O que Neil Lennon tem a ver com a luta entre católicos e protestantes

Que as batalhas sangrentas e veladas pela tolerância religiosa e étnica na Escócia já mataram muita gente, já estamos cansados de saber. Mas a nova vítima da barbárie digna de idade média que acontece no país (às vésperas de votar independência do Reino Unido) é uma pessoa bem mais icônica e popular do que meros torcedores de Celtic e Rangers. Anos antes de assinar sua demissão do comando do Celtic, o treinador Neil Lennon já era alvo de ódio por parte da massa protestante escocesa. E o preço por ser um estrangeiro católico no país quase custou caríssimo ao norte-irlandês.

Perseguido pela odiosa torcida do Rangers, Lennon já sofreu uma série de atentados com excusas étnicas antes de virar o homem forte à frente dos Hoops. Grande responsável pelo time que conseguiu jogar muito mais do que se esperava, o ruivo representa mais do que um simples chefe para a torcida do clube alviverde de Glasgow: é uma bandeira na luta contra o preconceito religioso no país. As agressões físicas e verbais nunca foram grande barreira para o rapaz nascido em Lurgan, na Irlanda do Norte.

Como atleta, foram sete anos, de 2000 a 2007, defendendo o Celtic, clube que o acolheu e acabou o expondo para os sujos arquirrivais que não suportam conviver com as diferenças ideológicas, mais presentes em outras nações do Reino Unido do que propriamente na Escócia. Você vê, tantos outros rapazes são fisicamente parecidos com Neil no país, e nem por isso são estupidamente hostilizados pelo que suas crenças representam dentro da sociedade escocesa.

Usou-se por muito tempo a rivalidade clubística para legitimar o sectarismo contra o estrangeiro, questão essa que aos olhos de alguém que não é britânico, soa quase incompreensível nos tempos modernos.

Foto: Daily Record
Foto: Daily Record

A ferida de Lennon sangrava a cada vez que uma ofensa vinda da torcida em forma verbal ou física saía impune. Ao invés de simplesmente abaixar a cabeça para a ignorância que contaminava o ar, o ex-meia e hoje técnico preferiu rebater a idiotice. Por essa petulância em defender suas origens, foi perseguido por gente que deveria trabalhar para protegê-lo, como é o caso da Federação Escocesa, descaradamente conivente com a intolerância pregada contra a sua figura. Socos, bombas e xingamentos não causaram dano visível à armadura de Lennon, mas o pior golpe possível viria do sistema.

Um de seus agressores sempre ganhou liberdade depois de um ato violento. John Wilson, um torcedor do Hearts, invadiu o campo e tentou espancar Neil, em 2011. Por esse crime, John foi liberado após quatro meses de detenção pelo júri, que alegou falta de provas para a acusação de intolerância racial.

O episódio mais infame desse ódio aconteceu também em 2011, num dérbi contra o Rangers. Na ocasião, o treinador dos Gers, Ally McCoist, dirigiu alguns comentários ofensivos ao rival, desencadeando uma confusão na linha lateral. Por simplesmente retrucar, Lennon foi banido por seis partidas pela infração de perturbar a ordem, reagindo às provocações de McCoist. A sanção foi reduzida posteriormente para três jogos, mas o recado foi dado, ainda que de forma subjetiva. A mão da justiça apenas afagou McCoist por causar tamanho embaraço, pra dizer o mínimo.

Ao desistir da missão de tentar levar o Celtic além dos seus limites técnicos, Lennon parte para maiores desafios como um profissional do futebol, sabendo do grande potencial que possui. Para o homem, os novos tempos devem ser de paz em outra vizinhança. Sobreviver neste contexto opressivo como alvo da fúria protestante já foi muito além dos limites do bom senso e do suportável. Uns teriam se transformado em monstros, consumidos pelo ódio recíproco, mas não Neil.

Ele sempre esteve na mira do preconceito e não se corrompeu pelos princípios vorazes de uma batalha interminável no âmago de um povo que não consegue extirpar o sectarismo religioso de suas raízes. Os dias de tortura acabaram para Lennon, e pelo visto ainda será preciso que outros homens feito ele passem pelo mesmo inferno, antes que alguma mudança sensível ocorra.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *