Um vexame simplesmente surreal

Ainda é embasbacante o fato do Brasil ter tomado de 7 a 1 numa Copa do Mundo. Isso poderia ser escrito por anos e anos até a exaustão. Sem parecer uma completa obviedade. A verdade é que neste 8 de julho de 2014, vimos o maior apagão defensivo da história das seleções consideradas grandes. Depois do desastre, ainda parece que foi só uma derrota qualquer. Amanhã ou depois a dor há de tomar conta por causa desse massacre.

Foi o jogo de um time só. Um time que entrou consciente do que deveria fazer e torturou o rival com as suas principais e óbvias armas. Se alguém que estava no Maracanã naquela final de 1950 e viu o jogo de ontem no Mineirão deve estar sem o que dizer, ou pela hora da morte. Foram cinco títulos mundiais completamente obliterados por sete gols de pelada, sete gols soberanos e sete gols que derrubaram todo um sonho de superar um fantasma que se foi. Um fantasma que ganhou um sucessor de peso, que assustará gerações e gerações de brasileiros que vivem desse esporte.

Para todos os efeitos, a ilusão foi destroçada. Desmascarou todos os nossos torcedores pontuais (aqueles que esquecem do futebol sem Copa e o culpam pela alienação do povo). Fez cair a falácia de que se tratava de um time fadado ao sucesso, coisa que nunca pareceu nesses seis jogos do Mundial. Nós, que estamos aqui 365 dias por ano sentindo essa dor e esse carnaval, não precisamos dessas arquibancadas temporárias, dessa mentira que foi acreditar no título que iria supostamente redimir os pecados de um time que foi vaidoso demais após a glória.

As pessoas na rua não falam nada. Nem abrem a boca ou ousam fazer alguma observação sobre o furacão que derrubou a paixão nacional. Eles estão com os olhos inchados e encharcados de sofrer uma derrota inesperada, pode ter sido no mínimo cruel com as nossas crianças que queriam saber o que é ser campeão. Claro que a maioria não liga, a grande maioria prefere fingir que não doeu, que esse placar foi só um pesadelo e que o futebol não vai causar essa comoção toda. Mas causou. E dá pra ver no rosto de cada um que vestiu amarelo nessa tarde insuperavelmente lamentável de Copa.

Não há muito o que aprender. Ninguém pode tirar alguma lição do que houve, tamanha implosão repentina do time. Agora é mais fácil tocar o samba do luto que ecoa nas ruas do que procurar culpados por um desmoronamento dessa magnitude. O Marco, já com seus 27 anos, disse que custa a acreditar que foi desse jeito a queda do time mais guerreiro que ele viu desde que se conhece por gente. O Jonathan, de 11, me olhava com cara de quem não queria mais viver ou que não soubesse exatamente que cara fazer diante dos outros. Provavelmente queria chorar, mas me contou que sentiu falta do Neymar em campo.

Essas pessoas vão entender que essa vergonha não é permanente, e vão sim sentir a dor do tombo quando a lucidez vier depois da anestesia. Para que daqui a quatro, oito ou doze anos, possam comemorar um título que vai restaurar a fé de quem tem a bola como crença aqui nessa terra.

Até lá, o Mineirazo vai latejar como uma enxaqueca em tempos de Copa. Só pra ser exorcizado com um novo título, com novos heróis e novo roteiro. E se eu fosse você, que não gosta de futebol, repensaria bem o fato se só aparecer pra torcer durante o Mundial. Muita coisa acontece entre esses quatro anos. Você não sabe o que está perdendo.

Eu? Fico mais tranquilo em saber que poderia ser pior. Eu poderia estar na arquibancada do Mineirão.

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