[Especial 3 anos TF] Isso é Copa: O baú trancado a cada quatro anos

Pode até ser que a Copa do Mundo de 1998 seja a primeira que esteja na minha memória de forma integral, mas inevitavelmente revejo flashes do Mundial de 94. Coisas que não haveria outra forma de saber, sem ter vivido ou visto aqueles tempos. Ninguém costuma acreditar nessas lembranças, embora elas não sejam surreais ou forçadas. Na minha cabeça, alguns detalhes do ano do tetra permanecem bem vivos.

Tá, pode ser que eu não me lembre como foi que o Senna morreu naquela curva, mesmo que um recorte na minha mente me diga que meu pai estava fazendo a barba no banheiro, enquanto minha mãe mexia em algum álbum de fotos na cabeceira da cama. Eu tinha só quatro anos quando a Copa do Mundo aconteceu nos Estados Unidos, e muita gente se nega a dizer que consegue recordar algo nessa idade. Para quem aprendeu a ler com dois anos de idade, ter algum pedaço de 1994 na cabeça não parece tão absurdo.

Era claro que o futebol iria ter um papel importantíssimo na minha vida a partir daquele momento. Meu pai fez um ótimo trabalho fomentando a cultura do esporte na minha cabeça desde que eu era bem pequeno. Não raro, era possível me ver de camisa do Palmeiras ou brincando com uma bola na sala de casa. O ponto é que isso virou uma parte tão grande de mim, que não sei exatamente se isso é influência ou paixão. Tendo a crer que é paixão mesmo, algo a que não consegui me desvincular até hoje.

Os flashes que tenho na cabeça são os primeiros resquícios de vida que me sobraram, quase todos eles com alguma ligação a aquele Mundial nos Estados Unidos. Me lembro da bola colorida com os países da Copa, que tinha um cheiro de couro novo, do chocolate Surpresa em que tirei um escudo plastificado de Camarões, de sassaricar pela casa durante o duelo contra os Estados Unidos, de achar que Tab Ramos tinha morrido com a cotovelada de Leonardo e de fazer parte de uma festa imensa na casa da avó quando o Brasil conquistou o Tetra, numa tarde de pura tensão.

É curioso notar que lembro pouco da final, e que algumas outras lembranças anteriores da Copa são mais claras do que o emblemático sofrimento contra a Itália. Tinha tanta gente na casa da minha vó, na R. Texas, no bairro do Brooklin Paulista. Entre tios e tias, primos e primas, a baderna começou cedo. Muita comida, muita gente, muita expectativa, algo tipicamente dominical.

Nos pênaltis, um silêncio sepulcral. Nenhuma reação nem quando o Brasil acertava seus chutes, afinal, 12 anos antes, a mesma Itália havia feito troça dos sonhos brasileiros ao eliminar um dos times mais brilhantes da história das Copas. Toda precaução antes de comemorar era pouca, era um jogo equilibrado. A explosão teve um só grito quando Baggio isolou aquela bola. Aquele pedaço de comunidade chorava por comemorar um título que insistia em não vir, fosse bom ou ruim o elenco que usasse a camisa canarinho.

A minha relação com o futebol, como torcedor, começou naquele ponto. Poderia enumerar aqui algumas recordações da Copa de 1998, como o primeiro álbum de figurinhas que tive só pra mim, de como me enfiei em meio a livros e enciclopédias de Mundiais para tentar entender quem eram os heróis, vilões, as grandes equipes, ou quem poderia brilhar na França. Mas 1994 foi mais especial justamente por ser o primeiro registro, ainda que meio desfocado, de como é que as pessoas criam um senso de união durante uma final.

O espírito de Copa existe sim. É algo imprescindível para suportar a vida a cada quatro anos. Espero o torneio com mais ansiedade do que muitos eventos pessoais que possam acontecer no decorrer da minha vida. Isso diz muito sobre mim. No fim das contas, não é só esporte, é um baú de memórias, crenças, fantasias e cultura. Tudo isso é bagunçado e trancado quando uma seleção levanta a taça. Para que a chave só seja usada quatro anos depois, em outra terra.

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