A década que durou 11 anos

A essa altura do campeonato, você já sabe que Felipão é o novo treinador do Grêmio. Depois de pedir demissão da Seleção Brasileira com o fiasco na Copa do Mundo, o Bigode está de volta ao Imortal, 18 anos depois, em mais um ato de reviver os anos 90, coisa que virou frequente no futebol brasileiro atual.

Chega a incomodar o quanto os dirigentes apostam no sebastianismo como uma saída para tempos turbulentos ou a salvação para a vergonha maior que é o rebaixamento. Tivesse o futebol de seleções um sistema parecido, o Brasil talvez tivesse aprendido a lição ao ser obrigado a jogar contra Eslovênia, Peru, Tunísia, África do Sul e Jamaica, todas essas seleções nível série b mundial.

Como mãe para desamparados e decadentes, o futebol segue tendo os mesmos protagonistas e as mesmas histórias, num ciclo que não se renova. Acostumado a reviver o passado, Felipão é o eterno ex. Já voltou ao Palmeiras, venceu uma Copa do Brasil e foi rebaixado. Retornou à Seleção, venceu uma Copa das Confederações e foi humilhado por Alemanha e Holanda. Voltou ao Grêmio. Que o Tricolor tenha força para encarar o que vier depois da glória, que costuma cegar tanto quanto catarata.

O fato de se apegar ao passado ia ser o tema da minha coluna de semana passada, quando no mesmo dia, Dunga e Vanderlei Luxemburgo também retomaram antigos cargos. O gaúcho assumiu novamente o Brasil e Luxa voltou ao Flamengo, onde não conseguiu ser tão feliz ainda, apesar de ser ex-jogador e torcedor confesso do Rubro-negro. A mesma situação se aplica a vários outros times que ainda não superaram o fato de estarmos na década de 2010.

Quem renova, tem um pé na realidade, a compreensão de que é preciso se reinventar conforme o tempo passa, coisa que muitos desses técnicos acima não foram capazes. Da mesma feita, os dirigentes e manda-chuvas em federações, entre outros que atravessam os anos com a mesma relevância. A eles, não está permitido o esquecimento, continuam mandando e fazendo acontecer, sem que ninguém impeça.

Não é que o futebol brasileiro esteja em frangalhos. A situação já foi pior. Mas nem isso previne que clubes como o Botafogo, vivam os dramas da década de 90, onde se endividar era perfeitamente normal, cair pelas tabelas também. O buraco negro financeiro e de planejamento abriu a cova de vários grandes, que só foram enterrados na década de 2000, o maior cemitério de tradições que o Brasil já viu. Palmeiras, Botafogo, Bahia, Vitória, Corinthians, Vasco, Atlético Mineiro, Sport, Grêmio, Santa Cruz, Coritiba, Atlético Paranaense: todos vítimas da péssima cartolagem e administrações no mínimo duvidosas, que também explicam o retrocesso de 2014.

Reviver os anos 90 a esta altura do campeonato, além de saudosismo, é dar um cavalinho de pau na estrada da evolução e pegar o caminho inverso para o amadorismo, prática que ainda não se descolou da realidade no futebol brasileiro. Enquanto comemoramos os títulos de 1994, 95 e 96, ficamos alijados da disputa em 2014, 2018, e assim por diante. Imagina só quando o futuro realmente chegar, que loucura vai ser.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *