeã do Mundo, numa semifinal de Copa.

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