Millerntor, a utopia materializada em concreto

Millerntor, Hamburgo

Por Igor Cabral

A tentativa de implantação da cultura européia em extenso território, dotado de condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em conseqüências. Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas idéias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra. – Sérgio Burque de Holanda, Raízes do Brasil (1936)

O parágrafo escrito por Buarque de Holanda há quase oitenta anos ainda é lamentavelmente apropriado para comentar as transformações vividas pelo futebol brasileiro nos últimos anos. O grande influxo de dinheiro nos cofres dos principais clubes e das federações, além da preparação para sediar uma Copa do Mundo, falharam em induzir um esperado processo de modernização do esporte no país que toma para si a alcunha de “país do futebol”. Não há progresso no combate à violência e no desenvolvimento de uma fan culture pacífica e diversa e a desejável profissionaização da gestão do esporte no Brasil se afasta sistematicamente dos interesses do torcedor.

Enquanto os grandes clubes brasileiros transformam a frequência em estádios em um luxo pelo qual apenas uma pequena elite pode pagar e as pequenas agremiações lutam contra toda sorte de problemas de estrutura para continuar existindo, o torcedor apaixonado se questiona se é realmente possível aquela bela utopia em que o clube de futebol e seu estádio são de fato pilares relevantes da vida das comunidades adjacentes, promovendo a sociabilidade, a diversidade e, evidentemente, um bom punhado de futebol. Visitar o Millerntor e conhecer a história do FC St. Pauli é ver essa utopia materializada em carne, osso, grama e concreto.

Construído ao lado da Reeperbahn, o red light district de Hamburg, o Millerntor representa de maneira muito fiel aquilo que faz o FC St. Pauli um clube tão adorável: sua mentalidade moderna e aberta. Se o futebol pode servir como meio de inclusão social, o mote do St. Pauli é claríssimo: ao se declarar “non-established since 1910”, a agremiação dá as costas ao establishment e abraça a diversidade, transformando o esporte numa ferramenta política contra o racismo, a homofobia, o sexismo e outros tipos de intolerância e discriminação, compromissos assumidos pela torcida em seu estatuto.

Gegentribüne Foto: Arquivo pessoal
Gegentribüne
Foto: Arquivo pessoal

As visitas guiadas ao Millerntor começam pela a Gegentribüne (“arquibancada oposta” – a leste), reconstruída em 2012 na terceira de quatro etapas da modernização do estádio, que começou em 2006. Nela, vê-se escrito em bom tamanho a mensagem “Kein Fußball den Faschisten”, algo como “No football for the facists”. Em seu último amistoso antes da Copa do Mundo, a seleção alemã enfrentou a Polônia na Imtech Arena, estádio do Hamburger SV. Os treinos do time de Joachim Löw foram realizados no Millerntor e a Federação Alemã decidiu cobrir parte da mensagem. Em resposta, os torcedores do St. Pauli iniciaram a campanha “Kein Millerntor dem DFB” – “No Millerntor for the DFB” –, solicitando que o clube jamais voltasse a receber o selecionado nacional no estádio, o que arrancou da DFB um pedido oficial de desculpas.

Sim, os times entram em campo ao som de Hells Bells, do AC/DC.

A Südtribüne (arquibancada sul) do Millerntor foi demolida em dezembro de 2006 e reinaugurada em 2008, num amistoso entre o St. Pauli e a seleção de Cuba. Nela se concentram os principais grupos de ultras e ocorrem as mais significativas manifestações políticas da torcida. Os prédios da Südtribune e da arquibancada principal são conectados pelo Pirate’s Nest, uma instalação que funciona como creche para 100 crianças de zero a seis anos e é administrada pela Hamburg Pestalozzi Foundation, que promove ações sociais há mais de 150 anos.

Pirate’s Nest (esq.) e Haupttribüne (dir.)
Pirate’s Nest (esq.) e Haupttribüne (dir.)

A Haupttribüne (“arquibancada principal” – a oeste) foi o segundo prédio do Millerntor a ser reformado. Demolido no fim de 2009 e reaberto menos de um ano depois, ele abriga também os camarotes, instalações de imprensa e assentos para torcedores com dificuldades de locomoção à beira do campo. O licenciamento dos camarotes é uma boa fonte de renda para o clube e os torcedores podem personalizá-lo como quiserem enquanto forem os utilizadores do espaço.

Camarote 39 – Captain’s Deck
Camarote 39 – Captain’s Deck

A próxima arquibancada a ser reformada é a Nordtribüne (“arquibancada norte”). Antes da reforma, em 2006, ela era a menor porção do estádio e foi ampliada com assentos temporários para acomodar mais torcedores enquanto as outras partes do Millerntor eram demolidas e reconstruídas. No primeiro projeto do novo Millerntor, a Nordtribüne tinha sua reinauguração prevista para 2014, prazo que não foi cumprido devido às restrições financeiras do St. Pauli. Como as obras do estádio não impedem sua utilização, o clube espera ter dinheiro para reformar a arquibancada norte nos próximos anos. A capacidade total do estádio pós-reforma será de quase 30.000 espectadores, mantida propositalmente abaixo desse patamar para que não seja obrigatória a existência de um estacionamento, conforme previsto na regulamentação alemã.

Nordtribüne. As estruturas de metal não existiam até o início da reforma.
Nordtribüne. As estruturas de metal não existiam até o início da reforma.

Além de contar com a creche, o Millerntor foi eleito em 2010 pela PETA como o estádio mais animal-friendly do planeta, por servir um variado cardápio de comida vegetariana em seus quiosques. Entre 1970 e 1997, o estádio foi batizado em homenagem ao ex-presidente do clube Wilhelm Koch, mas a homenagem foi revogada quando investigações descobriram que Koch esteve ligado ao Partido Nazista na década de 40. Em 2007, a diretoria e os torcedores acordaram em manter o nome Millerntor indefinidamente, impedindo futuras alterações no nome do estádio.

Um clube como o St. Pauli e um estádio como o Millerntor têm muito a oferecer aos torcedores brasileiros. Mostram como uma arquibancada vibrante é perfeitamente compatível com o combate ao preconceito e à intolerância. Se o futebol é um reduto especialmente machista e homofóbico da sociedade, o St. Pauli mostra que é possível que isso seja diferente, que a intolerância não é algo “do futebol”. A reforma do Millerntor é um belo exemplo de como uma administração profissional está ao alcance de clubes de futebol de todos os tamanhos e a modernização dos estádios não implica necessariamente a elitização do acesso à arquibancada e o fim de uma torcida capaz de promover uma festa por si própria para além do espetáculo realizado dentro de campo.

Não se trata apenas de transplantar cegamente um hipotético “padrão europeu” de estádio, mas de aprender as lições que clubes como o St. Pauli têm a oferecer e aplicar aquilo que for compatível com a cultura de futebol no Brasil.

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