As desventuras de Paulo Nunes, o Diabo Loiro

Tudo que uma criança quer é um ídolo possível. É um ídolo carismático, fanfarrão, divertido, que faça rir, que tenha alguma pinta de herói. Quanto mais a gente cresce, essas características passam a ser mais humanas. Queremos alguém justo, alguém sabe reconhecer as suas falhas, que tenha se superado ou encarado até a morte, só pra voltar com um sorriso. No fundo, a gente ainda carrega um pedaço daquela criança lá de trás quando ri das peripécias de Paulo Nunes, a irreverência com a camisa 7.

Paulo Nunes era um sarrista nato. Dono de uma cabeleira loira que lhe fez famoso, trazia toda a irreverência dos anos 90. Poderia ser facilmente confundido com um membro dos Mamonas Assassinas. Quando revelado pelo Flamengo, na Copa São Paulo de Juniores, em 1990, ao lado de feras como Júnior Baiano, Marcelinho Carioca, Nélio e Djalminha, rascunhava os dribles e gols que marcariam época por outros dois clubes além do Rubro-Negro: Grêmio e Palmeiras.

E era insinuante. Não só ciscava como os atacantes mirrados faziam de costume. Partia para cima dos zagueiros com o ímpeto de quem tinha 2 metros, não só seus 1,74 humildes. Pois o nanico também apanhava que nem gente grande. Pouco importava se os beques fossem entortados jogo a jogo e lhe punissem com a fúria de quem foi humilhado. Paulo, ou Arílson, cresceu mesmo diante da intimidação dos rivais. Em função de seu caráter provocativo, facilmente tirava os adversários do sério e se metia em confusões. Duas delas, marcantes. Pelo Grêmio, na Copa Libertadores de 1995, contra o Palmeiras, brigou com Clebão, zagueiro alviverde conhecido pelas botinadas e pelo porte físico de armário. Não é difícil encontrar fotos de Paulo acertando chutes em Claudio, defensor palmeirense, sob a vista de um furioso Cléber que vinha atrás.

De Arílson a Paulo

Foto: UOL
Foto: UOL

Tudo começou para o Diabo Loiro na cidade de Pontalina, em Goiás. Se chamava Arílson de Paula Nunes, mas adotou o ‘nome artístico’ de Paulo Nunes, iria emplacar melhor no futebol. Durante muito tempo ele ainda carregou o sotaque caipira, típico dos goianos. A fase no Flamengo só deu a malandragem que restava ao atacante. E em 1990, depois do título da Copa São Paulo, passou a ter mais chances no time titular. Foram quatro anos até a despedida do Fla, em 1994. Levantou títulos importantes como a Copa do Brasil de 1990, o Campeonato Carioca de 1991 e o Brasileirão de 1992. Da Gávea, partiu para o Grêmio, onde teve seu auge.

Sob o comando de Felipão, Paulo Nunes engrenou de vez e virou um dos atacantes mais temidos no Brasil. No primeiro ano de Olímpico, levantou a Copa Libertadores e o Gauchão, em 1995. O Grêmio dominou o país naquele par de anos. Brigou feio com o Palmeiras nas quartas de final, num agregado que terminou em 6 a 5 para o Tricolor. 5 a 0 no Olímpico e 5 a 1 para o Verdão no Palestra Itália. Uma batalha campal na segunda partida marcou a rixa entre os dois clubes, uma das maiores na década de 90.

Quem ousa se esquecer da dupla Paulo Nunes e Jardel? Era a medida perfeita para o sucesso. Enquanto Paulo se encarregava dos dribles e assistências, Jardel empurrava, cabeceava e castigava os goleiros, Brasil e América do Sul afora. Em 1996, mais taças: o Brasileirão, do qual foi artilheiro com 16 gols, a Recopa Sul-Americana, mais um Gauchão. Antes de deixar o Grêmio e ser vendido para o Benfica, o Diabo Loiro ainda levantou a Copa do Brasil em 1997. Com status de ídolo, acenou com o adeus para cair nos braços de outra torcida.

Outra vez com Felipão e Arce

Foto: Placar
Foto: Placar

A passagem pelo Benfica não deixou saudade. Lesionado e com vários problemas de adaptação, o atacante retornou ao Brasil em 1998 para defender o Palmeiras, fortalecido pela parceria com a Parmalat. Novamente sob o comando de Luiz Felipe Scolari, Paulo Nunes seguiu com o brilho e reencontrou também o colega Francisco Arce, seu lateral-direito no Grêmio.

Era fácil tentar adivinhar o que seria do time com aqueles craques. Campeão, cada vez mais campeão. Nesse intervalo, foi convocado para a Seleção Brasileira e venceu a Copa América de 1997, sob o comando de Zagallo, que bradava à imprensa: ‘VOCÊS VÃO TER DE ME ENGOLIR!’.

Os três títulos que venceu pelo Palmeiras, na Copa do Brasil, Copa Mercosul em 1998, além da Libertadores de 99, talvez sejam o último resquício de grandeza genuína na equipe de Palestra Itália. Coincidentemente, os dois clubes com os quais Paulo Nunes mais brilhou, ainda estão carentes de taças, especificamente na época em que ele defendeu as duas camisas. Grêmio e Palmeiras olham para trás como se procurassem uma resposta para tanto tempo sem estar na vitrine dos campeões.

Paulo Nunes viveu intensamente sua fase palmeirense. Emprestou seu talento para balançar as redes, driblar a defesa alheia e encontrar a melhor condição para uma assistência, atitudes que o colocaram num lugar especial no coração palmeirense. Sobretudo quando colocava uma máscara de porco ou tripudiava do sofrimento de rivais que caíam diante do esquadrão de Scolari. E a confusão com Edilson na final do Paulista de 1999? A briga generalizada dos arquirrivais no Morumbi marcou época.

A traição

Sua despedida foi ao fim de 1999, quando o Palmeiras chorou a derrota no Mundial Interclubes para o Manchester United. Paulo Nunes voltou ao Grêmio em 2000 e ficou pouco tempo, antes de assinar com o Corinthians numa transferência pra lá de polêmica, e que nunca foi aceita pela torcida corintiana. Quem conta sobre esse período é Luiz Domingues, aqui na TF. Foi um duro golpe na idolatria, também representando sua decadência na carreira. Jogou por Gama, Al-Nassr e Mogi Mirim antes de pendurar as chuteiras, com 32 anos, em 2003.

Anos depois, é difícil não achar estranho algum registro dele com a camisa alvinegra, coisa que os corintianos só lembram mesmo pelo ódio, não por gols ou por atuações memoráveis de Paulo Nunes. Para tricolores e alviverdes, só é possível trazer de volta a memória do Diabo Loiro quando acompanhada por sorrisos e um imenso saudosismo. Natural para quem ainda não consegue enxergar o presente dos clubes como um lugar seguro ou feliz o suficiente.

E hão de lembrar dele como um herói absolutamente humano. Que fez sorrir e chorar de alegria, se notabilizou pela sua habilidade, mas que como qualquer pessoa, falha e se arrepende. O mundo não precisa só de exemplos infalíveis.

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