Isso é Copa: Deve ser legal, Senegal

Todo mundo se lembra de Camarões em 1990, Omam-Biyik, Roger Milla, vitória sobre a Argentina, jogo duro nas quartas, desclassificação, mas senso de ter ido mais longe que o esperado. Doze anos depois, outra seleção africana fez o mesmo. Talvez não seja tão lembrada, tão incensada, mas seu feito é comparável ao dos Leões Indomáveis: Senegal, em 2002.

Senegal nunca havia ido a uma Copa do Mundo. E quase não foram: tanto na fase preliminar (1×1 e 1×0 contra Benin) quanto na fase final (campeão do grupo 3, decidido no saldo de gols contra Marrocos após uma vitória de 1×0 sobre o adversário na penúltima rodada), passaram por classificações duras, sem um grande favoritismo.

No sorteio dos grupos, um alarme e uma surpresa: Senegal jogaria no grupo A, que contava também com a então campeã (e favorita) França, o bicampeão Uruguai e a sempre perigosa Dinamarca. E a surpresa: faria o jogo inaugural da Copa, que até aquele ano era disputado pelo campeão da Copa anterior.

Foto: Le Coq Sportif
Foto: Le Coq Sportif

A França era talvez a maior favorita para a Copa de 2002. Pela primeira vez, uma equipe europeia chegava à Copa do Mundo como detentora dos títulos mundial e europeu, e tinha em seu plantel jogadores como Trezeguet e Henry, já donos de suas posições (ao contrário de 1998, quando eram reservas dos limitadíssimos Guivarc´h e Dugarry). A única preocupação era a contusão de Zidane, que não jogaria as primeiras partidas. Nada que tirasse o sono dos franceses, que acreditavam poder prescindir do melhor jogador do mundo contra seus adversários da primeira fase. Além disso, a grande maioria dos senegaleses jogava na França, e os franceses acreditavam conhecer bem seus oponentes.

Estavam enganados, claro. O Senegal jogou de igual pra igual com os campeões mundiais (cuja escalação era basicamente a mesma que havia vencido o Brasil em 1998, mas sem Zidane), baseando seu jogo em um contra-ataque muito veloz e em toques de bola rápidos e verticais. O lance do gol, apesar da falha de Barthez, foi originado em uma roubada de bola na intermediária e um contra-ataque rápido. Além disso, Fadiga quase ampliou com uma bola no travessão no segundo tempo. A França também teve suas chances, colocou duas bolas na trave, mas esse jogo marcou o início do pesadelo que foi a campanha dos franceses naquela Copa.

No entanto, estamos falando do Senegal aqui, e no jogo seguinte o time já teria outra pedreira pela frente: a Dinamarca, que vinha de uma vitória contra o Uruguai. Em um jogo em que cada equipe dominou um tempo, o empate acabou deixando ambos em boa situação no grupo (especialmente após o empate de França e Uruguai). Neste jogo, talvez o gol mais bonito de Senegal na competição, mostrando exatamente a rapidez na saída de bola e a progressão vertical do time: Camara toma a bola da Dinamarca próximo à sua própria área. Troca de 10 passes entre ele, Diouf, Diao e Fadiga, progredindo 90 metros em cerca de 12 segundos até que Diao empatasse o jogo.

Na última rodada, jogo contra o desesperado Uruguai, Senegal joga pelo empate e abre 3×0 no primeiro tempo, com um pênalti inexistente e dois gols de Diop em contra-ataques. O jogo parece definido no intervalo, e com o 1×0 para a Dinamarca contra a França, Senegal vai se classificando como primeiro do grupo. A tal “irreverência” africana (a mesma que, dizem, custou a Camarões a vaga na semi de 1990) resolve então dar as caras, junto com outro clichê, a tradicional “raça uruguaia”: Senegal começa a tocar de lado e fazer firula, e o Uruguai empata o jogo aos 43 minutos do segundo tempo. Morales ainda tem uma última chance para o Uruguai, mas cabeceia para fora, de dentro da pequena área. O empate elimina o Uruguai e classifica o Senegal para enfrentar a Suécia (que vinha do “grupo da morte”, com Argentina, Inglaterra e Nigéria) nas oitavas.

A partir daí, o mundo já prestava atenção nos debutantes senegaleses. Após as oitavas, mais ainda: um empate de 1×1 no tempo normal contra a Suécia, prorrogação (que na época era decidida no “Golden Goal”). Na sequência de uma bola na trave dos suecos, Camara faz aos 14 do primeiro tempo, decretando a primeira “morte súbita” do mundial 2002. Naquela copa de zebras, Senegal era mais uma, alcançando as quartas de final, juntamente com EUA, Coreia do Sul, e a Turquia, que seria o próximo adversário.

No entanto, o regulamento que havia ajudado o Senegal nas oitavas foi seu carrasco nas quartas. Após um 0x0 em que os goleiros Sylva e Rüstü trabalharam bastante, logo aos 4 minutos de prorrogação Mansiz elimina Senegal com o gol de ouro. Acabava ali o sonho de Senegal, e a possibilidade de enfim um time africano avançar às semifinais (apenas a África e a Oceania nunca tiveram times entre os 4 melhores de uma Copa).

Começamos o texto falando das semelhanças entre Senegal 2002 e Camarões 1990. Mas podemos também destacar algumas diferenças: Senegal não tinha o “carisma moleque” de Camarões, nem seu ineditismo. Além disso, 2002 foi uma copa com alguns azarões (Turquia e Coreia do Sul fizeram a decisão de terceiro lugar), e por essas razões o feito de Senegal chamou menos atenção. No entanto, era um time mais coeso, com um sistema de jogo bem definido e executado pelos comandados de Bruno Metsu, menos dependente de brilhos individuais do que havia sido Camarões.

Foto: Macleans
Foto: Macleans

Após a copa, no entanto, Camarões conseguiu se firmar como uma potência regional, e se classificou algumas vezes para a Copa do Mundo, embora sem grande brilho. Já Senegal continua tendo em 2002 sua única participação, e mesmo na Copa Africana de Nações sua melhor colocação foi um 4º lugar em 2006. Boa parte dos jogadores daquela campanha de 2002 ainda estão ativos, jogando na Europa, e mesmo assim a Copa da Coreia e do Japão continua sendo a grande lembrança dos senegaleses em termos de futebol. O ano em que venceram o campeão do mundo. Deve ter sido legal ser negão no Senegal.

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