A Roma que venceu

A Roma do título obviamente não é o time da Itália, até porque seria muita ousadia minha tomar posse de um título deles, afinal de contas eles tem tão poucos por lá. O ‘Fomos Campeões’ de hoje fala de um Roma menos estrelado, com uma história conturbada, mas que possui uma grande glória que ninguém pode tirar (até tentaram, mas era tarde demais). Estou falando do Roma Barueri, campeão da Copa SP Juniores de 2001.

A história desse título não é tão obscura assim, afinal de contas, todo time pequeno que rouba o lugar dos grandes acaba chamando a atenção. O que vou tentar contar aqui é a minha versão dessa epopeia, visto que, do alto dos meus 18 anos, fui um dos baruerienses que ficara absolutamente malucos com a campanha do time.

Hoje em dia quando se fala em Barueri, muita gente lembra do confuso Grêmio Barueri, que assustou muita gente ao conseguir chegar com certa rapidez na primeira divisão, tanto do Paulista como do Campeonato Brasileiro. Depois que o dinheiro acabou, o time acabou ficando famoso no mundo do futebol pelo carinhoso apelido de Grêmio Itinerante, devido a sua fracassada mudança de cidade. Mas eu preciso dizer aqui que, se há alguma história futebolística envolvendo a cidade de Barueri, a culpa é toda do Roma Barueri e seu absurdo título de 2001.

Nós baruerienses, éramos meio que invisíveis no estado, e não falo só da parte esportiva. Barueri NUNCA era notícia sobre NADA, a cidade era o chuchu da grande São Paulo. Por essas e outras, dá pra imaginar como a cidade ficou enlouquecida quando a federação paulista resolveu inchar a Copa SP e trouxe uma das sedes do campeonato para a cidade no fim dos anos 90. Ver os juniores do Sampaio Corrêa (nada contra, até tenho amigos que são!) jogando no acanhado estádio municipal era o ápice do esporte para Barueri. Se a gente já estava satisfeito com a Copinha, imaginem só como a cidade ficou ao saber que em 2001 não só seríamos uma das sedes do campeonato, como também teríamos pela primeira vez na história, um time disputando a taça São Paulo.

BARUERI
Foto: Globoesporte.com

Em janeiro de 2001, do alto dos meus 18 anos, os deveres do dia incluíam assistir Chaves e Chapolin na TV, enquanto ouvia meu pai me mandar procurar um emprego. Então não foi nenhuma grande dificuldade acompanhar os primeiros jogos da chave no estádio, que ainda estava longe de ser a Arena. Os 6 a 0 que o time meteu no Auto Esporte na 1ª rodada não foram suficientes para fazer com que a torcida acreditasse que era possível conquistar a vaga, já que o cabeça de chave do grupo era o Botafogo. Eu sei que a base do Botafogo não é exatamente de meter medo, mas era suficiente pra tirar qualquer esperanças de um time que tinha pouco mais de 1 ano de idade.

O empate da segunda rodada com o Goiás dividiu a torcida entre aqueles que esperavam a eliminação com uma goleada e os otimistas, que esperavam a eliminação dando um pouco de dificuldade ao Botafogo. Os 3 a 0 metidos pelo Barueri em cima dos cariocas fizeram o time bater o recorde de maior número de cus que cairam das bundas num mesmo jogo de futebol. Tá no Guinness, podem procurar.

Depois dessa classificação, a cidade passou a respirar futebol, não se falava de outra coisa nas padarias, filas de banco e qualquer outro lugar onde dois baruerienses pudessem conversar. Além do bom time, a sorte estava ao nosso lado, pois conseguimos fugir dos times grandes no primeiro mata-mata, vencendo o Guaratinguetá em partida que foi disputada em dois dias, por causa da chuva. Depois do Guará, o time voltou a encarar um gigante do futebol, mas dessa vez a moral do time era outra. A dificuldade foi maior, mas o resultado positivo veio novamente. 2 a 1 pra cima do Grêmio e ali a história já estava escrita. Ter visto o novato time do Barueri bater dois gigantes e chegar a semifinal da Copa SP já era história suficiente pra que eu pudesse contar aos meus netos, mas naquele ponto todos queriam e sabiam que podiam ir mais além.

Algumas pessoas podem tentar diminuir a façanha do Roma ao dizer que o time pegou apenas dois times grandes até a final. Eu até concordo com isso, mas na minha opinião, a saga não teria sido a mesma se o time tivesse pegado oponentes mais encardidos. E não digo isso por medo, mas pelo fato de que, se o time tivesse enfrentado algum grande paulista no caminho, provavelmente a federação teria feito esse jogo em outra cidade com um estádio de maior porte. Grande parte da graça dessa campanha foi o fato de que a jornada até a final foi percorrida em casa. E o último capítulo contado no estádio municipal de Barueri não poderia ter sido mais emocionante: 5 a 3 pra cima do Bragantino.

Já tinha acompanhado muitos jogos amadores naquele estádio antes, mas nenhum deles mexeu tanto comigo e com a cidade como essa semifinal. Uma alma iluminada colocou os gols dessa semifinal no youtube, vejam o video e tirem suas conclusões sobre a festa que a cidade fez.

Depois desse alucinante 5 a 3, Barueri tinha virado oficialmente a capital mundial do futebol, pelo menos pra nós. Os dias que antecederam a final foram de uma ansiedade absurda. O time ia enfrentar o atual campeão e melhor da competição, mas depois de tudo o que havia acontecido, nada mais parecia impossível.

Foi com esse espírito que milhares de torcedores se aglomeraram na frente da secretaria de esportes, na esperança de conseguir um dos poucos ingressos da final. Eu fui um dos infelizes que passaram mais de 6 horas na fila e não conseguiram um ingresso, por isso tive que me contentar em ver a história sendo escrita pela TV. E que momento, meus amigos! Uma final terminar em 4 a 4 com o gol de empate do Roma saindo DE BICICLETA aos 44 do segundo tempo está bom pra vocês? Os penaltis vieram e com eles, a consagração da cidade. Depois daquele dia Barueri passou a ter relevância no futebol e nós baruerienses poderíamos enfim nos orgulhar de morar numa cidade que não era mais invisível.

Como nem tudo são flores, depois do título, o dono da equipe entrou em atrito com a gestão da cidade e acabou levando o clube para o interior do Paraná. O azar foi dele, afinal de contas, a cidade já estava infectada com a febre de bola e não demorou muito pra criarem um outro escudo pra curtir. Apesar da péssima fase, quem é mais famoso: Grêmio Barueri ou Roma de Apucarana?

Pouco tempo depois também se descobriu que pelo menos 3 jogadores daquele time, incluindo o ÍDOLO e MITO Itabuna eram gatos. O São Paulo até tentou refazer o jogo ou tentar ficar com o título, mas não conseguiu. E mesmo se tivesse conseguido, não iam conseguir apagar da memória da população a mágica que aconteceu naquele mês de janeiro.

P.S: Preciso assumir que a escolha do título desse texto foi uma tentativa rasteira de zuar o Portes e sua dedicação ao vitorioso time da capital italiana. Peço perdão pelo vacilo.

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