Isso é Copa: Se a oportunidade vier, não a agarre, espalme

Ser goleiro, muitos já disseram, é uma das profissões mais ingratas do mundo. Grama não cresce, é culpado de tudo, e muitos outros clichês. Porém, tem coisa pior (sempre tem): o goleiro reserva. Ele treina todo dia, se dedica. No dia do jogo se prepara, veste uniforme completo, e… fica sentado. Jogo após jogo.

Mas mesmo entre os goleiros reservas, há diferenças. Em um campeonato brasileiro, por exemplo, onde seu time tem uma quantidade grande de jogos, elencos reduzidos, competições simultâneas, a chance de que ele faça pelo menos algumas partidas, onde pode se mostrar para o treinador e eventualmente ganhar uma chance melhor, mesmo que em outro time. Em suma, há uma certa esperança.

Agora, imagina na Copa: seu técnico tem à disposição TODOS os goleiros do país. Com isso, ele escolhe livremente seu favorito, já que goleiro é praticamente cargo de confiança. Mesmo que o jogador venha desempenhando mal (sim, estou falando com você, Felipão), é quase impossível que 3 ou 4 jogos convençam o treinador de que fez a escolha errada. Ou seja, seu destino será, novamente, treinar, viajar, se preparar e ficar sentado, torcendo no máximo por uma briga em campo, já que o goleiro reserva geralmente é o primeiro a chegar dando voadora nesses casos.

Mas, claro, sempre há exceções. E esse texto trata de uma das mais famosas.

Foto: Goyco Al Mundial
Foto: Goyco Al Mundial

A Argentina da Copa de 1990 defendia seu título conquistado no México 4 anos antes, e seu goleiro titular era o mesmo: Nery Pumpido. Após a derrota inesperada na abertura da Copa contra Camarões (com uma falha gritante de Pumpido, o que mostra que goleiro de Copa não perde posição mesmo), o time de Maradona tentava se recuperar contra a União Soviética na segunda rodada. Aos 11 minutos de jogo, Pumpido se choca com o zagueiro Olarticoechea, fratura tíbia e perônio, e seu reserva, Sérgio Goycochea, tem que entrar em campo. Frio, ele se aquece com o jogo correndo, provavelmente pensando ao mesmo tempo no estado de Pumpido e na chance improvável que caiu em seu colo. Como que para ajudá-lo, dois lances com toques de mão de jogadores argentinos ajudam a decidir o jogo: no minuto seguinte, Maradona (sempre ele!) tira com a mão uma bola soviética que entraria no gol, depois Troglio domina com as mãos a bola que termina com o gol de Burruchaga – que definiria o placar em 2×0.

Até então, Goycochea, 26 anos, era um goleiro considerado promissor, porém com poucas realizações em sua carreira. Ironicamente, havia sido reserva do próprio Nery Pumpido no River Plate durante 5 anos – de 1983 a 1988 – e jogava no Millonarios de Bogotá desde então. O que não significava muito: em outubro de 1989, por conta do assassinato de um árbitro, o campeonato colombiano foi suspenso, o que fez com que Goycochea chegasse à Copa de 90 sem jogar uma partida profissional em oito meses.

Goycochea ganhou moral com a vitória e ajudou seu time a garantir a classificação para a segunda fase com o empate de 1×1 contra a Romênia. Partiu para o mata-mata ainda sob certa desconfiança, assim como todo o time da Argentina, que se classificava apenas na 3ª colocação do grupo, e logo para enfrentar o Brasil, que havia ganho seus 3 jogos no Grupo C. Bombardeio do Brasil, defesas de Goycochea, bolas na trave, água batizada, um contra-ataque, gol de Caniggia, Argentina classificada para as quartas. Você conhece a história.

É a partir das quartas de final que a nossa história se torna mais interessante. Depois de um jogo feio (como muitos naquela copa), empate de 0x0 com a Iugoslávia em 120 minutos, e a peleja vai para os pênaltis. E a disputa de pênaltis, vocês sabem, é a alegria do goleiro: é o único momento onde é impossível ele fazer uma besteira (bom, tirando Carlos em 1986), e a chance de sair consagrado é considerável. E foi exatamente o que aconteceu: após Maradona e Troglio perderam suas cobranças, Goycochea defende as duas últimas da Iugoslávia (de Brnovic e Hadzibegic), classifica a Argentina para a semifinal, e começa a forjar sua fama de “tapapenales”. Após o pênalti fracassado de Maradona, havia dito ao ouvido do companheiro, já um atleta consagrado: “Não se preocupe, agora eu pego os dois”. E pegou. Na verdade, espalmou.

Foto: El Gráfico
Foto: El Gráfico

Nas semifinais, apenas a dona da casa, a Itália, que (contra sua tradição), havia vencido os três jogos da primeira fase, eliminado Uruguai e Irlanda, e chegava às semifinais sem ter tomado gols. Ia em busca de ser a primeira seleção tetracampeã do mundo. A torcida contava com a vitória, especialmente depois de Schillaci abrir o placar, aos 28 minutos do 1º tempo. No entanto, em uma saída errada de Zenga, o goleiro italiano sofreu seu primeiro gol na Copa, e com o empate, novamente a Argentina vai decidir sua sorte nos pênaltis. E dessa vez, Goycochea foi elevado à categoria de semi-deus: defende os pênaltis de Donadoni e Serena e classifica a Argentina para a final, novamente contra a Alemanha, como havia sido 4 anos antes.

Sorte? Treino? Estrela? Na versão de Goycochea, supersticioso como a maioria dos jogadores de futebol, a explicação é bem mais prosaica: “Tinha tomado muito líquido [no jogo contra a Iugoslávia], e, ao contrário dos jogadores de linha, não o perdi porque não corri. Fiquei com vontade de urinar. Não havia tempo de ir ao vestiário, assim pedi aos companheiros que me “cobrissem” e fiz ali, no campo. Já contra a Itália, por superstição, fiz o mesmo de propósito. Deu certo.”

Na final, a Argentina chegava quebrada: além dos dois jogos seguidos com prorrogação (a Alemanha também havia passado da semi, contra a Inglaterra, nos pênaltis), jogava com quatro desfalques por suspensão, incluindo Caniggia. Foi um jogo de um time só, e quis o destino que a sorte da Argentina fosse decidida por um pênalti. Ao final do 2º tempo, em um lance duvidoso, penalidade máxima para a Alemanha. Todas as esperanças argentinas, mais uma vez, caem sobre os ombros de Goycochea, que, desta vez, não conseguiu defender o tiro bem cobrado por Brehme. A Argentina foi vice-campeã do mundo.

Foto: FIFA
Foto: FIFA

Nada que tenha abalado o status adquirido por Goycochea junto à torcida argentina: em 6 jogos o time passou de chacota pela derrota contra Camarões a finalista da Copa do Mundo. E pelas mãos dele, que foi considerado por parte da imprensa o melhor goleiro do mundial.

Após a Copa, Goycochea, já com certa fama, se transferIU para o Racing, tendo jogado em vários times argentinos, no Paraguai, na segunda divisão francesa e até no Internacional de Porto Alegre por uma temporada. Pela seleção, disputou sem grande brilho a Copa de 1994, e venceu as Copas América de 1991 e 1993. Claro, nunca como a surpresa que foi em 1990, quando contra todas as chances saiu do banco de reservas e levou seu país à final da Copa. Um daqueles momentos que faz a Copa do Mundo algo tão especial para quem a assiste.

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