Lá se foi o negão

Por Rodrigo Salomão

Tenho vinte e seis anos. Torço (de realmente me importar com os jogos) pelo Fluminense desde os sete. Cresci vendo Super Ézio, Renato Gaúcho, passando por uma fase tenebrosa do fim dos anos 90, até chegar a Conca, Fred e companhia.


Meu pai cresceu vendo Paulo Cesar Caju, Rivellino, Paulo Victor, Felix, Carlos Alberto Pintinho, Branco, Edinho, Ricardo Gomes. Ele viu máquinas. E viu um casal. De todos os monstros sagrados do rol de ídolos tricolores, o casal sempre foi sobre o qual meu pai contava histórias. O Carrasco e o Negão: um perfeito casal 20, que veio do Atlético-PR em 1983 para brilhar no Rio.

No último domingo, 26, quis o destino que essa dupla fosse desfeita para sempre. Washington, o Negão, faleceu por decorrência de uma doença degenerativa rara, a Lou Gehrig, e deixou seu eterno parceiro, Assis, o Carrasco, saudoso e em prantos. Assim como a torcida do Fluminense espalhada pelo país.

Foto: Netflu
Foto: Netflu

Evidente que hoje em dia, com a internet e seu infindável registro do passado, tenho meios para comprovar visualmente tudo o que meu pai me contou sobre os feitos de Assis e Washington. Histórias que, ao ouvir quando moleque, me faziam pensar se eram tudo aquilo mesmo. E eram. Prova disso é notar o imenso respeito que ambos conquistaram sobre os flamenguistas daquela geração, jogadores e torcedores. Todos temiam o casal. Não à toa.

Voltando ao Negão, segundo meu pai (e talvez ele nem se lembre disso mais), foi o melhor cabeceador que já vestiu a camisa do Fluminense. Que, volta e meia, num escanteio ou numa bola parada, a torcida cantava para cruzar a bola na cabeça do Negão. E ele raramente falhava. Mas não era só isso. Com a bola nos pés, também era muito bom. Em menos de 15 segundos de buscas de vídeos no Google, você consegue achar dois dos mais espetaculares já feitos em clássicos (de bicicleta, contra o Flamengo, e uma bela fila contra o Vasco) que provarão o que falei.

Foi com muita tristeza, misturada de orgulho, que vi o meu clube promover o “Washington Day”, em 2009, em plena arrancada de Brasileirão, num Maracanã com 55 mil presentes, diante do Atlético-PR (também seu ex-clube), que contribuíram com doações ao centroavante, já adoecido naquela época. Tristeza por ver um sujeito tão grande, sadio, corpulento, ágil e forte numa condição clínica delicadíssima. Orgulho pela gratidão. Conquistou títulos cariocas, brasileiro, defendeu a Seleção representando o clube. O Fluminense deve ser eternamente grato.

E é com essa gratidão que encerro minha homenagem a Washington. Um agradecimento especial por ter tornado o meu pai ainda mais apaixonado pelas três cores que traduzem a tradição e, por consequência, ter me tornado o feliz e orgulhoso tricolor que sou hoje, na vitória ou na derrota.

Descanse em paz, Negão. E, quando puder, peça para o Telê te escalar ao lado do Ézio e “chuveirar” na área que é gol na certa para o time celeste do nosso Fluzão.

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