Se Gareca vier para o Palmeiras, ao menos o clube terá pensado diferente

Enquanto o centenário palmeirense se desenrola para ser apenas mais um ano monótono na história do clube, a diretoria enfim se mexe para fazer do futuro do Verdão um lugar mais animador. Após a demissão de Gilson Kleina, o Palmeiras estuda com cautela quem pode ser o novo comandante. Aparentemente, a bola da vez é o argentino Ricardo Gareca, ex-Vélez Sársfield. Mas o que será que ele pode oferecer após a Era Kleina?

Gareca chega com alguns títulos pelo Fortín e um visual de tecladista do Journey como cartão de visita. Quem olha para o argentino no banco, sabe que ele é capaz de usar formações que privilegiam o bom toque de bola e a sabedoria na hora de aplicar os contragolpes. Durante muitos anos ele fez o Vélez jogar solto e sabendo se defender quando necessário, não à toa, conseguiu liderar o time mais consistente da Argentina na última meia década.

Ainda que ao fim da última temporada o Vélez tenha se mostrado um tanto quanto acanhado e desmotivado, é importante lembrar que sob o comando do cabeludo, a equipe de Liniers se comportou muito bem em competições nacionais e sempre beliscava boas participações na Copa Libertadores.

Até onde interessa para o Palmeiras, contratar um técnico estrangeiro é um movimento mais ousado do que o futebol nacional está acostumado. Não temos o costume de apostar em treinadores de fora, uma prática que deveria ser mais popular e que ajudaria muito os times daqui a se comportarem em decisões fora do país. Mas como em cabeça de cartola o mercado para professores ainda é um tanto quanto bairrista, dificilmente veríamos Gareca, Bielsa, Bianchi, Tabárez e até mesmo Arce no banco de reservas de algum clube no Brasileirão.

Muito se fala em adaptar a cultura daqui a um conhecimento mais amplo do que acontece nos vizinhos sul-americanos, não só simplesmente fingir que o Brasil é a única coisa que preste cá para estes lados. Recentemente tivemos algumas tentativas de importar estrategistas como Bielsa. O Santos já sondou El Loco em temporadas passadas, é verdade, inclusive até o Palmeiras ofereceu alguns merréis ao revolucionário argentino. A situação no plantel alviverde era tão desesperadora que Bielsa ainda deu uma bronca nos dirigentes pelo pobre aproveitamento dos jogadores da base. Fora a questão salarial, que era alta demais até para os padrões de Muricy, Mano e outros que ganham uma tremenda bufunfa.

É bom lembrar também que Bielsa, quando negociando com o Santos, em 2013, levantou a lebre de que precisaria se adaptar ao futebol daqui, estudar e elaborar um projeto para o Peixe, argumento que costuma ser pouco relevante nas tratativas entre equipes e treinadores. A pressa dos santistas era tanta (também esbarraram nas cifras pedidas por El Loco) que o nome dele logo saiu de pauta.

Levando em consideração que sim, quem vem de fora precisa tirar um tempo para entender o que há por estas terras, como a banda toca, entre outras micro questões, o Palmeiras acerta 50% da equação se contratar Gareca, desempregado após conquistar quatro títulos argentinos (três com o Vélez e um com o Independiente).

É um nome que poderia mudar consideravelmente a filosofia arroz com feijão do alviverde, sobretudo depois das trapalhadas recentes e da austeridade seletiva de Paulo Nobre. Mas que por outro lado, o professor pode se complicar justamente por chegar num momento conturbado e de cobranças no clube. Precisará mostrar resultado imediato, atropelando o tempo hábil para se contextualizar no Brasil, num time grande e que carece de glórias e competitividade.

Qualquer gringo que se arrisque a comandar o Verdão vai encarar essa bucha, não seria diferente nem com Arce, atual treinador do Cerro Porteño, ídolo da torcida e que recusou qualquer aproximação do estafe de Nobre. É ingrato pensar que você precisa se comportar como profundo conhecedor da cultura e do esporte locais, sem ter nem dois meses como morador do país.

De acordo com o Globoesporte.com, o Palmeiras aprovou as negociações com Gareca, que ao que tudo indica terá de fazer jus ao apelido de “El Tigre” para cravar suas garras e mostrar muito serviço se não quiser ser visto como um peixe fora d’água em São Paulo. Ao menos estamos vendo uma epifania na mentalidade dos dirigentes. Eles parecem estar acordando para a percepção que há bom futebol além das fronteiras sul-americanas.

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