O fim da dolorosa fila alviverde em 1993

Para o Palmeiras de 1993 a derrota não era cogitada. Um time forte que foi montado para viver grandes tempos não poderia ser vítima de uma maldição que acometeu o clube depois da Academia de Ademir da Guia. Em junho de 93, o Verdão levou um Paulista em cima do maior rival, e de goleada.

A história de Evair, Edmundo, Zinho, Mazinho, Antonio Carlos, Tonhão, Edílson, Daniel Frasson, Sérgio e César Sampaio foi escrita com a força de uma patrocinadora forte como a Parmalat, importante que se diga. A empresa italiana bancou a chegada de vários craques em nível nacional, tal qual o próprio Edmundo, que fora revelado no Vasco, no ano anterior. O Animal precisava apenas de um estopim para estourar e o Palmeiras foi o clube certo na hora certa para isso.

Ao lado de Evair, o atacante formou uma dupla que dificilmente sairá do imaginário do torcedor. Dessa feita, o alviverde chegava a 17 anos sem título com o início do Paulistão de 1993, deixando pra trás aqueles bons tempos de Ademir, Dudu, Luís Pereira, César Maluco, Leivinha, Leão, Alfredo e outras peças icônicas no Palestra Itália.

Palmeiras 1993
Foto: Estadão

Para que essa geração não ficasse para sempre como a última vencedora, foi necessário também ter um treinador ambicioso como o então jovem Vanderlei Luxemburgo. Ele soube tirar o melhor de cada um dos seus jogadores nos momentos de decisão. Líder do Grupo Verde (que simbolizava a primeira fase em exaustivos 30 jogos), o Palmeiras avançou para os quadrangulares finais com 44 pontos, cinco a mais do que o segundo colocado, São Paulo, com 39.

Com a vantagem de cair numa chave sem nenhum dos quatro grandes, o alviverde pegou Guarani, Ferroviária e Rio Branco, para novamente ficar na dianteira e se classificar para a final com 100% de aproveitamento. Do outro lado, o Corinthians também soube se portar e passou para a decisão com quatro vitórias, um empate e uma derrota, superando o Tricolor por apenas um ponto de diferença.

Intersecção de filas

Foto: Globoesporte.com
Foto: Globoesporte.com

Se o Verdão entrava numa fila em 1976, o rival alvinegro saía da sua em 1977 com o épico gol de Basílio na decisão do Paulista diante da Ponte Preta. A história fez os coirmãos se cruzarem para definir se a agonia palmeirense iria continuar, assim como o riso corintiano, ou se o fantasma seria exorcizado. No dia 6 de junho, o primeiro jogo da decisão marcou o primeiro dérbi decisivo daquele Estadual. No Morumbi, o Timão saiu na frente do rival e venceu o jogo de ida por 1 a o, gol de Viola, que ainda imitou um porco para tripudiar em cima da torcida adversária.

Uma semana depois, os palmeirenses foram à forra. Era dia dos namorados quando o Palmeiras tornou vivo o sonho de sair do jejum. O regulamento do campeonato dizia que mesmo com uma vitória levaria o duelo para a prorrogação. Aí sim o alviverde passaria a defender um empate com o arquirrival, e assim conquistar o título. Pois é, essas invencionices de fórmula continuaram caindo por terra quando o Verdão fez 3 a 0, obra de Zinho, Evair e Edilson, no tempo normal.

Durante os 30 minutos extras, bastava mais um gol para selar o rito de passagem. E ele veio dos pés do craque da camisa 9, Evair. Com a sua classe habitual, o Matador colocou a bola de um lado e viu Ronaldo voar para o outro: 4 a 0 Palmeiras, campeão paulista de 1993. Não houve forma mais libertadora que aquela para sair da fila.

Zinho: 1 a 0

Em tabelinha vinda do meio-campo, Edmundo recebeu de Mazinho, carregou aos trancos e barrancos e conseguiu um toque para Evair. O camisa 9 só rolou para Zinho, que dominou e em pouco tempo emendou um chute rasteiro, bem no canto do gol de Ronaldo.

Evair: 2 a 0

Mazinho fez todo o serviço ao dominar fora da área e carregar até perto do gol corintiano. O meia foi levando até achar espaço para um passe. Era Evair na outra trave, só aparecendo para empurrar para as redes.

Edílson: 3 a 0

Jogada semelhante a do segundo gol. Daniel recebeu lançamento de Antonio Carlos, dominou e jogou no meio da área. Com frieza, Evair parou, raciocinou e mirou o canto do goleiro Wilson, que ainda se esticou para rebater. O rebote, no entanto, caiu nos pés de Edílson, que só complementou e animou o Verdão para encarar o tempo extra no Morumbi.

Evair: 4 a 0

Foto: Placar
Foto: Placar

Já na prorrogação, o Matador teve a chance de consolidar a conquista, encerrando os 17 amargos anos no Palestra Itália. O placar estava zerado. Portanto, um empate fazia prevalecer a vantagem palmeirense. Quem vencesse, levava o caneco, contrariando o agregado adquirido pelo lado alviverde. E assim, Edmundo foi puxado à exaustão por Ricardo perto da linha de fundo. O juiz José Aparecido assinalou: pênalti. Logo a maior arma de Evair. As passadas lentas do camisa 9 certamente colocaram Wilson para dormir enquanto esperava para escolher um lado. Bola de um lado, goleiro do outro: fim de papo.

Daí em diante, os alviverdes ganharam o direito de soltar o grito de desabafo após quase duas décadas de sofrimento. Tanto se passou desde 1976, e as cicatrizes já estavam fechadas quando de repente o time se viu capaz de ser competitivo, entrar para brigar de fato pelo seu lugar entre os campeões, algo inerente a qualquer clube grande que se preze.

Palmeiras 4×0 Corinthians
Campeonato Paulista, jogo de volta da final
Morumbi, 12 de junho de 1993 – São Paulo

Palmeiras: Sérgio, Antonio Carlos, Tonhão, Roberto Carlos, Mazinho, César Sampaio, Daniel, Edílson (Jean Carlo), Zinho, Edmundo e Evair (Alexandre Rosa). Técnico: Vanderlei Luxemburgo

Corinthians: Ronaldo, Henrique, Marcelo, Ricardo, Leandro, Marcelinho Paulista, Ezequiel, Neto, Paulo Sérgio, Viola e Adil (Tupãzinho) (Wilson). Técnico: Nelsinho Baptista

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