Nem sempre a Espanha foi polarizada por Real Madrid e Barça

Por Pedro Pedroso

Nem sempre a Espanha foi polarizada por Barcelona e Real Madrid, na verdade, até a década de 80, o Atlético de Madrid brigava cabeça a cabeça com os catalães pelo posto de segundo maior time da terra de Cervantes. Prova disso, é o número de títulos conquistados: até 1976 os blaugranas contavam com 8 Ligas, os rojiblancos haviam alcançado a glória nacional por 7 vezes. Essa é a história da oitava conquista, e de uma das melhores versões do Atlético a pisar em gramados espanhóis.

Após o vice-campeonato da Liga dos Campeões da temporada 1973-74, Luis Aragonés foi escolhido como novo técnico dos índios. Dando o salto de jogador a comandante de uma só vez. O time não vivia a seca de títulos pela qual passou na década passada, havia vencido a Liga pela última vez em 72-73, e obteve o vice-campeonato em 73-74. Em 1975 chegariam a Madrid dois nomes dispostos a entrar para a história do clube: nada menos que Leivinha e Luís Pereira.

Leivinha, Aragonés e Luís Pereira Foto: Atlético de Madrid
Leivinha, Aragonés e Luís Pereira
Foto: Atlético de Madrid

Juntamente a Rubén Ayala e Rubén Cano, Leivinha formou um dos melhores trios de ataque da história da Espanha. Os três foram responsáveis por 50 gols (entre gols e assistências) na campanha do título espanhol. Um número impressionante, levando em conta que o Atleti terminou a temporada com 62 tentos marcados. Mais de 80% dos gols da equipe saíram dos pés do trio.

O que muitos não sabem é que o Atlético não estava atrás dos dois jogadores do Palmeiras. Mas sim do meio-campista Ivo Wortmann, do América do Rio. Problemas cardíacos impediram que Wortmann fosse contratado, e no verão de 1975 o Palmeiras disputou o Ramón de Carranza, o bastante pra convencer Aragonés do potencial de dois atletas. O resto quem conta é o próprio Luís Pereira: “Quando voltávamos ao Brasil, no mesmo vôo estavam Santos Campano (vice-presidente do Atlético) e o Dr. Ibáñez (médico do clube), viajavam pra confirmar o problema do Ivo. Quando chegamos, após a confirmação de que Ivo não poderia ser contratado, nos perguntaram se teríamos vontade de jogar pelo Atlético e nós dissemos que sim. Imediatamente fizemos os exames e embarcamos pra Espanha, já que o prazo de inscrição estava terminando.” Os espanhóis desembolsaram 1 milhão de dólares pela contratação de Leivinha e Luís Pereira.

Foto: Colchoneros.com
Foto: Colchoneros.com

A Liga naquela época era formada por 18 clubes, a vitória ainda concedia 2 pontos, e os primeiros vieram na estréia. Em 5 de setembro de 1976, no Vicente Calderón, o Atleti bateu o Málaga por 2 a 0. Leivinha marcou o primeiro, Cano fez o segundo. Na segunda rodada sofreram dura derrota para o Celta, que terminaria a temporada rebaixado. Leivinha e Cano garantiram a segunda vitória, dessa vez contra o Salamanca. Após a derrota pra Real Sociedad, na quarta rodada, a equipe colchonera engatou cinco vitórias seguidas, inclusive um imponente 3 a 1 pra cima do Barcelona de Cruyff e Neeskens. Cruyff, aliás, que fez o gol de honra, que valeu qualquer nota. Nesse dia ele criou o “gol fantasma”, muito antes de Ibrahimovic, chicoteando a bola com o calcanhar, de um ângulo quase impossível, deixando Reina atônito.

Os rojiblancos só voltariam a conhecer a derrota na décima rodada, frente ao Bétis, fora de casa, perdendo por 1 a 0 com gol de Ladinsky. A derrota pesou, já a equipe da capital acumulou 5 jogos sem vitória (3 empates e 2 derrotas), incluindo um 3 a 0 contra o Burgos. Graças ao mito Ayala, que marcou duas vezes contra o Zaragoza, os comandados de Aragonés tornaram a vencer na rodada 15.

Foto: Colchoneros.com
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Mesmo com um trio de ataque tão mortal, o pilar do time, assim como acontece com Simeone, era o setor defensivo. O Atleti alinhava com Reina (pai do goleiro do Napoli), Marcelino, Eusebio, Pereira e Capón. Terminou o campeonato com a melhor defesa, sofrendo 33 gols em 34 jogos. Prova disso é o acachapante 4 a 0 contra o eterno rival, no dia 2 de janeiro de 77. Um Madrid que contava com Del Bosque, Breitner e Santillana, foi incapaz de furar as linhas rojiblancas. Detalhe, a essa altura Leivinha já não estava no time, havia operado o joelho esquerdo, ficando de fora da maior parte da temporada.

A última partida do primeiro turno marcava o encontro de dois argentinos. Kempes, pelo Valencia, e Ruben Cano, que fazia temporada esplendorosa. O Atlético jogava fora de casa, abriu o placar com o motor do meio campo, Eugenio Leal. Quando Kempes empatou o jogo, era a hora de Cano voltar a decidir, fazendo dois gols que desempataram a peleja e abriram a vantagem que nem o segundo gol de Kempes foi capaz de mudar. Ali o time se afirmava como postulante ao título. Terminou o primeiro turno tendo derrotado Athletic Club, Barcelona, Real Madrid e Valencia, algo que soava como um sonho para os torcedores e até para o próprio elenco.

Foto: Colchoneros.com
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Embalado pelas vitórias contra os gigantes, consegue mais uma série invicta. 8 jogos em sequência, 4 empates, 0 a 0 com o Málaga, 1 a 1 frente ao Salamanca, 1 a 1 ante o Espanyol e, graças ao gol contra de Neeskens, mais um empate por 1 a 1 contra o Barcelona. Que a essa altura já disputava o título palmo a palmo. O ataque dava sinais de grande confiança, as quatro vitórias posteriores vieram através dos 3 a 0 contra o Celta, numa vingança pela derrota no primeiro turno. Fora isso, vieram mais duas goleadas por 5 a 1 contra Real Sociedad e Elche. Mas a grande demonstração de força veio no jogo contra o Athletic, em Bilbao, quando o gol solitário de Rubén Cano garantiu a vitória.

Assim como na atual temporada, o Atlético perdia pontos para os pequenos, na rodada 26 o algoz foi o Hércules, pelo placar de 2 a 1. Após 3 vitórias seguidas, o time de Aragonés voltou a perder, dessa vez para o Burgos, na volta de Leivinha. Já recuperado, o brasileiro teve atuação de gala somente no jogo seguinte, marcando dois gols – um de letra- em mais uma goleada por 5 a 1, dessa vez castigando o Racing.

A goleada contra o Racing fez com que o Atlético precisasse de uma vitória e um empate nos últimos 3 jogos. O primeiro embate foi contra o Zaragoza, vitória fácil por 2 a 0, gols de Cano e Ayala. Os colchoneros chegaram ao Santiago Bernabéu precisando apenas do empate. E abriram o placar com ele, sempre ele, Rubén Cano. O empate do Madrid veio dos pés de Roberto Martínez, mas foi insuficiente pra impedir o oitavo título espanhol dos arquirrivais da capital. Ratón Ayala e Rubén Cano comemoraram o título nos vestiários do Bernabéu com suas Pepsis na mão.

Ayala e Cano comemoram o título do Atleti  Foto: Colchoneros.com
Ayala e Cano comemoram o título do Atleti
Foto: Colchoneros.com

Na última rodada o Atlético recebeu o Valencia, com direito a pasillo, e Kempes se vingando da derrota no primeiro turno. 2 gols do argentino, e derrota do Atleti por 3 a 2. Ao final do campeonato, apenas um ponto separou colchoneros e blaugranas. O Atleti terminou com 46, enquanto o Barcelona ficou logo atrás com 45. A terceira colocação ficou com os bascos do Athletic Bilbao, que somaram 38, e o surpreendente Las Palmas fechou a quarta colocação com 36 pontos. O Real Madrid terminou aquela temporada na lamentável nona posição, com 34 pontos, num equilibrado pelotão intermediário.

Leivinha, mesmo com a lesão, conseguiu repetir o nível das atuações de sua primeira temporada. Foram 8 gols e 3 assistências em 15 partidas. Mas o pilar do time era mesmo Luis Pereira, com 32 jogos na campanha, somando 2856 minutos em campo. O defensor só participou menos que Ratón Ayala e Eugenio Leal, além de ter contribuído com 4 gols.

Após a mágica temporada, o Atleti só voltaria a vencer o campeonato nos anos 90, com o doblete de 1995-96. Tenta repetir agora o seu passado, tendo em Miranda e Diego Costa, uma espécie de reedição de Luis Pereira e Leivinha. Os brasileiros vão escrever novamente uma história gloriosa no Vicente Calderón?

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