Isso é Copa: Raí por Mazinho, uma teimosia legitimada pelo tetra

A história do tetracampeonato do Brasil na Copa dos Estados Unidos, em 1994, passa por uma alteração que qualquer técnico teria de pensar muito antes de efetuar. Capitão, grande craque e camisa 10 da Seleção naquele Mundial, Raí foi parar no banco depois da primeira fase, sendo substituído por Mazinho. O meia não conseguiu retomar a vaga e nem sequer entrou na final do torneio, contra a Itália.

Foto: Esporte Interativo
Foto: Esporte Interativo

A largada do Brasil naquela competição foi apenas normal, diante da Rússia, com um 2 a 0. Raí, na posição de líder natural do elenco, apesar de ter sido deslocado para a meia-esquerda, teve boa atuação e fez um gol de pênalti. Burocrática e mais defensiva do que a pedida normal em Copas, a formação de Carlos Alberto Parreira também passou por Camarões, por 3 a 0, empacando só na Suécia, no 1 a 1 que encerrou os jogos do grupo B.

No fim do jogo diante dos suecos, Parreira mexeu no time e tirou Raí, que já não apresentava um futebol tão convincente sem fazer o papel de meia-atacante, a sua verdadeira vocação em campo. O atacante Paulo Sérgio veio em seu lugar, mas quem tomaria mesmo o posto do camisa 10 era outro meia, mais marcador: Mazinho. Na concepção do técnico, a equipe deveria ter mais pegada, não uma aproximação maior em Romário e Bebeto. Com isso, Mauro Silva ficou como cão de guarda, Dunga ganhou um pouco mais de liberdade, Mazinho marcava e distribuía pela direita e Zinho tentava resolver pela esquerda.

Insatisfeito em ter sido mandado para o banco no jogo diante dos Estados Unidos, em 4 de julho, Raí passou a amargar o esquecimento conforme a campanha progredia. Em entrevista à Folha, na época, o jogador do Paris Saint-Germain comentou: “Eu acho que mudou apenas o jogador. O Mazinho continuou a desempenhar a mesma função no time”. Fato é que os mesmos jornalistas que extraíram um parecer do ex-capitão, também constataram certo desinteresse do atleta, que pouco comemorou o gol de Bebeto contra os americanos. O lance, aliás, marcou o embala neném de Bebeto, Romário e… Mazinho. Preterido, Raí se mostrava alheio à delegação.

Foto: Placar
Foto: Placar

Para quem olhava de fora, tirar um capitão por motivos que não estivessem ligados a uma lesão só seria explicado por um desentendimento entre Raí e Parreira, o que nunca foi confirmado. Em todo caso, Mazinho seguiu entre os onze iniciais no duelo diante dos holandeses e só saiu faltando 10 minutos para o apito final. O Brasil já vencia por 3 a 2, com gol de Branco, um chute espírita que passou raspando no traseiro de Romário. Evidente que Raí não conseguiu agradar o suficiente para voltar a ser titular, e a opção de Parreira foi mantida para reencontrar a Suécia nas semifinais, ao menos no primeiro tempo.

Mas se a função era a mesma, por que então Mazinho?

Zinho também não aparecia para o jogo, estava escondido na esquerda. Mazinho até tentava, mas as jogadas de contragolpe saíam quase sempre dos pés de Dunga e Mauro Silva, lá de trás. Assim, o Brasil passou com certa dificuldade pela Suécia, assegurando a presença em mais uma final de Mundial, algo que não conseguia desde 1970. Mazinho saiu para dar lugar a Raí no intervalo da semifinal, e outra vez o atleta do PSG não convenceu como deveria para ficar no time.

Em outros tempos, estar em campo sem um camisa 10, significou um tremendo azar para a Seleção. Zico voltava de lesão em 1986 e foi crucificado pelo pênalti perdido diante da França no tempo normal, pelas quartas de final. O Galinho foi reserva no fatídico encontro com os franceses e nunca mais disputou uma Copa depois disso, visto que estava em idade avançada para o Mundial da Itália, em 1990. Raí seguiu o mesmo caminho, com a diferença que não teve problemas físicos no decorrer da campanha. E claro, o Brasil venceu em 1994.

“O Raí é mais atacante que o Mazinho. Está acostumado a penetrar melhor na área adversária. Ele entrou contra a Suécia porque o Brasil estava dominando totalmente a partida”, explicou Parreira em depoimento à Folha, antes da final, numa justificativa bem esquisita. Se a intenção era ser ofensivo, por que não escalar Raí desde o início, ao invés de se submeter ao risco de cozinhar demais o jogo e levar um gol? A Itália não era mais um “paraquedista” como a Suécia, e uma decisão de Copa não era lugar para ter tanta cautela, sobretudo quando você está numa fila de 24 anos sem títulos.

Foto: Arredonda
Foto: Arredonda

Foi na bacia das almas, mas o Brasil venceu os italianos. Nos pênaltis, é verdade. Raí não passou nem perto de entrar em campo e viu de fora, como torcedor, a aflição das cobranças que consagraram a geração menos brilhante entre as campeãs do mundo com a camisa canarinho. Um 0 a 0 legitimou a “invencionice” defensiva de Parreira, que provavelmente teria sido o principal culpado por uma derrota com aquele futebol apresentado. No frigir dos ovos, o que importa mesmo é a taça para contar a história, depois de uma saga que viu um dos principais craques ser derrotado em queda de braço para uma formação pra lá de conservadora.

4 pensamentos em “Isso é Copa: Raí por Mazinho, uma teimosia legitimada pelo tetra”

  1. Dizem que foi o Zagallo quem convenceu o Parreira a tirar o Raí do time, pois o mesmo tinha a intenção de mante-lo até o final.

    Na minha opinião foi uma puta sacanagem o que fizeram com ele, Pô, o cara é o camisa 10, único meia-atacante daquela Seleção, vinha como titular e capitão do time ha cerca de 3 anos, e na hora do filé o Parreira vai e me tira o Raí no meio de uma Copa do Mundo para ser substituído por um volante? Confesso que nunca vi isso na minha vida.

    O Parreira sempre foi pragmático, nunca foi muito de ousar, raras as exceções.
    No esquema que ele queria, que era o de ter dois meias fixos em cada lado do campo e com a obrigação de marcar sem ter que penetrar muito na grande área, era óbvio que a melhor opção fosse o Mazinho , pois mandar um cara de 1,90, com todo o peso e tamanho que ele tinha, ficar subindo da defesa para o ataque, debaixo daquele sol que fazia nos EUA, era lógico que ele não iria render nada. O que o Parreira deveria ter feito, era ter mudado o esquema, fazendo com que o Raí tivesse mais liberdade, vindo pelo meio e caindo pelos dois lados, podendo entrar na grande área para tabelar como o Romário e com o Bebeto, que foi basicamente o mesmo esquema montado pelo Telê Santana naquele time que consagrou o Raí no São Paulo.
    Mas, como os técnicos entram, geralmente, receosos em Copas do Mundo, o mais previsível era que isso acontecesse mesmo, não exatamente com o camisa 10 e capitão do time.

  2. O texto tem algumas incoerências:

    1 – O Raí não ficou alheio as comemorações do time na vitória contra os EUA; pelo ao contrário, comemorou, e muito, o gol do Bebeto.
    E tudo isso foi filmado.

    2 – O Raí não ficou preso na esquerda ou na direita. Ele teve liberdade para se movimentar no campo todo; como pode-se notar assistindo aos jogos, onde ele buscava jogo na defesa, caia na esquerda, na direita, armava jogadas, fazia o pivô… O que faltou pra ele foi ousadia mesmo. Ele deveria ter chutado mais a gol, penetrado mais na área.

    3 – No jogo contra a Holanda ele entrou e muito bem. Mostrando uma raça implacável nos minutos finais da partida.

    4 – O Raí estava nos planos do Parreira para entrar na final. Só que ele não contava que iria ter que queimar uma substituição ao colocar o Cafú no lugar do Jorginho, que havia se contundido.

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