Diário #4 da Copa: Encontrei Jesus torcendo para a Argentina

Domingo, 15 de junho, 21h50

Eu não sou lá um homem de fé pra dizer emocionado que encontrei Jesus num pano, numa parede, numa porta de box embaçada no banheiro. Eu não tenho fé em nada que não envolva o futebol e isso diz muito sobre mim, sobre as minhas prioridades na vida. Desse jeito, chego a minha sexta Copa, a quinta que tenho lembrança, e ficará marcada uma imagem na minha cabeça, sobre esse 15 de junho: o dia em que Jesus aparece num estádio de futebol empunhando a camisa do Maradona. Se Deus existe, ele deve ter dado muita risada nesse momento.

SUÍÇA 2-1 EQUADOR:
Sangue nos olhos, mas de ter visto um jogo ruim

Sabe, uma hora a gente inevitavelmente iria ter de dizer que viu um jogo ruim nessa Copa. Isso não é lá um desmerecimento muito grande, mas sim o fato de que criamos expectativas exageradas em torno de cada partida, de acordo com o que elas nos apresentaram até aqui, no quarto dia de torneio. Suíça e Equador, no Mané Garrincha, em Brasília, tinha grande potencial de ser uma porcaria e assim se fez. Mas veja bem: o Mundial é tão fantástico, que até o confronto mais bosta acaba virando histórico de alguma forma. E é isso que faz a diferença. Ninguém são se arrepende de ter visto um embate valendo pela Copa.

O Equador saiu na frente com Enner Valencia, numa jogada que a Suíça tentava há muito acertar. O goleirão equatoriano, Dominguez, não inspirava a menor confiança e soltava muitas bolas fáceis. Não que os sul-americanos tivessem dominado a miscigenada equipe helvética, mas vamos conversar que faltou bola para ambos. No fim, nem o baixo nível técnico resultou em poucos gols: Mehmedi empatou de cabeça, 1 a 1, e Seferovic virou para a Suíça num contragolpe mortal que poderia não ter existido se o ataque tricolor tivesse sido certeiro no lance anterior.

A raça com que Behrami disparou e carregou a bola, aos trancos e barrancos, é um forte indício de que estamos lidando com uma Copa que beira a perfeição. Não importa se os outros 89 minutos tivessem sido um verdadeiro cocô: duas jogadas mudaram o patamar do jogo. E esse foi apenas o primeiro dos três shows do domingo.

FRANÇA 3-0 EQUADOR:
Ao povo só interessa a controvérsia

Imagine que você viva num mundo em que milhares de gols legais foram anulados pela arbitragem, que acreditava que a bola não havia passado da linha. Ok, agora pense que a entidade que toma conta da porra toda aí tenha finalmente aprovado a inclusão de uma ferramenta que impede que essa dúvida permaneça e prejudique ainda mais a lisura do espetáculo. Pronto, você tem a GLT: a goal line technology, implementada pela Fifa neste Mundial. A primeira vez que o aparelho realmente foi exigido marcou um jogo no Beira-Rio, em Porto Alegre.

França e Honduras jogavam outra pelada bem funheba no campo porto alegrense, Benzema já tinha convertido um penal para Les Bleus e o placar estava 1 a 0. Eis que na volta do intervalo, o mesmo Benzema guarda um chute com competência. A bola bate na trave e volta para o goleiro Valladares, que sem querer toca nela e não consegue evitar o gol. Deu-se o rococó: muita gente pedindo revisão, enquanto o atacante francês, todo pimpão, comemorava. Instantes depois, a geração oficial de imagens tacou lá um tira-teima mostrando que no primeiro lance, após o toque na trave, a bola está fora da linha do gol. Quando Valladares aparece para tentar tirar, faz uma grande bobagem e um gol contra. E então a GLT apita e mostra na tela do torcedor: GOAL. Fim da discussão? Não. Muita gente queria mesmo continuar debatendo por horas sobre a legalidade do lance e defendendo que a tecnologia mataria o esporte.

Nesse momento, os técnicos de Honduras e França discutiam na linha lateral, sabe-se lá com qual razão. 2 a 0 no placar e ainda tinha uma galera resistente à mudança trazida pelo aplicativo. Como se nunca tivessem um gol legal não marcado contra o seu time em toda a história. Não é revisionismo, gente, é finalmente fazer alguma coisa certa num esporte tão injusto e torto como o futebol. A magia dele não está em ser errado ou antiquado, e sim em se renovar constantemente e permanecer fascinante. Mas tudo bem, se vocês querem voltar ao tempo das cavernas, joguemos com pelota de couro, calções com amarras, camisas de pano e boinas. Superem esse hipsterismo e esse medo da evolução. Ah, o Benzema fez outro e fechou o placar. 3 a o França.

ARGENTINA 2-1 BÓSNIA:
O homem apareceu, agora se virem

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Chegamos então ao ponto final do domingão. Argentina e Bósnia, no Maracanã, no Rio de Janeiro. Hora de ver Messi e a estreante eslava da vez. Com dois minutos de bola rolando, o camisa 10 albiceleste meteu uma bola na cozinha bósnia e deu a sorte de Kolasinac colaborar, tocando contra a própria rede. 1 a 0 Argentina. Sentada em cima de sua vantagem e suposta superioridade técnica, a equipe de Alejandro Sabella dormiu no ponto, perdeu várias chances e quase violou a Lei de Muricy, onde a bola pune.

Quando o duelo também ficou chato demais, a torcida colaborou. Vimos um duelo entre argentinos e brasileiros que cantavam alto, brigando pela supremacia nas bancadas. Até que ele apareceu. Não Messi, e sim Jesus Cristo, filho do homem. Ele estava lá com cara de drama, de quem estava ouvindo um bolero no seu iPod enquanto usava uma roupa típica do homem de Nazaré. O que é que Jesús argento fez? Exibiu uma camisa de seu pai, o ‘diós’ Maradona, Dieguito, Diego del pueblo, Diego de la gente. Não havia ‘Yo no quiero ver esto’ que resistisse àquela intervenção divina.

E assim, serviram pão e vinho na Santa Ceia, fizeram uma reunião básica com Dieguito em algum lugar celestial ou por skype mesmo, e decidiram: o Messi vai jogar bola, azar o de vocês que vieram da Bósnia. Verdade, Messi não estava correndo e nem acertando bulhufas depois da ‘assistência’. Mas de alguma forma, algum raio bateu na cabeça do rapaz, que num lance de pura genialidade, carregou, tabelou e tirou dois zagueiros antes de bater no canto e ampliar. Nosotros tenemos Messi, y vos?

Os bósnios tinham apenas a valentia sobrando e diminuíram com Ibisevic, em grande falha de Romero, que levou um baita peruzaço por entre as pernas. Terminou assim, 2 a 1. E você aí, que não gosta de futebol, querendo assistir o Fantástico ao invés de se render ao maior espetáculo da Terra.

Foi desse jeito que transcorreu meu domingo, no quarto dia de atividades da Copa do Mundo de 2014, até aqui, a melhor da minha vida. Provavelmente da sua também.

Até amanhã, caros. E que venha Alemanha e Portugal para animar a nossa segunda-feira.

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