Isso é Copa: A vingança frustrada

Para a maioria dos brasileiros, o jogo contra a França em 2006 envolvia muito mais do que uma vaga nas semifinais da Copa do Mundo. Era uma chance de vingança pelo massacre na final de 1998, onde Zinedine Zidane engoliu todo o Brasil ao marcar dois gols de cabeça. A verdade é que os franceses também lavaram a alma de um 5 a 2 em 1958, reprisando o papel de carrasco também em 2006, na Commerzbank Arena em Frankfurt. É exatamente desta partida que trataremos neste texto.

Antes de mais nada, é preciso contextualizar algumas coisas: ambos os times ainda traziam grande parte da herança de 1998. Pelo lado do Brasil, Cafu, Roberto Carlos e Ronaldo estiveram naquela final. Pela França, Barthez, Thuram, Zidane, Vieira e Henry (este no banco). Os fantasmas do Stade de France ainda estavam bem vivos para os brasileiros, como a convulsão de Ronaldo e os apagões defensivos em bolas aéreas.

Diferentemente de 98, Ronaldo estava apto para estar em campo, sem apresentar uma cor assustadoramente pálida. Ligeiramente acima do peso, o Fenômeno disputava a sua última Copa com a euforia de alcançar o recorde de 15 gols em Mundiais, superando a marca de Gerd Müller. Em campo, no estádio de Frankfurt, o camisa 9 pouco fez diante do seu maior carrasco. Para quem vinha atropelando os adversários e em clima de oba oba durante a preparação em Weggis, na Suíça, o Brasil chegou mal para enfrentar o seu nêmesis. Esteve apático e rendido, apesar de suas estrelas. Na tarde do dia 1º de julho de 2006 não teve quadrado mágico, reviravolta e nem ginga.

Em ascensão desde a primeira fase, onde caminhou trançando as pernas, a França não tinha nada com o medo do Brasil em passar outro vexame, mesmo na posição de detentor do título. Ao contrário dos pentacampeões, os franceses tiveram um Mundial de 2002 desastroso e que acabou na primeira fase, com Zidane machucado. O ano de 2006 precisava ser especial para aquela geração, comandada pelo lunático Raymond Domenech.

A primeira prova de que Les Bleus estavam renascendo foi a partida contra a Espanha nas oitavas de final. Enquanto muitos davam Zidane e seus colegas como batidos pela jovem e talentosa seleção espanhola, o careca resolveu mostrar a todos um pouco da sua genialidade e fez a sua grande partida no torneio. Claro, antes do Brasil. E assim, nas quartas de final, da mesma forma como em 1986, os dois duelariam.

Assim que o juiz apitou para o início do jogo, e o Brasil tomou conta. Chegava sempre, agredia, buscava abrir o placar para ter sossego. Mas a cada chance perdida, era uma risada na cara do perigo. O perigo, no caso, riria por último. O duelo estava desenhado para os brasileiros até a metade do primeiro tempo, quando a França começou a reagir. A partir desse ponto, foi irreversível. Zidane começou a passear, se empolgou, teve espaço e oportunidade para tripudiar em cima da passividade brasileira em Frankfurt.

As bolas aéreas começaram a tirar o sossego de Dida, que não havia trabalhado ainda. Nos 45 minutos iniciais, Juan tinha levado cartão amarelo e Lúcio perdeu a sua série de 386 minutos sem cometer uma falta sequer no Mundial. Era um sinal de que aquele dia não ia terminar bem. Com oito minutos, Henry recebeu uma bola sozinho, se aproveitou de uma falha grotesca na linha de impedimento e mandou para a rede, mas em posição irregular. Gol anulado. Aos dez, Zidane humilhou Ronaldo com um chapéu no meio campo. Era o primeiro de muitos truques do camisa 10 francês, simplesmente irresistível.

Foto: UOL
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Falta na intermediária. O relógio marca 10 minutos do segundo tempo. Zidane, que “tinha um prazer especial em jogar com o Brasil”, cobrou de lá mesmo, mirando a área brasileira. A preocupação era com Vieira, o grandalhão da camisa 4. Só esqueceram de quem estava ali com a missão de fazer o gol: Henry. O atacante teve todo o espaço do mundo para chegar de primeira e tocar no alto do gol de Dida, abrindo o placar. O mundo de Carlos Alberto Parreira caiu e o time precisava reagir.

Com o meio-campo escondido na marcação e na desvantagem, o Brasil perdeu qualquer chance de criar boas descidas. Do outro lado, Ribéry deu trabalho para Lúcio e quase arrumou um gol grotesco na linha de fundo. Sem inspiração, a equipe verde e amarela praticamente acompanhava os ponteiros do relógio correrem, como quem espera o fim do expediente numa sexta-feira. Exceto que não haveria aquela sensação de liberdade ao fim.

A torcida, claro, acreditava numa virada. Mas as esperanças iam ruindo a cada chute para longe do gol de Barthez, cada passe errado, cada nítido sinal de falta de concentração e inspiração. Ronaldinho bateu uma falta raspando no travessão e fez uma cara que poderia reproduzir perfeitamente o brasileiro médio, fã da Seleção, naquele momento. Um misto de “perdi a chance que nos colocaria de volta no jogo”, ou até mesmo um clássico “fudeu”.

Não houve vingança, não houve magia vinda de nenhum dos quatro integrantes do quadrado mágico de Parreira. Não teve samba, não teve alegria e nada daquilo que se pintava com aquela equipe. Porém, como diria o outro, o casteeeeeeelo de areia desmoronou. Mas a África… era logo ali.

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