Especial Scolarismo: A América é do Grêmio de Felipão

Por Viktor Ruppini

Escrever sobre a passagem do Scolari no Grêmio é algo que requer um pouco de mágica, eu diria. O filho que retornou ao Grêmio depois de 18 anos passa a nós, gremistas, um fluir mais puro que qualquer liturgia pagã pode chamar de “magick”.

Nosso resgate ao passado vitorioso de Felipão no Grêmio começa em um retorno, no ano de 1993, como é típico dos técnicos brasileiros que ganham títulos: dificilmente acontecem logo na primeira vez em grandes clubes.

Luiz Felipe Scolari retornou do Qadsia SC (Kuwait) em 1993 para o Grêmio, após uma passagem sem títulos no Grêmio em 1987. Na primeira passagem, Scolari encontrou um time que vinha agigantado pela conquista do Brasileiro de 1981 – ganhando do São Paulo em pleno Morumbi – e pelo estandarte internacional da Libertadores da América de 1983 – em face do Peñarol -, e do Mundial, conquistado por 2×1 na prorrogação contra o Hamburgo, com dois gols do Renato Portaluppi – placar este que se repetiu na inauguração da Arena Grêmio.

O retorno de Felipão se dera em circunstâncias plenamente opostas: apesar das conquistas da década de 1980 – inclusive com sua primeira Copa do Brasil, em 1989, contando com Cuca e Assis – o Grêmio teve um terrível início de década: fora rebaixado para a Série B logo em 1991 e perdera seu brilhantismo e poderio econômico.

Com a ascensão à Série A em 1992, o Grêmio se preparava, em 1993, para uma nova perspectiva: após a gestão vitoriosa de 1982-1983, o Dr. Fábio André Koff retornava à direção do clube, que logo de início já conquistara o Campeonato Gaúcho de 1993, comandado pelo então técnico e hoje político petebista Cassiá.

Enquanto o Grêmio realizava uma tour de amistosos pela Europa (o Campeonato Gaúcho se encerrara ao final de Julho), Cassiá teve desentendimentos com a diretoria do clube e acabou preterido. Fábio Koff age e contata Scolari, reconhecendo o trabalho forte que este realizara no Criciúma anos antes e percebendo uma sintonia de filosofias. Apesar de relutante em começar um trabalho em meio de temporada, Scolari aceita o desafio, que não gera títulos de imediato, mas começa uma caminhada que o tornou um ícone – divino para nós, gremistas – na história do clube.

1994
Conquista: Bi-Campeonato da Copa do Brasil
Jogadores-destaque bancados por Scolari: Roger, Arílson e Nildo.

Foto: Canelada
Foto: Canelada

O ano de 1994 foi quando o Grêmio conquistou o bi-campeonato da Copa do Brasil, com uma vitória de 1×0 sobre o Ceará no Estádio Olímpico, após um empate sem gols no Castelão (Fortaleza/CE).

Após eliminar Criciúma, Corinthians, Vitória e Vasco, o Grêmio conquistou um título nacional – com épico gol de Nildo aos 10 minutos do primeiro tempo – depois de quatro anos, quando havia vencido a Supercopa do Brasil em 1990, disputada contra o Vasco da Gama – então campeão do Campeonato Brasileiro de 1989.

Apesar de pressionado e criticado, Felipão teve pulso e apoio de Fábio Koff para bancar promessas da base como titulares e que valem nossa citação, apesar da introdução em 1993, em especial Danrlei – que substituíra o grande Mazzaropi-, Carlos Miguel – originalmente lateral esquerdo e colocado na titularidade como meia esquerdo -, e Émerson – volante de ótima qualidade, capitão da Copa de 2006 e com passagens posteriores brilhantes pela Itália e Alemanha.

A direção, com o aval de Scolari, trouxe Nildo, direto do Cerro Porteño, que teve sua estrela pessoal e marcou o gol do título da Copa do Brasil em 1994, e promoveu os jovens Roger como lateral-zagueiro pela esquerda em 1994 ao time principal, posição que ocuparia de forma unânime até sua saída, em 2003; e Arílson, jovem meia habilidoso, protagonista de várias polêmicas por seus vícios.

Formava-se então a base campeã do Grêmio, que fundamentou as conquistas seguintes e solidificou o “método Koff” de contratação: busca por jogadores sérios, sem badalação excessiva e com um típico perfil de “refugo do Eixo”.

Curiosamente, o Grêmio não foi campeão Gaúcho em 1994, o “Gauchão Interminável”, que durou até dezembro. Inclusive, o Grêmio foi protagonista de um fato curioso: teve 3 jogos no mesmo dia – as 14h, as 16h e as 18 -, tamanha era a monstruosidade do torneio.

1995
Conquistas: Campeonato Gaúcho e Copa Libertadores da América
Jogadores-destaques bancados por Scolari: Adílson, Dinho, Goiano e Jardel

Foto: Folha do Grêmio
Foto: Folha do Grêmio

Antes que venham as pedras, não elenquei Arce, Rivarola e Paulo Nunes porque tenho a total confiança que constarão na lista sobre o Palmeiras, mesmo sabendo que foram tão fundamentais – ou mais – para a conquista dos títulos. Aliás, o fato de serem citados tantos jogadores em um período de tempo tão curto só demonstra o “método Koff” de contratação, que, de forma contundente, soube determinar as fragilidades do time e soube completá-lo.

O Grêmio fora campeão no Campeonato Gaúcho de 1995 com uma perspectiva interessante: foi o campeonato ganho pelo “Banguzinho”, carinhoso apelido dado pelo mesclado dos reservas e garotos da base que participaram na maioria do torneio nos jogos pelo Grêmio, que concentrara sua força total na Libertadores. Esse método caiu em desuso no Campeonato Gaúcho pela dupla Gre-Nal devido ao crescimento dos times gaúchos e da atenção ao futebol local gerada pelos bons resultados na década de 2000, em especial pelo Internacional (duas Libertadores, uma Sulamericana, um Mundial e uma Recopa) e timidamente pelo Grêmio (uma Copa do Brasil).

Após passagens silenciosas por Atlético-PR, Cruzeiro, Internacional e Atlético-MG, Adílson Batista foi um homem de confiança de Felipão, ganhando a braçadeira de capitão, levantando a taça da segunda Libertadores conquistada pelo Grêmio. Scolari também determinara, como titulares, os icônicos Dinho e Luiz Carlos Goiano como volantes, repetindo a dupla do São Paulo em 1993. Inclusive, o “Cangaceiro”, como era conhecido Dinho, é um dos símbolos contemporâneos do que futebol significa ao Grêmio, tanto pela sua seriedade como pelo seu vigor nas entradas em adversários. Já o garoto Jardel, assim como Paulo Nunes – o “Diabo Loiro” -, que viera “de brinde” em negociação com o Flamengo, o “Super Mario”, veio como um refugo do Vasco, que buscava se livrar do alto centroavante, que fez história com a camisa 16 do Grêmio na Libertadores de 1995.

As finais da Copa Libertadores de 1995, que dariam o segundo título ao Imortal Tricolor, foram disputadas em 23.08.1995 (Estádio Olímpico – Porto Alegre/RS) e 30.08.1995 (Estádio Girardot – Medellín/COL). Com uma campanha tortuosa – superando Olímpia, Palmeiras e Emelec na fase eliminatória-, provendo jogos memoráveis, como as goleadas recíprocas contra o Palmeiras – curiosa situação que o Grêmio aplicara 5×0 no Palmeiras no Olímpico ao jogo de ida e perdera, com interferência argumentável da arbitragem, de 5×1 no Parque Antártica – o Grêmio chegava em sua terceira final de Libertadores, contra o Atlético Nacional/COL.

Logo na primeira partida da finalíssima a esquadra de Scolari assentara sua superioridade tática, disciplinar e física: aplicou sonoros 3×1 sobra o Atlético Nacional, com gols de Jardel, Paulo Nunes e Marulanda (contra) para o Grêmio e do jovem Juan Pablo Ángel para o Atlético, que vinha com um time memorável, contando com Aristizábal e Higuita. No jogo de Medellín o Grêmio apenas empatou contra o Atlético por 1×1, gols de Aristizábal (Atlético Nacional/COL) e Dinho (Grêmio/RS), em penalidade máxima, assegurando a vaga para a disputa do Mundial Interclubes contra o Ajax e dando para Scolari seu primeiro título internacional, colacionando seu nome na lista de treinadores honrados do Grêmio.

A frustração do quase

Foto: Planeta Bola
Foto: Planeta Bola

Nossa saga emocionada continua. Scolari agraciou os gremistas com mais conquistas, que já detalharemos. Mas, antes de prosseguir, é importante – e quem não acharia? – conversar sobre um episódio dolorido para os gremistas: em que pese não ter sido uma derrota para um time do Congo, é extremamente doloroso chegar tão perto e perder um Mundial Interclubes nos pênaltis, contra o melhor time do mundo – acho que fora de cogitação contestar algo nesse sentido.

Depois de uma temporada meramente complementar pelo Campeonato Brasileiro de 1995, o Grêmio reunira suas forças para a disputa do título em Tóquio: como defensor do título da Libertadores da América, teria de enfrentar o poderoso Ajax, campeão da Liga dos Campeões da UEFA.

Acho justo, antes de continuar a falar de Grêmio, pontuar um pouco sobre o próprio Ajax, que tinha um elenco “desprezível”, contando com alguns nomes de “segunda classe” como van der Sar, Reiziger, Blind, Frank e Ronald de Boer, Finidi, Davids, Kluivert, Overmars, Kanu e o comando de Louis van Gaal. Aliás, se isso não é “um cano de time”, não sei bem o que é.

No dia 28 de novembro de 1995, no Estádio Olímpico de Tóquio, foi disputada a tão aclamada taça. Em campo, mostrou um Grêmio disciplinado e sério, que conseguira segurar o placar sem levar gols, surpreendendo os holandeses. Incrédulos, os holandeses atacavam sem qualquer remorso, de forma organizada e profissional, parando nas barreiras tortuosas de Scolari, um gênio da retranca – que só ressalta o quão abjeta é a relação com os resultados da Copa do Mundo de 2014.

Após o empate sem gols, a partida foi levada à disputa de penalidade máximas. Dinho (Grêmio) e Kluivert (Ajax) erraram as primeiras cobranças. No ciclo seguinte, Arce desperdiçou sua chance, enquanto a de Ronald de Boer foi efetiva. Daí em diante, Magno, Gélson e Adílson (Grêmio) e Frank de Boer, Finidi e Blind converteram as cobranças, dando a vitória ao fim para o Ajax por 4-3 na disputa final, consagrando o time holandês como campeão do mundo. Chegou perto e, por muito pouco, não sentimos de novo o gosto do “Mundo Azul”.

1996
Conquista: Campeonato Gaúcho de 1996, Recopa Sul-Americana de 1996 e Campeonato Brasileiro de 1996
Jogadores-destaque bancados por Scolari: Mauro Galvão, Aílton, Zé Afonso e Zé Alcino.

Foto: SporTV
Foto: SporTV

Apesar da frustração ao fim de 1995 com a derrota do Mundial aos pênaltis, o Grêmio teve um bom começo em 1996: conquistou o Campeonato Gaúcho pela 31ª vez, ganhando do Juventude nas duas partidas da final. A primeira, disputada em 23.06.1996 no Alfredo Jaconi, terminando em 3×0 para o visitante e a segunda partida disputada em 30.06.1996 no Estádio Olímpico, finalizada com uma goleada de 4×0 para o Grêmio.

Já a disputa da Recopa Sul-Americana, o Grêmio levou a melhor contra o Independiente/ARG, maior campeão da história da Libertadores da América, na partida única disputada contra o Supercampeão da Copa Libertadores 1995. No dia 07.04.1996, o Grêmio novamente jogava no Japão e, em pleno Estádio Kobe Memorial, aplicou 4×1 sobre o Independiente/ARG, dessa vez levando o aclamado título. Com gols de Jardel, Carlos Miguel, Adílson e Paulo Nunes para o Grêmio e Burruchaga para o Independiente.

Mas ainda a temporada e a história reservaram mais para o fim da segunda gestão Fábio Koff e a segunda passagem de Scolari: o Grêmio, apesar de ter apostado em nomes bem menos “brilhantes” que a composição do grupo responsável pelos títulos anteriores, acabou superando a Portuguesa no Campeonato Brasileiro de 1996 e faturou o caneco.

Seguindo a mesma política de gerência planejada, o Grêmio trouxe o ídolo do co-irmão colorado, Mauro Galvão. O zagueiro era de extrema técnica e inteligência, resquício do grupo que contava com Falcão e Carpegiani na década de 1970, sendo um dos jogadores mais presentes na escalação do Grêmio ao longo da campanha pelo campeonato, em que pese contar já com seus 35 anos nessa passagem – que ele repetiria, de forma vitoriosa, na conquista da Copa do Brasil em 2001, aos 40 anos de idade.

Zé Afonso, vindo do Cruzeiro/MG, era um centroavante desajeitado de 1m e 92cm de altura, que apanhava da bola e, ainda sim, tinha sua estrela. Zé Afonso foi essencial após a saída de Jardel e teve uma trajetória vitoriosa pelo Grêmio, participando ainda das conquistas do Gauchão de 1999, da Copa do Brasil de 1997 e da Copa Sul em 2000.

Já Zé Alcino, trazido como um atacante de estatura baixa – tinha apenas 1m e 79cm -, fora destaque do Grêmio, com trajetória similar à de Zé Afonso: participou dos mesmos títulos após Felipão partir e conquistou o coração dos adeptos por sua “alternatividade”, junto com nomes que surgiriam, como Capitão e Itaqui.

Mas o maior ídolo alternativo bancado por Scolari que poderia destacar é, claramente, Aílton, o criticado volante que chegara ao longo do ano de 1996, vindo do Fluminense. Compôs o setor diversas vezes, ocupando a posição de primeiro volante que era de Dinho e sedimentou sua participação como titular na disputa da Recopa, entrando para a história no Campeonato Brasileiro no segundo jogo da final de 1996.

Na disputa de pontos, o Grêmio terminara o Campeonato Brasileiro de 1996 em 6º lugar, com 38 pontos conquistados. Na fase eliminatória, enfrentou Palmeiras, com as partidas terminando por 1×1 em São Paulo e 3×0 em Porto Alegre; Goiás, resultados de Grêmio 3×2 Goiás no Olímpico e Goiás 1×2 Grêmio no Serra Dourada; e a finalíssima contra a Portuguesa, que tinha nomes como Zé Roberto, Caio, Capitão, Alex Alves, Rodrigo Fabri e Clemer.

A final foi disputada em dois jogos: o primeiro, em 11.12.1996, resultou em Portuguesa 2×0 Grêmio, gols de Alexandre Gallo e Rodrigo Fabri. Já o jogo da volta foi disputado no Estádio Olímpico, em 15.12.1996. O Grêmio marcara 1×0 com Paulo Nunes logo aos três minutos, sendo que o jogo foi seguido de minutos tensos, disputado até seu fim. A vitória simples não bastaria para o Grêmio que, caso vencesse por 2×0, chegaria aos 48 pontos na classificação geral e conquistaria o troféu.

Enquanto o Grêmio ia perdendo o controle emocional e Júnior já anunciava a inferioridade do estilo gaúcho, a “brutalidade” do futebol de Scolari enquanto comentava o jogo, enquanto anunciava o quão “quebrador de bola” era Aílton – seu ex-companheiro de Flamengo. Aílton arriscou fora da área e Clemer engoliu o chute – não que essa cena não se repetisse por muitos anos, para felicidade dos gremistas, que maldosamente apelidavam Clemer de “Aviário” enquanto goleiro do Internacional. O Grêmio marcava seu segundo gol aos 84 minutos de jogo (ou aos 34 minutos do segundo tempo) e, com a vitória por 2×0, conquistava mais um título sob o comando de Luiz Felipe Scolari.

Com o final do ano, foi-se Fábio Koff e foi-se Felipão, que foi treinar o Jubilo Iwata. Ainda sim, o projeto vencedor ganhou mais um título, um parto do destino: o Grêmio vencera a Copa do Brasil de 1997 contra o histórico elenco do Flamengo, após 0x0 em casa e 2×2 no Maracanã, prevalecendo os gols marcados fora de casa por João Antônio e Carlos Miguel.

Sob o comando de Evaristo de Macedo, um treinador carioca, o Grêmio ainda esbanjava o domínio da Era Scolari e que logo começou a se dissipar: as parcerias e egos jogaram o Grêmio para os lobos, culminando no endividamento da década de 2000, na disputa da Série B em 2005 – sua sangrenta disputa final contra o Náutico -, e na mudança de filosofia do clube em 2009, que não produz sequer um título regional desde 2010, sob o comando de Silas. Com o retorno “d’Ele” em 2014, o Deus Scolari, nós gremistas esperamos que esses contos vitoriosos voltem para nós.

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