Especial Scolarismo: Uma família portuguesa, com certeza

Chegar com o status de campeão do mundo deveria bastar para que pessoas acreditassem no seu trabalho, mas não foi isso que aconteceu quando desembarcou em solo lusitano. Após uma decepcionante campanha na Copa do Mundo de 2002, a seleção portuguesa vivia um divisor de águas. A chamada Geração de Ouro (com diversos jogadores bicampeões mundiais sub 20) liderada por Figo e Rui Costa, passou de orgulho a vergonha nacional em apenas três jogos e o negativismo tomou conta de um povo que tem a tristeza e a nostalgia de épocas melhores como características inseparáveis.

Sede da Euro 2004, Portugal parecia não respirar aquele ambiente de ansiedade e palpitação que toma conta dos países antes de realizar grandes eventos como aquele. E até parecia que a seleção iria seguir este mesmo caminho; frio, triste, sem qualquer orgulho.

Em um seu primeiro treino ao comando da seleção das cinco quinas, o mal-humorado gaúcho de bigode mostrou logo o que estava ali por fazer. Figo, então craque do Real Madrid e capitão da seleção, foi obrigado pelo treinador a voltar ao vestiário e colocar caneleiras. “Se você joga com caneleiras, vai treinar com caneleiras”. O clima era tenso. Em pouco tempo, Scolari barrou históricos como o goleiro Vitor Baia, multicampeão com o Porto, e o atacante João Pinto, considerado um dos grandes atacantes portugueses. Decisões que pareciam não agradar nem os jogadores, nem a imprensa portuguesa.

Pouco antes do início da Euro, as coletivas dele já eram um show. Esbanjava confiança, queria passar isso aos jogadores e ao povo. No Brasil é muito comum as pessoas colocarem bandeiras nas janelas, pintarem as ruas, colorirem o país de verde e amarelo durante uma Copa. Em Portugal isso não existia até o dia em que o líder daquela equipe pediu em rede nacional que gostaria de ver uma bandeira portuguesa em cada janela de todas as cidades que a equipe passasse.

E assim foi feito. Aos poucos, Portugal foi ganhando cara, cor, e a esperança vinha com fé num trabalho que ainda não tinha resultados claros. A derrota na estreia contra a Grécia foi um balde de água fria mas, também, o ponto de virada para uma seleção que passaria anos entre as melhores do mundo. As mudanças foram surpreendentes. Para o segundo jogo, Felipão sacou o zagueiro Fernando Couto (um dos jogadores que mais vezes vestiu a camisa da seleção) e colocou Ricardo Carvalho, que havia feito grande temporada no Porto. Susbstituiu o “maestro” Rui Costa por Deco e deu a titularidade a um jovem de 19 anos, ainda pouco conhecido, um tal Cristiano Ronaldo. As grandes vitórias contra Espanha, Inglaterra e Holanda, fizeram aquele povo ter uma confiança que talvez não fosse possível ter alguns meses antes. A derrota contra a mesma Grécia numa final jogada num estádio da Luz completamente lotado, foi uma tristeza sentida com orgulho, daquelas que você consegue olhar pra frente e seguir.

As eliminatórias para a Copa de 2006 na Alemanha chegaram, e com uma base consolidada, Portugal conseguiu se classificar e chegar não como surpresa, mas como uma das seleções a serem observadas. Nessa época, o brasileiro Luis Felipe Scolari havia quase desaparecido. Ele era português. Ele cantava o hino. Defendia o país. Exigia um respeito que nem mesmo alguns portugueses conseguiam fazer. E ele era adorado!

Após um respeitável 4º lugar na Copa, as comemorações se misturavam a uma grande preocupação: o que fazer com a saída do técnico? Uma vez que o contrato iria se encerrar. Quase que como um noivado que obviamente se transforma em casamento, a Federação Portuguesa e o técnico renovaram o contrato por mais dois anos, para juntos irem até a Euro 2008.

Nessa altura, Portugal passara a ser respeitada como seleção grande, de bons jogadores, coisa que nunca havia acontecido na história. Cristiano Ronaldo havia deixado de ser um menino que chorou em 2004 para atual melhor jogador do mundo. Pela primeira vez na história Portugal era a seleção favorita nas casas de apostas esportivas para a conquista do título. Uma derrota para a sempre forte Alemanha nas quartas de final parecia mostrar que era apenas o fim de um ciclo com um ótimo trabalho realizado.

Mas a passagem de Felipão por Portugal não foi apenas um trabalho de futebol. Ele deu esperanças a um povo melancólico, mostrou a importância de acreditar mesmo quando se é inferior e em troca recebeu um eterno respeito, como se fosse um heroico navegante que voltara depois de conquistar uma terra um dia prometida.

Até hoje as bandeiras seguem nas janelas.

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