Como o caos em São Paulo explica o Brasileirão

– José, me ajuda aí, preciso de um tema pra coluna do Brasileiro lá na TF.
– Copa, greve de ônibus, superlotação do metrô.
– Boa!
– Apagão, maconha
– Eu ia falar sobre qualquer outra coisa, ainda bem que você ajudou. Apagão e superlotação de metrô, então…
– Achei muito bairrista esse seu tema, não gostei.
– Mas foi você que sugeriu, cretino.

O Brasileirão é assim. Ele pode ser contextualizado em trezentas outras coisas do cotidiano. Como essa coluna não tem MESMO intenção de ser uma fonte informativa, e sim um trabalho conceitual, resolvemos lançar a linearidade do relato às favas. Na manhã de hoje, sentei pra conversar com o José, antigo dono deste espaço, pra ver qual tema iríamos explorar. Bem, vocês viram o que escolhi.

– Fala da gordura do Walter, porque essa piada nunca vai acabar. Assim é a fome, sem fim.
– Achei brilhante, Zé. Vou usar esse trecho.

Este texto inicialmente seria um ode ao Waltão, que devorou o São Paulo no Maracanã e não deixou nem farelo, marcando dois gols. Não, ele não pode ser desvinculado ao seu peso, que balanceia uma equação maluca de um jogador técnico que consegue superar a falta de mobilidade inerente aos gordinhos. Só que não vamos nos prender ao Walter. Preciso contextualizar a rodada no tema GREVE DE ÔNIBUS, que conseguiu parar a capital paulista na terça e na quarta-feira.

O “locaute”, termo usado para greve de patrões, começou do nada na terça-feira, no meio do dia, e complicou a volta pra casa de muitos paulistanos que tiveram de superlotar o metrô, único meio de transporte possível naquele momento. Quem tentou voltar de táxi (vide este que vos escreve), também foi prejudicado com a falta de carros disponíveis.

Foto: G1
Foto: G1

Falando desse jeito, assim, de paralisação de patrões, do nada, vai dizer que você não consegue enxergar o São Paulo, liderado pelo chefão Rogério Ceni, que sem mais nem menos resolveu abandonar a labuta, no meio do jogo? Bom para o Fluminense, que foi para o intervalo perdendo por 2 a 1, e acabou beneficiado pela repentina greve são-paulina nos vestiários. O jogo terminou 5 a 2 para o Tricolor das Laranjeiras, com grande atuação de Walter, o anti-herói da dieta. Sendo assim, o Flu virou o taxista da rodada.

Também rolou um apagão em alguns trechos da cidade de São Paulo, e adivinhem quem foi contemplado ao chegar em casa? Sim, ele mesmo: eu. Tava pouca desgraça na semana, depois de ficar preso no trabalho e voltar andando pra redação na manhã de quarta-feira, daí a metrópole me presenteou com falta de luz, que de acordo com o porteiro, durou das 14h até a meia-noite. Meu problema maior aí foi subir 21 andares pela escada, no escuro. Dava um belo roteiro para uma sequência dos filmes sobre “A Bruxa de Blair”.

Por falar em apagão, lembrei do Botafogo, que até aqui vai cumprindo a promessa e ficando na zona de rebaixamento depois de ter seu elenco desmontado, semana a semana. O Glorioso chegou a estar na frente do Grêmio, em Caxias do Sul, mas cansou de subir as escadas até a vitória e dormiu no oitavo andar: 2 a 1 para o Imortal, que agora ocupa a vice-liderança do campeonato. Outro que quer brigar forte por uma vaguinha na Série B é o Flamengo, mas esse geralmente acaba escapando. Não pode é deixar chegar, se não já viu. O Rubro Negro só empatou com o Bahia em 1 a 1 e chegou a três jogos sem vitória na competição.

Foto: G1
Foto: G1

A Zona do Rebaixamento tem tudo para ficar assim como a Estação Pinheiros do Metrô. Gente se acotovelando por um espacinho pra respirar e entrar na escada para o embarque. Imagine que 10 pessoas tentem entrar num espaço em que só cabem quatro. Pois é, este é o Brasileirão de 2014, que segue o roteiro de 2013: todo mundo lutando pra não cair e com Cruzeiro e Grêmio na frente.

Deu o maior ruim pro Corinthians também, que precisou usar o Canindé, já que a FIFA não liberou o Itaquerão para o jogo contra o Atlético Paranaense. O Timão vencia por 1 a 0, gol de Jádson, mas sofreu o empate do Furacão pelos pés de Douglas Coutinho. Nada como precisar dormir fora de casa por motivos de força maior.

– Zé, se você ficasse preso no trabalho, sem busão e táxi, ia fazer o quê?
– ¯ _(ツ)_ /¯

Foto: UOL
Foto: UOL

Em meio a protestos contra a Copa (vai ter sim, quem disse que não?), invasões de propriedades pelo MTST, o nosso Sem-Terra da rodada é o Palmeiras, que chegou de mansinho, ali pela Marginal, com a sua bandeira, e invadiu o prédio de uma construtora na Vila Olímpia, no caso, o G4. O Verdão recebeu o Figueirense em Araraquara e fez 1 a 0, gol de Henrique, o Degolador, o seu quinto tento em seis jogos.

Por fim, chega de treta, né, São Paulo? Funcionários do Metrô protestaram na quinta-feira contra as condições de transporte na cidade, e usaram coletes pretos com os dizeres “transporte padrão FIFA?” durante o expediente. Apesar do rascunho de paralisação, não houve grandes problemas na operação. Isso sem considerar as habituais falhas mecânicas em trens de diversas linhas. Os funcionários do metrô em questão, exigiam a retiração de circulação dos carros da Frota K (lembra aquela lá do escândalo de licitação do governo paulista com a Siemens? Então).

Logo, o Internacional é o nosso funcionário do metrô, aquele que está ali ameaçando parar a qualquer momento, mas  continua fazendo o seu trabalho. O Colorado chega ao seu sexto ou sétimo ano no seu magnífico projeto “agora vai”, e empatou de novo contra um time que está lá embaixo na tabela. Desta vez, enfrentou o Coritiba de Alex e saiu do Couto Pereira com o placar de 1 a 1, fora as dezenas de chances desperdiçadas pelo ataque Coxa branca. Abel precisa fazer alguma coisa, porque o problema no seu time vai muito além da Frota K.

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