San Lorenzo e o título que veio depois de uma vida

Depois de uma série de milagres, desventuras, sofrimento e claro, uma espera quase eterna, o San Lorenzo se sagrou campeão da Copa Libertadores. Foi contra o Nacional, Nacional Querido, que superou suas limitações para chegar até uma decisão que iria de qualquer forma revelar um vencedor inédito, o terceiro consecutivo.

Ainda que não possa se dizer que o Ciclón jogou o melhor futebol da competição, certamente foi o time que mais conseguiu derrubar adversários superiores, como Grêmio e Cruzeiro. Esqueça a tônica dos milagres do Papa, o San Lorenzo jogou a bola que precisava jogar em cada confronto, o que mostra a sabedoria da raposa que é Edgardo Bauza, comandante e bicampeão continental (2008 com a LDU).

Estava tão com pinta de que o San Lorenzo seria campeão da América, que ele de fato foi. Sobreviveu a uma primeira fase num grupo fraco e quase sendo eliminado. Venceu o Botafogo para garantir a sua classificação, derrubou o Grêmio após penalidades, surpreendeu o Cruzeiro e amassou o Bolívar numa semifinal arrasadora. Enquanto isso, o Nacional suava para tirar Vélez, Arsenal e Defensor, adversários certamente sem a mesma tradição do que os que passaram na frente do Cuervo.

E como foi difícil esperar. 106 anos, longos anos, um centenário e descontos para que a tão sonhada taça viesse na primeira decisão continental de sua história, tal qual Atlético Mineiro e Corinthians, em anos anteriores. Curiosamente, os dois brasileiros também precisaram passar do seu primeiro século de história para levantar a bela taça da Libertadores.

Em campo, nos 90 minutos mais demorados que se tem notícia numa competição como essa, o San Lorenzo lutou contra o próprio azar e o histórico de grande sem título. Ora, mas se a grandeza lhe pertence, não seria uma Copa que diria o contrário sobre a sua imponência, mas ainda assim, a equipe de Boedo pode gritar o que estava entalado na garganta desde que o Viejo Gasómetro ainda estava de pé e não tinha dado lugar a um gigantesco supermercado do Carrefour.

Num trecho do livro ‘Futebol ao sol e à sombra’, de Eduardo Galeano, o autor conta uma passagem da vida de José Sanfillippo, ídolo absoluto do Cuervo, relembrando seus feitos no Viejo Gasómetro, enquanto caminhava pelas fileiras do mercado, que ocupavam os mesmos pedaços de gramado que um dia ele pisou como jogador. Eis o relato emocionado de Osvaldo Soriano:

[Sanfillippo] Eu disse ao número cinco, que estreava: assim que começar a partida, manda a bola para a área. Não se preocupe, que não vou te deixar mal. Eu era mais velho e o rapaz, que se chamava Capdevilla, se assustou e pensou: ‘se eu não obedecer, estou frito’.

[Narrador] E aí, de repente, Sanfillippo me mostra a pilha de vidros de maionese e grita: “Ele colocou a bola bem aqui!” As pessoas nos olham, assustadas. 

[Sanfillippo] A bola caiu atrás dos zagueiros centrais, atropelei mas ela foi um pouco para lá, ali onde está o arroz, viu só?

[Narrador] E ele me mostra a estante de baixo, e repente corre como um coelho, apesar do terno azul e dos sapatos lustrosos.

[Sanfillippo] Deixei-a quicar, e PLUM!

[Narrador] Dispara com a esquerda. Nos viramos, todos, para olhar na direção da caixa, onde há trinta e tantos anos estava o gol, e parece a todos nós que a bola entra por cima, justamente onde estão as pilhas para rádio e as lâminas de barbear. Sanfillippo levanta os braços para festejar. Os fregueses e as caixas quase arrebentam as mãos de tanto aplaudir. Quase comecei a chorar. O Nene Sanfillippo tinha feito de novo aquele gol de 1962 contra o Boca, só para que eu pudesse vê-lo.

E alguns anos depois, num estádio que de nada parece com uma fileira de supermercado, a fanática torcida azulgrana levantou suas bandeiras, jogou seus rolos de papel e cantou o nome de seus ídolos, só para que a América pudesse vê-la vibrar e ser campeã, num ineditismo tão fantástico quanto a imaginação de Sanfillippo.

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