Especial Scolarismo: Uma máquina palmeirense de guerra

Por Leandro Iamin e Felipe Portes

O Palmeiras definhou no quadrangular final do Paulistão de 1997. A campanha do ano anterior foi tão avassaladora que a Federação Paulista jogou fora os pontos corridos, inventou 3 rodadas e 6 clássicos para apurar o campeão, e o Verdão, em 270 minutos, tomou 14 gols de Corinthians, São Paulo e Santos. Felipão, contratado, assistiu ao último jogo na Vila Belmiro, um 4×0 que nada valia pra ninguém, e declarou à revista Placar: “é, teremos muito trabalho”. O “técnico” neste quadrangular era Sebastião Lapolla.

Felipão voltava do Japão para vestir as cores do time que mais e melhor rivalizou com aquele Grêmio vencedor de 94 e 95. Mas que tinha um estilo, por mais subjetivo que isso seja, diferente da natureza gremista. Scolari fez as coisas do jeito dele, e transformou toda uma geração de palmeirenses em neuróticos de guerra. A exigência estética ganhou novos conceitos, a máquina de 96 virou quadro de museu, e uma equipe pragmática, maliciosa, quente, foi montada a partir de manutenções e uma lista de reforços forte, bem forte.

Alex chegava menino de tudo de Curitiba. Alí se tornaria o camisa 10 campeão da Libertadores dois anos depois. Zinho e Viola davam peso, Júnior chegava pra mandar na lateral, Euller era titular e Oséas reserva. Roque Júnior, que era chamado de Júnior Segundo, ganhou nome de campeão e foi efetivado. Marcos emprestado? Não, deixa ele aí. Primeiro trabalho, e Felipão foi vice-campeão daquele ano. Perdeu para o Vasco de Edmundo, expulso na ida mas atuando na volta.

Ele veio pra jogar Libertadores. Estava fora da de 98. Era hora de jogar tudo na Copa do Brasil (naquele tempo só 2 brasileiros, os campeões, se classificavam). Oséas ganhou, tal qual Fred na Seleção, titularidade eterna ao marcar o gol do título aos 48, o gol espírita mais improvável da história moderna palmeirense. O Palmeiras ganhou, tal qual aquele Grêmio de 94, direito de se preparar por 6 meses para a Libertadores do ano seguinte. E Scolari começou o seu teatro. Enquanto montava o time, testava a imprensa, adestrava o temperamento da equipe e usava a Mercosul como laboratório continental: foi campeão da dita cuja, entre partidas cardíacas, discussões públicas com o Ministro da Saúde José Serra e contratações imediatas e futuras.

Derby bom é derby em Libertadores

O time de 99 era fortíssimo, Evair, Sampaio, em dada altura com Marcos nos titulares, Arce, o artilheiro Júnior Baiano e um semestre que abreviou a vida do torcedor, tantos foram os jogos com enredos enlouquecedores. Por muito pouco nem passou de fase na Libertadores. Ao passar, bateu o atual campeão, e, depois, o Corinthians, o River e o Deportivo Cali sempre perdendo um jogo e vencendo outro. Os duelos com o Corinthians, aliás, em 99 e 2000, foram definitivos.

O de 1999 guarda um gosto especial, quase de sangue. Tamanha foi a tensão que envolveu os duelos na primeira fase e quartas de final. São Paulo estava dividida até as quartas de final da competição. De um lado, o Palmeiras consciente, decisivo e fortíssimo na bola aérea. Do outro, o Corinthians de Oswaldo de Oliveira que fazia bom uso da posse de bola, tinha contragolpes mortais e nas faltas e escanteios levava perigo com Marcelinho Carioca.  Nos dias 5 e 12 de maio, a segunda batalha iria parar a cidade, colocando frente a frente dois dos esquadrões mais vencedores que as agremiações rivais já viram.

O Morumbi estava lotado para ver mais um clássico. Durante o jogo de ida o alviverde fez 2-0, graças a Oséas e Rogério, que completou uma arrancada de Paulo Nunes pela esquerda. Também foi dia de Marcos, que fechou o gol e começou a ganhar lugar no coração do palmeirense. Muito mais parelhos do que os torcedores esperavam, os 90 minutos viram a defesa de Scolari se sobressair e utilizar com inteligência os espaços corintianos. Em desvantagem, os comandados de Oswaldo se lançavam ao ataque e forçavam Marcos a praticar incríveis intervenções.
Tudo se inverteu sete dias depois. O agregado virou a favor do Corinthians a partir dos 31 minutos. Edilson havia marcado aos seis, mas cometeu falta clara no goleiro rival com uma entrada perigosa em reposição de bola e viu o tento ser anulado. Num cruzamento de Marcelinho para a pequena área, o mesmo Capetinha chegou de carrinho e desviou, marcando o primeiro. Júnior e Edilson foram expulsos pouco antes do intervalo, numa confusão gerada por um carrinho de Marcelinho no lateral esquerdo palmeirense.
Após a volta do intervalo, o relógio marcava nove minutos quando em jogada reprise do primeiro gol, Ricardinho apareceu livre na área e tocou para vencer Marcos. 2-0, tudo igual, o empate na soma total dos resultados levaria para os penais. Repleto de tensão, o dérbi teve vinte minutos eletrizantes, se tornando instantaneamente num dos maiores clássicos da década.
Aos 36, Paulo Nunes teve a chance de ouro para finalizar o encontro. De cara para o gol, chutou e encontrou Maurício no meio do caminho. Marcelinho e Euller também desperdiçaram duas outras oportunidades, assim como Ricardinho que jogou por cima uma bola aos 45. Do pior jeito possível para qualquer torcedor, tudo se resolveu nas penalidades. Dinei chutou no travessão, Marcos agarrou o chute de Vampeta e dos pés de Zinho saiu a vaga para enfrentar o River Plate na semifinal. Estes dois rivais seguem se enfrentando apenas por protocolo, obrigação. A história do derby acabou no pênalti de Marcelinho Carioca, em 2000. E a passagem de Felipão acabou na derrota no Morumbi diante do Boca, quando, também, acabou na prática a Era Parmalat.

Ele voltou mais de uma década depois. Voltou a vencer uma Copa do Brasil. A história não foi a mesma, o futebol já não era o mesmo. Seja como for, o palmeirense também nunca mais foi o mesmo. E deve isso com gratidão a Luiz Felipe Scolari.

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