A Copa que se foi, parte I: A valentia que não se mede

Ainda vou fazer um texto só pra falar da Alemanha campeã do mundo, aproveitando os dias de folga que tenho pela frente. Mas por agora, nessa semana, só vou conseguir pensar que já se foi. Ela se foi, ela, tão linda e empolgante, a Copa do Mundo. A melhor que vi desde 1998, já que em 1994 não há muito o que se lembrar devido aos meus 24 anos. E é com a ajuda dos meus diários daqui que eu vou recapitular uma história que poderia (se depender de mim, irá) virar livro.

Um dia eu me peguei ansioso pra um tal de Brasil x Sérvia. Um amistoso que seria a última preparação da Seleção para o Mundial. Ali começou a caminhada mundial a que me submeti para cobrir a primeira Copa da minha vida. E ela foi sensacional do início ao fim, com normais picos de monotonia, naturais para um torneio desse tamanho. Me lembro do nervosismo brasileiro da estreia contra a Croácia, do sabão que a Holanda passou na Espanha, da virada da Itália contra a Inglaterra, do massacre da Alemanha contra Portugal, do sufoco da Argentina contra a Bósnia, entre outros bons contos. Mas por agora, vamos começar com as seleções que surpreenderam.

A Colômbia que fala a língua das ruas

Podemos começar com a fábula da Colômbia, que superou seus fantasmas com um futebol dos mais dignos. Um time experiente e ardiloso, que sabia bater, driblar e atacar com a mesma competência. O comandante José Pekerman tirou o máximo de uma geração insinuante, malandra, carismática e completa. Deve voltar para 2018 com o mesmo fôlego e maior bagagem, nomes mais calejados. Perderá pouco do time que caiu diante do Brasil.

Retorna na Rússia com menos pressão, já que teve sua melhor campanha na história das Copas. Foi intensa, se entregou, sangrou e fez sangrar, mas infelizmente, ficará lembrada pelos brasileiros como violenta, graças ao solavanco de Zúñiga nas costas de Neymar. É um time que lembra aquele melhor time de panelinha do seu bairro, onde a meninada se entende por telepatia, a bola cai no ponto certo pra matar no peito ou dar um voleio. Foi bonito de ver.

Cada um caça com o cachorro que tem

A Costa Rica, que chegou como coitada e saiu como aquele pescador que fisga um baú de ouro, impressionou pela valentia e pela simplicidade. Dedicada até o fim, caiu mostrando ao mundo sua maior virtude: não ser a Costa Rica quando a coisa aperta. Não tem tradição nenhuma a zelar e talvez por isso não sinta o peso de nada quando joga. É um cachorro raivoso que defende seu pedacinho de osso a qualquer custo, não importa quem tente tirar isso dele. É um time que vai chegar com a moral lá em cima para as Eliminatórias e com certeza pode se considerar como uma das favoritas a pegar vaga na Concacaf para 2018.

Uma Argélia que não ficou devendo nem pra Alemanha

Ninguém apostava que a Argélia fosse dar algum trabalho no Grupo H, sobretudo por ser vista como a quarta força depois de Bélgica, Rússia e Coreia do Sul. Em qualquer Guia da Copa (incluindo o nosso), os argelinos não inspiravam confiança numa campanha bem sucedida. Mas o coração da equipe se mostrou gigante e conquistou grande parte da torcida por sua simpatia e organização em campo. Dos citados aqui nesse texto, a Argélia certamente sai como o mais batalhador depois da Costa Rica. Bateu de frente com a Bélgica, triturou a Coreia do Sul e segurou a Rússia para se classificar. Halliche teve dias de Beckenbauer, Lacen encarnou Vieira, Feghouli jogou como Zidane, Brahimi reviveu os dias de Gullit e Slimani lembrou Romário. Todos eles em algum momento superaram as suas limitações. A comparação com os gênios é apenas para reforçar que a Argélia venceu a barreira que lhe impedia de jogar como um grande.

Diante da Alemanha, fez um jogo mais do que digno e em algum ponto mereceu se classificar para enfrentar a França nas quartas. Até mesmo porque entrou para se vingar da “Vergonha de Gijón”, uma vitória combinada de 1 a 0 da Alemanha sobre a Áustria na Copa de 1982. O resultado eliminou os africanos da competição. Em 2014, poderia ter sido diferente, mas como em outras ocasiões, a camisa pesou. Nada que tenha abalado o espírito de M’Bolhi, Halliche, Brahimi, Feghouli, Slimani e todo o país que enxergou nesta equipe treinada por Vahid Halilhozhic uma esperança enorme em brilhar no Mundial. Brilhou, brilhou e saiu com um bom legado para os próximos anos.

A Holanda só sabe deixar o gostinho de que poderia ter ganho

A Holanda chegou desacreditada, com um time repleto de meninos, promessas do futebol local. Daí descaralhou a Espanha de gols e virou imediatamente um hit de verão, muito embora não estivéssemos nessa estação durante a Copa. A atuação descompensada contra a Austrália mandou um aviso, ignorado pela vitória contra o Chile e pela virada diante do México no fim, com um justo Oscar para o SEJOGÃO Robben. Como cai esse menino, é uma coisa impressionante. Mas vá lá, o empate contra a Costa Rica indicou como é que seria o fim de uma geração que fracassou em espremer o talento de seus melhores jogadores. 0 a 0 no tempo normal e prorrogação, jogo preguiçoso e acomodado, precisaram chamar o goleiro reserva pra botar um pavor nos costarriquenhos.

Contra a Argentina, tinha mais time e ainda assim tomou um sufoco desgraçado, pariu um boi até chegar nos pênaltis, quando sentiu o peso de jogar contra uma camisa que já venceu duas Copas a mais. Foi pro vinagre, mas não sem antes botar o Brasil na roda pela disputa do terceiro lugar. Um consolo mínimo para quem podia ter chegado na final e complicado a Alemanha. Mas isso é ser Holanda, é saber naufragar deixando o gostinho de que poderia ter ganho. Um país todo construído futebolisticamente na base da hipótese e no infelizmente não deu. Talvez o maior mérito mesmo tenha sido desmoralizar dois grandes, na estreia e na despedida. Até que há algum sorriso em tripudiar do sofrimento de espanhóis e brasileiros…

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