Isso é Copa: Na chuteira de Platini contra a Alemanha em 1982

Capitanear uma seleção em Copas do Mundo não é tarefa para qualquer Zé Mané, especialmente num Mundial em que algumas das equipes mais fortes lutavam por uma vaga na decisão contra a Itália. Inserido neste contexto, imagine que você é Michel Platini, craque da França em 1982, que precisa liderar seu time não menos talentoso, contra a Alemanha de Breitner.

Ninguém ali fazia questão de jogar na defesa ou estudar demais o adversário. A Alemanha era um pouco menos impetuosa do que a França, lépida e mais habilidosa do que o modelo quase militar implantado pelos germânicos em campo. Só que quem saiu na frente foi o futebol robótico, com chute de Littbarski após rebote de Ettori. Aos 18 minutos, os alemães estavam em vantagem: 1 a 0.

Agora você tem a missão de motivar o seu time para tentar o empate, já que ainda é cedo, e tudo vai ficar por conta da emoção. Diga a Giresse para que ele leve até a linha de fundo e Tigana apareça como opção para a tabela. Vocês precisam entrar na área alemã e chutar. Num passe longo, derrubam Rocheteau antes que ele domine a bola para chutar, a poucos metros de Schumacher. Pênalti. Pega a pelota, dá um beijinho, bota na marca da cal. Diz pra ela que você não pode perder e que ela te deve uma recompensa pelos anos que você vem tratando-a com carinho. Chuta no cantinho, ali mesmo, rasteiro, tira o goleiro da jogada.

Gol. 1 a 1. Te vira, Platini. Agora o momento é todo seu e da França, vai deixar os caras tomarem conta? Segundo tempo. O empate persiste. O jogo não está fácil e os alemães estão baixando o porrete. Segura mais a bola e tenta achar espaço para um passe longo. Corta a marcação com um drible rápido e olha a movimentação. Tem alguém passando como um louco a caminho da área deles. É o Battiston. Faz um lançamento pra ele, daí onde você tá. Não pensa. Vai! Chuta essa bola!

Foto: Backpage Football
Foto: Backpage Football

Parece que deu ruim. Ao invés de ir na bola, o Schumacher deu com o quadril na cara do Battiston. E ele parece desacordado. Logo agora que a França tava quase fazendo gol? Corre lá, Platini. É melhor você ver o que aconteceu, esperamos que não seja algo grave. Tenta falar com o Battiston, pra ver se tá tudo bem com ele. Como assim ele tá desacordado? Pálido? Sem respiração? Cacete, Platoche, vê direito isso aí. Ele não tá nem piscando? Chama a maca, chama logo, antes que uma tragédia aconteça. Segura a mão dele, alguma reação? Desmaiou e estava sem pulsação. Minha nossa, segura firme, vai dar tudo certo.

Ainda tem jogo. Você tem uma prorrogação toda pela frente. O juiz não deu nem amarelo pro Schumacher e eu acho que vocês deveriam fazer algo a respeito. Mostrem que a França é um time mais talentoso e mais aguerrido do que esses brutamontes alemães. É pelo Battiston. É por uma vaga nessa maldita final.

Sete minutos no relógio da prorrogação. Você domina a bola em cima de Briegel e sofre a falta perto da área, na ponta direita. Deixa o Giresse cobrar e fica na sobra. Deixe que ele tente achar algum companheiro na área ou chute direto para enganar Schumacher. Fique na sobra, é melhor em caso de possível rebote. Giresse chutou e a bola desviou na zaga. Trèsor pegou de primeira e encheu o pé. Mas que golaço. 2 a 1. Massacrem, a vitória está próxima.

Seis minutos depois do gol de Trèsor, você leva até a meia-lua e fica com dificuldades para fintar Forster. Mas o Six está ali na esquerda, livre de marcação. Toca pra ele, é agora, mata esse jogo! Six segura, enxerga Giresse entrando na área e só dá a assistência. O baixinho chega e manda um canhão no alto do gol da Alemanha. 3 a 1. A vingança está completa, só falta o apito final.

Vai entrar o Rummenigge. Vocês precisam se concentrar para administrar esse resultado, ainda tem todo o segundo tempo da prorrogação pela frente. Ouvi dizer que o Rummenigge foi poupado pelo Jupp Derwall por problemas estomacais. Ele não deve ser grande problema, afinal.

Foto: Hispavista
Foto: Hispavista

Segue o jogo e o inesperado acontece. Rummenigge faz o gol pouco depois de sua entrada, na etapa final da prorrogação. 3 a 2. Calma, não é o fim do mundo. Você está tranquilo e vai passar isso aos companheiros. Está cansado física e emocionalmente, mas é só manter a compostura que a vitória virá. Cuidado com esses contragolpes da Alemanha, Hrubesch e Rummenigge estão inteiros em campo e podem trazer problemas.

Forster distribui e acha Littbarski, que cruza de esquerda para Hrubesch. O grandalhão escora de cabeça para Fischer, que faz uma acrobacia para colocar a bola no ângulo de Ettori. 3 a 3. Um balde de água fria nas esperanças francesas. Mas você ainda acha que dá pra levar nos pênaltis se segurar bem a barra e não levar mais um gol. Há muito pouco o que possa ser feito para barrar os avanços dos alemães, e agora é muito mais uma questão de sobreviver até as penalidades do que propriamente tentar fazer o quarto e sacramentar a classificação. Não é hora de gastar energia à toa e você sabe. Afinal, vocês vieram de um grande primeiro tempo, da queda de Battiston, do gol libertador de Giresse… não é possível que haja tanta injustiça assim.

Mais uma virada nos pênaltis

Foto: So Foot
Foto: So Foot

É hora de ver em penalidades quem é que vai chegar na decisão. Todos estão exaustos, sobretudo seu time. Você é o cérebro da equipe e o escolhido por Michel Hidalgo para acalmar os ânimos dos seus colegas, ainda aflitos com o imenso drama que tomou conta do estádio Sánchez Pizjuán, em Sevilla. Desde o desprezo de Schumacher com a situação de Battiston, a torcida toda na arquibancada está do seu lado, te apoiando e torcendo para que você vire o jogo em cima destes vilões.

Giresse foi o primeiro e não deu chances para a defesa de Schumacher, batendo no canto, 1 a 0. Kaltz foi competente e também fez, mas Ettori nem chegou a ir na bola, 1 a 1. Os pênaltis são uma contagem regressiva, uma ampulheta que derrama depressa a areia. Um erro aqui pode ser punido logo depois, sem chances para reação. É matar ou morrer. Amoros acertou no meio, alto, e fez, 2 a 1. Breitner foi Breitner e botou no ângulo esquerdo de Ettori, 2 a 2. Rocheteau não inventou e meteu no canto, 3 a 2. Stielike correu, meio tenso, e chutou mal, em cima de Ettori, segue 3 a 2. O estádio vai à loucura. E o alemão caiu no choro de forma compulsiva. Six vai para ampliar a vantagem da França, mas perde. 3 a 2. Littbarski repete Breitner com grande estilo e joga bem onde a coruja dorme. 3 a 3. Sua vez. Mostre que é grande, bata no peito e faça o gol, para colocar a pressão nas costas do próximo germânico que for cobrar. Gol. No canto, 4 a 3. E vem Rummenigge, com categoria, para deixar tudo igual, 4 a 4. Parece que nunca vai terminar. Vai durar para sempre? Não. Bossis tenta chutar rasteiro e Schumacher pega. 4 a 4. Resta a Hrubesch fazer a última cobrança da disputa. E ele acerta, classificando a Alemanha para a final.

Inevitavelmente, passa um filme na sua cabeça. A história de uma noite de reviravoltas em Sevilla, de uma entrada brutal que não foi punida, da ressurreição de uma seleção que se abalou com a quase morte de um dos seus e ousou ficar com 3 a 1 no placar até o segundo tempo da prorrogação, de um grupo que sucumbiu à força do adversário e do cansaço, de uma estrondosa injustiça que marcou a Copa de 1982 tanto quanto a vitória da desacreditada Itália. E aí você lembra que o futebol não é um esporte propício para que a justiça entre em cena. Nunca é só uma questão de quem pode mais. Mas se nós soubéssemos a fórmula perfeita para a vitória, nunca mais os Mundiais teriam o mesmo valor.

A história do torneio é feita de histórias como a da derrotada França, que quase perdeu muito mais do que sabia que poderia diante da Alemanha. A gana de se vingar dos alemães aumentou ainda mais na Copa de 1986, quando novamente Platini e seus companheiros caíram para Rummenigge e sua trupe. Aquele time só teria um gostinho da glória em 1998, das tribunas do Stade de France, quando Zidane lavou a alma de um povo destruindo o Brasil na final por 3 a 0. E como doeu até que Les Bleus chegassem ao topo…

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