Coisas que só o sexto sentido pode explicar

Comecei o dia sabendo que a Argentina venceria a Holanda, mesmo que nos pênaltis. Comecei o dia sabendo que toda aquela empáfia holandesa desde a goleada contra a Espanha seria punida por uma atuação medrosa diante de um time que não tem o que perder. Quase foi a Costa Rica a derrubar a Laranja Mecânica. Calhou de ser a valente e limitada Argentina de Lionel Messi e Alejandro Sabella. Ao menos teremos uma grande história a contar nessa semifinal, além do vexame brasileiro.

Essa teimosia em apostar numa Argentina torta, deficiente, limitada e dependente de Messi já vinha desde o início da Copa, quando eu disse que os hermanos fariam a final contra a Alemanha. E ela se explica pelo fato de eu acreditar piamente que uma superstição bem esquisita se mantenha. (Itália e Brasil foram tetracampeões 24 anos depois do tricampeonato, nos pênaltis. A Alemanha pode ser a terceira). Não creio que essa Argentina vá vencer a final. Não porque parece óbvio que a Alemanha é um time mais preparado e completo, sem falar na motivação de enterrar o Brasil como fizeram. Mas sim porque o sexto sentido me diz.

Na Arena Corinthians, Messi não jogou. Nem Robben. Que dirá Van Persie. Jogaram Pérez, de vez em quando Higuaín, os inesperados Janmaat, Kuyt, Romero e Mascherano. Ah, Mascherano, que engoliu a bola e provou por a + b que ‘cansou de comer merda nos últimos 24 anos’, 24 anos estes que separavam a Argentina de uma final de Copa. Num jogo em que dois se preocupavam mais em marcar do que qualquer outra coisa, foram os argentinos a arriscarem mais uma vitória. Ela quase veio com Higuaín, com Messi, e com qualquer outro que esbarrou em Cillessen.

O tempo passava e era implacável. O jogo era tenso (e chato), tinha a Argentina como dona das ações e a Holanda arrogante, como se pudesse resolver a parada em um lance de genialidade de Robben. Mas o careca estava bem marcado pelos zagueiros e pela nuvem negra que o acompanha em Copas. Messi também. Um deles teria o que comemorar ao fim da partida, nem que ela forçasse pênaltis para quem sabe assim colocar os goleiros no quadro.

Van Gaal não ousou tanto quanto contra a Costa Rica. Sabia que o time ali do outro lado não era um pequinês do esporte, uma zebra numa Copa maluca no Brasil. Era a Argentina. Não havia a quem intimidar com uma troca súbita de Cillessen por Krul. E sinceramente, a carta na manga virou óbvia. Tão logo os 120 minutos acabaram (com boa atuação do menino titular, aliás), a cara de apreensão do goleiro do Ajax e da camisa 1 holandesa era visível. Ele temia ter de ser acionado. Temia ter de se ver cara a cara com Messi como Courtois se viu nas quartas e mesmo perdendo, fez uma grande defesa.

Cillessen foi muto bem no seu debut em Copas, seu segundo ano como profissional. Não comprometeu e em pelo menos duas ocasiões, salvou a Holanda. Mas não é nem de longe casca grossa quanto os argentinos, acostumados a duelos de nervos, pênaltis que punem de forma impiedosa a falta de vontade do outro lado. Sendo um time pior, a Argentina já derrubou a Itália e até mesmo a Iugoslávia em 1990. Isso com um goleiro chamado Sergio. Sergio Goycochea. Contestado, um novo herói era forjado em meio aos olhares desconfiados do mundo todo: Sergio. Sergio outra vez, Sergio Romero.

Se com a bola rolando não foram capazes de alterar o placar, a questão teria de ser no mano a mano dos tiros livres. Que não estavam exatamente sob o controle do falastrão Van Gaal e seus meninos que traziam no histórico a decepção de três finais disputadas e três derrotas. Provavelmente a quarta derrota viria pela frente. Melhor então deixar alguém que quer e tenha a obsessão de vencer como quem urina no jardim do vizinho, só de pirraça.

Cheia de birra e ‘con los huevos en las manos’, a Argentina chegou e não tremeu. Meteu 4 a 2 nos pênaltis, com duas defesas do Novo Sergio. Vlaar e Sneijder foram reduzidos a pó diante do arqueiro argentino. E toda aquela sensação esquisita de saber o resultado se fez comprovada: até que o juiz apitasse para o fim do tempo extra, foi o time albiceleste que mais procurou espetar a adaga no peito do rival, como em 1978, quando esperou outra prorrogação só para fazer 3 a 1 nos holandeses e consagrar Mario Kempes.

Faltou um grande astro. Na falta de um protagonista esperado, apareceram as surpresas. Como Romero. O sexto sentido que acertou o canto e tirou a Holanda da briga pelo tetra (vice). No Maracanã, veremos dois times igualmente fascinantes. O que tem a melhor equipe e que joga o melhor futebol, e o que tem a maior coragem e conta com o maior craque dos nossos tempos.

Sem mais devaneios. Se trata de uma final de Copa. E sabemos que nela, tudo pode acontecer…

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