Só a décima pode libertar o Real Madrid, mas o jejum já foi maior

Se alguém no mundo pensa que o Real Madrid vive uma pressão nunca antes vista para conquistar a Europa, certamente não deve se lembrar do jejum a que a equipe foi submetida dos anos 60 até o fim dos anos 90. É bem verdade que os madridistas estão cada vez mais obsessivos com “La Décima”, mas quando “La Septima” veio, um grande peso saiu das costas de uma geração fadada ao sucesso. Quem ajuda a contar essa saga é Fernando Hierro.

Fosse seu time um grande vencedor da Liga dos Campeões em determinada época, você não se acostumaria a viver brigando por títulos? Avassalador na década de 60, o Real Madrid dominou o mundo com Ferenc Puskas, Alfredo Di Stéfano, Francisco Gento e Amancio Amaro, algumas das peças mais fascinantes de um elenco saudoso no Santiago Bernabéu.

Em 1998, quando os madridistas encararam a Juventus, a expectativa pela sétima taça europeia tomava conta de Madrid, com um time que se não tinha o mesmo brilho da geração sessentista, ao menos enchia os olhos da sua torcida. Bodo Illgner, Hierro, Fernando Redondo, Roberto Carlos, Clarence Seedorf, Raúl, Fernando Morientes, Davor Suker e Predrag Mijatovic levaram os blanquillos à glória, rompendo um jejum de 32 anos longe da taça.

A Amsterdam Arena estava em seus primeiros passos para a consolidação como um dos grandes estádios europeus. Para um time que buscava retomar a soberania na Champions, o passo em 1998 contra a Juve no palco em Amsterdã era essencial. Mas antes, vamos reconstruir a caminhada até o jogo crucial na capital holandesa.

Pela primeira fase, o Real deixou Rosenborg, Porto e Olympiacos no caminho. Somente os líderes das chaves e os dois melhores segundos colocados avançavam, no caso, Borussia Dortmund, Manchester United, Juventus, Dynamo Kiev, o próprio Real, Bayern de Munique, Monaco e Leverkusen.

Foto: Mundialistas y mitos
Da esquerda para a direita – Illgner, Hierro, Seedorf, Redondo, Panucci e Morientes [Agachados]: Karembeu, Mijatovic, Roberto Carlos, Raúl e Sanchís (Foto: Mundialistas y mitos)

No confronto de quartas de final, os espanhóis derrubaram os Aspirinas do Leverkusen sem dificuldade, trama que se repetiria quatro anos depois, na finalíssima da competição em 2002. Um empate em 1 a 1 e uma vitória por 3 a 0 deram a vaga nas semis ao Real, que enfrentaria os aurinegros do Dortmund, então detentores da taça. Outro alemão caído: 2 a 0 em Madrid e um 0 a 0 no Westfalen impulsionaram os blanquillos até o último duelo contra a Juventus, que esteve presente nas decisões de 1996 e 1997, vencendo uma e perdendo outra.

Mais tensão do que lances bonitos

Armado por Jupp Heynckes de forma ofensiva para botar terror nos italianos, o Real Madrid entrou com Raúl fazendo o papel de armador para Morientes e Mijatovic. Na prática, os 90 minutos transcorreram com mais sangue, suor e lágrimas do que propriamente chances de gol, o que era esperado pelos presentes no estádio. Muitas faltas, discussões, clima ríspido entre os atletas. Quem esteve mais perto de marcar foi Zidane, que forçou Illgner a fazer uma grande defesa num voleio.

A maneira tediosa que o Real encontrou para chegar ao gol pouco importa. Aos torcedores, toda a apreensão a que foram submetidos longe de casa até o tão esperado grito de campeão, valeu a pena. Num lance duvidoso, é verdade. Um chute fraco resvalou na defesa bianconera e encontrou os pés de Mijatovic, que carregou, tirou de Angelo Peruzzi com requintes de crueldade e tocou para as redes.

Nunca que 32 anos passaram tão devagar diante dos olhos madridistas. Numa tacada só, Mijatovic enterrou os sonhos juventinos e rabiscou o primeiro de três sucessos do clube merengue até 2002, onde o último seria pintado por… Zidane, num voleio preciso como aquele de 1998 falhou em ser.

Para Hierro, obsessão de 2014 não é maior do que a de 1998

Foto: Foro Punto Pelota
Foto: Foro Punto Pelota

Em entrevista ao jornal espanhol Marca, o ex-zagueiro do Real, Hierro, deu seu parecer e fez uma comparação do time de 2014 que enfrenta o Atlético de Madrid no próximo sábado, com o vencedor em 1998, 2000 e 2002. Para o defensor, a verdadeira obsessão com a taça era vivida pela sua geração.

“Gerações de jogadores e torcedores não sabiam o que era ganhar uma Liga (Copa) dos Campeões. Quando triunfamos, foi uma espécie de libertação. Por causa disso, também levantamos a oitava e a nona taça. Espero que isso se repita no sábado. Tenho a esperança de que eles tragam a décima e superem esse tempo de espera. Nosso time, por outro lado, merece muito crédito: jogamos três decisões em quatro anos e vencemos em todas. Foi uma proeza enorme. Penso que agora é menos complicado vencer a Liga dos Campeões do que a Copa dos Campeões da Europa (formato extinto em 1993). Na fase de grupos você pode errar, e lá ainda existem alguns times que foram segundos e terceiros em suas ligas. Relativamente falando, claro, não posso dizer que é uma tarefa que qualquer um realize com facilidade”, arrematou Hierro.

Juventus 0-1 Real Madrid
Final da Liga dos Campeões
Arena Amsterdam, 20 de maio de 1998 – Amsterdã

Real Madrid: Illgner, Sanchís, Hierro, Panucci, Roberto Carlos, Karembeu, Redondo, Seedorf, Raúl (Amavisca), Morientes (Jaime) e Mijatovic (Suker). Técnico: Jupp Heynckes

Juventus: Peruzzi, Torricelli, Montero, Iuliano, Di Livio (Tacchinardi), Pessotto (Fonseca), Deschamps (Conte), Davids, Zidane, Inzaghi e Del Piero. Técnico: Marcello Lippi

Um pensamento em “Só a décima pode libertar o Real Madrid, mas o jejum já foi maior”

  1. Realmente a pressão era muito mais forte em 98, mas em termos de investimento financeiro não há comparações. Bale, Cristiano, Di Maria, Modric, Pepe ou Coentrão 🙂 custaram absurdamente mais que Seedorf, Karembeu, Suker, Mijatovic ou Roberto Carlos, não indicando superioridade futebolística, claro. Excelente texto. Parabéns.

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