Afinal, o Corinthians vive ou não um conflito de identidade?

Enquanto o Corinthians se prepara para jogar a primeira partida oficial em sua nova casa, o assunto entre os corinthianos da internet (e fora dela) tem sido os valores dos ingressos para a partida inaugural. E sempre que o bolso do corinthiano entra em pauta, muita gente levanta a lebre da suporta ~perca~ da identidade do time, afinal de contas como podemos cantar que somos maloqueiros e sofredores se compramos ingresso caro pela internet e temos até um cartão cheio de tecnologia pra entrar no estádio?

Apesar de não haver nenhuma certeza de que os preços praticados para o jogo contra o Figueirense serão mantidos depois da Copa, muita gente ficou preocupada, pois com o preço mínimo de 50 reais (ou mesmo 35 para fieis torcedores) fica complicado acompanhar o time com frequência nos jogos em casa. Além da dificuldade de acompanhar o time, uma outra preocupação de boa parte da torcida é com o fato de que, com ingressos caros, o estádio possa passar a ser frequentado por pessoas de classes sociais mais altas, que podem não ter o mesmo espírito e a garra na hora de apoiar o time.

Como corintiano, posso dizer que não é a primeira vez que esse assunto vem à tona. Inclusive na época da implantação do Fiel Torcedor, muita gente torceu o nariz para o projeto pelo mesmo motivo. A internet naquela época ainda não tinha a abrangência que tem hoje, então dá pra imaginar o tamanho do chilique. Confesso que eu mesmo tive essa sensação, afinal de contas, conhecia muita gente que frequentava o Pacaembú assiduamente e ficava pensando: “Mano, esse tiozinho nunca vai conseguir comprar um ingresso online, nunca mais vai ao estádio”.

Pouco tempo depois eu comecei a me surpreender com a quantidade de amigos que se enquadravam no perfil de tiozinho offline que vinham comentar comigo que haviam se cadastrado no projeto corintiano. Mas mesmo assim, ainda haviam pessoas que sentiam o Pacaembu, digamos, “diferente” desde a consolidação do fiel torcedor. Hoje mesmo, enquanto conversava com a @corinthiana sobre os preços dos ingresos, ouvi que, para ela, a torcida não exercia a mesma pressão e tampouco dava o mesmo apoio de antes.

Não quero encerrar essa discussão (não conseguiria nem se quisesse), mas resolvi trazer à tona alguns números de uma rápida pesquisa que fiz:

Entre 2000 e 2007 o Corinthians teve um aproveitamento de 59% jogando em casa.
Já de 2008 pra frente (quando o Fiel Torcedor foi implantado), o aproveitamento no Pacaembu subiu para quase 72%.

Alguns podem alegar que de 2008 pra cá, o time não viveu nenhuma grande crise que pudesse prejudicar o aproveitamento, no entanto, quando se compara os melhores anos dos dois períodos, temos 70% de aproveitamento no ano do tetracampeonato brasileiro de 2005 contra impressionantes 81% de aproveitamento em 2010, mesmo sem ter conquistado nenhum título naquele ano.

Com relação ao público, de 2008 pra cá, o Corinthians tem conseguido sempre médias de público acima das 20 mil pessoas. Já no período anterior, o time só conseguiu média maior em 3 anos. As médias de público pós 2008 impressionam ainda mais quando levamos em conta que o time deixou de mandar os clássicos no Morumbi a partir daquele ano. Os números mostram um time mais forte e imponente em casa após a implantação do Fiel Torcedor e o consequente aumento do valor dos ingressos que também aconteceu nesse período.

No que concerne o clima do estádio, se trata é um assunto subjetivo demais pra abordar nesse texto. De qualquer forma, domingo começa uma nova história.

PS.: Enquanto escrevia este texto, os tais ingressos caros que causaram tanta discórdia na internet foram vendidos em cerca de 50 minutos.

2 pensamentos em “Afinal, o Corinthians vive ou não um conflito de identidade?”

  1. Muito bom o texto, parabéns ao autor. Na minha opinião não há crise de identidade. O Corinthians sempre foi um clube de massa, o que não significa que ele precise ser um clube pobre ou que tenha que deixar de faturar por isso. Muito pelo contrário. Em 2008 a torcida não demandava que o clube contratasse jogadores baratos, ou que economizasse nas instalações. A demanda da torcida era por títulos (principalmente o da Libertadores) e e por um estádio. Mesmo nos anos 90 sob a gestão do Dualib, o Corinthians sempre investiu pesado em reforços de nome. Times caros. Como o da Excel, o da base do bi-Brasileiro (98/99) e do Mundial (2000), passando pelos da Hicks Muse e da MSI. E só investiu baixo em 2007 porque tomou um passa-moleque da MSI. Veio o rebaixamento e o “bom e barato” só durou no ano da série B, em 2008. Assim que subiu o Corinthians já contratou o Ronaldo. Digo tudo isso para explicar que não há jantar gratuito. Se a torcida pede jogadores, títulos e estádio de ponta, tudo tem um custo. Sempre se disse que os clubes perdiam receitas de produtos de marketing porque não sabiam trabalhar o tamanho da sua torcida e de sua marca. O Corinthians começou a investir nisso e aumentou seu faturamento. E não são produtos exatamente baratos. Preço de ingresso é uma questão de ponto de vista. Eu acho um absurdo pagar 30 reais num jogo no Morumbi, que é longe, que o trânsito é infernal, que o estádio é uma porcaria pra assistir o jogo, que não tem onde deixar o carro ou não dá pra ir de transporte público, etc. Mas 30 reais pra ver num estádio moderno, bonito, a 40 minutos de trem da minha casa e com ótima visão e proximidade do campo, ao meu ver, é um preço justo. O tema é extenso mesmo, daria pra ficar a tarde toda nele.

    1. Valeu pelo comentário e pelo elogio, Luiz!
      Eu mesmo tentei não cravar a tal mudança de identidade pq a gente está lidando com vários aspectos puramente emocionais. Por exemplo, pra algumas pessoas até a desorganização da diretoria e o aspecto amador e folclórico dos presidentes era parte da identidade do time. Com relação ao preço do jogo nos estádios, eu ainda considero 30 reais um preço salgado em qualquer um dos estádios. Não que seja muito caro pra ir num jogo específico, mas fica pesado quando você leva em conta que o time precisa da torcida perto em todos os momentos, não só nos jogos decisivos. Mas também concordo com você quando vc diz que um estádio moderno e com facilidades ajuda a justificar o preço. Como você mesmo disse, o tema é longo e dá pra perder boas horas falando sobre isso. Talvez eu mesmo tenha me precipitado ao usar a palavra “conflito” ao falar da identidade do time, acho que mudança cabe melhor, afinal de contas o time, a gente, o país, enfim… tudo muda com o tempo.

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