[Especial 3 anos TF] Isso é Copa: O longo caminho de Ponta Grossa até Joanesburgo

Por Obson de Almeida

Aos 12 anos de idade, em Ponta Grossa, a preocupação era só estudar e dar um jeito de driblar dona Conceição para poder participar do rachão no campinho da cidade, onde a ideia de ser atacante começou a criar corpo. Naquele tempo, tentava os primeiros passos como jogador.

Era época de Copa, em 1970. A molecada toda estava envolvida no espirito patriótico. Todos muito preocupados em saber onde assistiriam os jogos, pois televisão era luxo apenas para a classe média. Ainda bem que tínhamos uma vizinha gente fina, a dona Odete. Ela nos convidava nessas ocasiões, e assim pude ver a melhor definição de meia-esquerda de toda a história da humanidade> um cara chamado Gerson, que jogava de 8 na seleção, dono de uma perna esquerda das mais precisas que já vi.

Daquela Copa, algumas lembranças ainda estão bem vivas na memória. De onde surgiu aquele maldito Gordon Banks? Aquela bola do Pelé já tinha entrado. A comemoração de Clodoaldo após gol no Uruguai, que tirou a apreensão dos 90 milhões de corações brasileiros. E claro, me recordo de uma última imagem do gol do capitão Carlos Alberto. Depois de colocar a Itália na roda, com aquele futebol maravilhoso. Que sensação de superioridade, de alma lavada, apos o vexame de 66. Bons tempos em que tínhamos num mesmo time Carlos Alberto, Clodoaldo, Gerson, Jairzinho, Tostão, Rivellino e um tal de Pelé. Quem viu, viu, quem não viu, nunca mais.

Os anos se passaram, eu cresci, saí de Ponta Grossa e acabei chegando em São Paulo. Como gerente de vendas de uma distribuidora, consegui finalmente estrear em Copas, quatro décadas depois de “alugar” a TV da Dona Odete. Ao final de uma campanha promovida por uma grande indústria, saí vencedor: o prêmio era a viagem para acompanhar o primeiro jogo do Brasil na África do Sul, contra a Coreia do Norte.

Após passar a euforia pela conquista da recompensa, a correria para providenciar documentos e vacinas exigidas para entrar em território sul-africano. Prazo curto, mas consegui a tempo. Enfim, chegou o dia 9 de junho de 2010, data do embarque para Cape Town, lá do outro lado do Oceano Atlântico. Foram pouco mais de 9 horas de viagem no mesmo Boeing da TAM, que dias antes, havia levado o selecionado de Dunga para o torneio.

O cansaço bateu, mas aguentamos firme no primeiro dia na África. Pudemos curtir a grande festa em que se transformou aquele país, de povo sofrido, castigado pelo regime de segregação do apartheid a que tinham sido submetidos durante anos a fio. Mesmo com esse histórico pesado, os locais receberam a todos com grande sorriso, entoando sempre seus cantos nativos (até aprendemos um deles). O tempo passou rapido até o dia da abertura, e depois de nos agregarmos aos Bafana Bafana, que fizeram a cerimônia de abertura, fomos à noite ao Green Point, para o primeiro jogo de Copa do Mundo de nossas vidas, in loco… para um decepcionante 0 a 0 de franceses e uruguaios.

Foto: Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal

Foi um embate sem nenhuma emoção, mas com muita festa nas ruas pré e pós jogo. O país parou completamente antes da estreia do time da casa, depois foi só festa. Muita festa. E claro, gente de tantos lugares diferentes, se comunicando das mais diversas maneiras. Alguns dias depois, nos juntamos a uma Fan Fest, para que ao lado de argentinos, uruguaios e paraguaios, apoiássemos o Chile. As ruas ficaram coloridas com as camisas dos países participantes, até mesmo de alguns que não participariam da competição naquele ano.

Fizemos todo tipo de passeio, city tour, com direito a ir até ao Cabo da Boa Esperança, onde se encontram Oceano Índico e Atlântico. Na terça de manhã, embarcamos para Joanesburgo, ou “Jo’burg”, como eles chamam, para ver a estreia verde e amarela. Chegamos ao estádio às 15h30, o jogo era só às 21h! Nós, presentes na arquibancada, entramos para a história, pois aquele Brasil x Coreia do Norte foi o jogo de Copa disputado com a mais baixa temperatura de todos os tempos: assustadores 6 graus negativos (haja Amarula!)

Consumimos em torno de uns 6 litros do licor, em três pessoas. Logo me recordo da emoção de cantar o hino e entoar o famoso “sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor” junto a quase 10 mil compatriotas que la estiveram, apoiados pelos sul-africanos que claramente estavam torcendo por uma vitória da Seleção Canarinho. O placar foi 2 a 1, mas nem me pergunte sobre o trecho final da partida, pois, após o gol do Maicon, bem na minha frente, virei um restinho de 500 ml que teimava em sobrar na garrafa de Amarula em minha posse. Misto de comemoração, euforia e por que não frio. Frio pra caramba.

Brasil x Coreia do Norte, no Ellis Park (Foto: Arquivo pessoal)
Brasil x Coreia do Norte, no Ellis Park (Foto: Arquivo pessoal)

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