A artilharia fina de Arce

Alguns torcedores mais apaixonados tendem a usar a expressão ‘tão certo quanto um cruzamento do Arce’ para definir algo incontestável, infalível, irremediável. Só essa frase, por si, já dá o tom de uma idolatria criada em torno de um dos jogadores mais técnicos que o Paraguai gerou em toda a sua história.

O lateral-direito marcou época por onde passou. Formado no Cerro Porteño, onde hoje é técnico, Francisco Javier Arce Rolón se acostumou a viver a rotina incansável de treinar um dos principais fundamentos para um atleta da posição. E nela virou referência muito cedo. Quando deu seu primeiro passo pelo Ciclón, em 1989, era só um garoto mirrado, um baixinho que tinha um canhão nos pés.

Aos poucos, foi florescendo o talento que lhe fez capitão e ídolo da torcida do Cerro. Tricampeão paraguaio em 1991, 92 e 94, chamou a atenção do Grêmio, clube com o qual ganhou enorme reconhecimento numa frase extremamente iluminada. No Olímpico, Chiqui empolgava a torcida com a sua classe. Apoiava como poucos, era uma opção letal quando descia para cruzar ou dar uma assistência. Se não dava carrinhos como Dinho ou fazia gols como Paulo Nunes e Jardel, certamente era o elo forte em bolas paradas, suas principais armas.

Artilharia fina

Foto: Zero Hora
Foto: Zero Hora

De três dedos, em falta, em escanteio, na intermediária, na linha de fundo: Arce não tinha limites. Era competente de qualquer lugar que estivesse com a bola, a colocava onde queria. Quando se aproximava para fazer uma cobrança, o adversário já sabia que poderia ser punido pela imprudência de cometer uma infração que deixasse o paraguaio sozinho para conversar com a bola e convencê-la a entrar na gaveta, no cantinho ou nas malhas laterais do gol de um pobre goleiro qualquer.

Fez suas vítimas e levantou uma porção de títulos em sua fase no Grêmio, sob o comando de Luiz Felipe Scolari. Campeão Gaúcho em 1995 e 1996, da Copa do Brasil em 1997, da Copa Libertadores em 1995 e do Brasileirão em 1995 e da Recopa Sul-Americana em 1996, Arce saiu do Grêmio rumo ao Palmeiras, para continuar o ciclo vitorioso ao lado de Felipão.

Uma Copa do Mundo brilhante

Bem verdade que no Mundial de 1998, quem se destacou pelo Paraguai foram Carlos Gamarra e José Luís Chilavert, o que não exclui a grande participação de Arce naquela Copa. A seleção sul-americana fez boa primeira fase no grupo com Espanha, Nigéria e Bulgária, se classificando para as oitavas de final. Quis o destino que a França, dona da casa, fosse o adversário. Na primeira partida decidida pelo Gol de Ouro, os franceses suaram frio e testaram o paredão Chilavert até que Blanc fizesse o gol chorado que classificou seu país. Gamarra, com o ombro imobilizado, foi o retrato de uma seleção aguerrida e que jogou acima de suas limitações, num exemplo de valentia.

Dono da ala direita alviverde

Foto: Nocciolina
Foto: Nocciolina

Os quatro anos de Arce no Palmeiras seguiram a mesma receita dos que havia vivido no Grêmio, ganhando títulos e se consolidando como xodó da torcida pela competência irrefutável na ala direita. No Palestra Itália, era cadeira cativa no setor. Se o Verdão fosse um trem embalado, o paraguaio era um dos principais vagões rumo ao sucesso. Chegou em 1998, para vencer uma Copa do Brasil e uma Copa Mercosul no ano de estreia. Uma Libertadores em 1999, um Torneio Rio-São Paulo e uma Copa dos Campeões em 2000, além de disputar a final sul-americana em 2000, diante do Boca Juniors, perdida para os argentinos nos penais.

Foi o último craque a abandonar o barco com o rebaixamento em 2002. (Marcos não conta). Era hora de transição. Disputou mais uma Copa do Mundo, também em 2002, e após o trágico descenso palmeirense no Brasileiro, rumou ao Gamba Osaka para encaminhar a sua aposentadoria. Ainda defendeu o Libertad e o 12 de Octubre antes de anunciar aposentadoria oficial em 2006, já aos 35 anos, longe da forma que esbanjava na década anterior.

Virou técnico e agora tem muitos quilos a mais do que nos anos de atleta. Não carrega mais aquele sorriso fácil e o tímido carisma do caipira que se tornou herói de duas torcidas apaixonadas. Não assusta mais ninguém quando pega a bola para colocar em algum lugar perto da área.

Arce foi o monstro simples que não precisava de firulas para motivar gritos de apoio das arquibancadas. Fazia o básico, fazia o melhor, fazia o que aprendeu melhor. É difícil encontrar no mundo algum lateral-direito com a mesma vocação e técnica que o paraguaio tinha em campo. Muito menos a raça e a determinação de decidir um jogo no papel de coadjuvante.

De certo, agora, depois dos seus cruzamentos, é que seu legado não deve ser superado. Talvez nem deva mesmo.

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