A eternidade de Scirea

Scirea teve mérito por tudo que fez na sua carreira, defendendo de uma forma justa e precisa. Um dos precursores da escola de zagueiros italianos, o camisa 6 da Juventus dominou o setor na seleção italiana na década de 80, barrando nomes como Franco Baresi.

A história de Gaetano Scirea começa na década de 70, jogando pela Atalanta. Imagine que num cenário onde ser defensor significa quase sempre usar o recurso da violência como arma para barrar atacantes mais habilidosos. Como requisito básico para alguém da posição naqueles anos, a força era o principal resumo de quem jogava atrás no campo, faixa ocupada por quem não tem técnica suficiente para armar ataques ou concluir o movimento do time com um gol ou um chute, um cabeceio.

Um gentleman

Nesse contexto, em 1972, Scirea iniciou sua carreira na equipe nerazzurri e logo chamou a atenção da Juventus, que defenderia a partir de 74. Em Turim, desfilou sua classe e seu jogo limpo como líbero. Não precisava matar nenhum ataque adversário, usar o cotovelo de forma intencional, entrar por cima da bola. Para ele, era possível duelar de igual para igual com um atacante. Quando tinha tempo e espaço, descia carregando a pelota até o ataque e até marcou seus gols: ao todo foram 27. Seu posicionamento era o melhor possível. Sempre estava bem colocado para tentar o desarme e conseguia sair jogando com calma, enxergando bem as opções à sua frente.

A saga de títulos pela Velha senhora começou em 1975, com a conquista da Serie A. Foi o primeiro de 13 títulos que a Juve levantou até a sua aposentadoria, em 88. Era quase impossível parar aquela equipe bianconera. Ao lado de Claudio Gentile (o responsável pelo trabalho sujo na cozinha juventina), Gaetano formava uma dupla quase saída dos quadrinhos. Gentile era o anti-herói para o justiceiro Scirea. Duas faces de um escrete extremamente vitorioso que ainda contava com Dino Zoff no gol, Antonio Cabrini na defesa, Marco Tardelli e Pietro Fanna no meio, Roberto Bettega, Roberto Boninsegna e Franco Causio no ataque.

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Foto: Redcafe

A pragmática Itália de 1982

O capítulo do título mundial em 1982 foi uma história à parte na vida de Scirea. Parte essencial de um esquema bem armado por Enzo Bearzot, o líbero foi o ponto de equilíbrio entre o começo péssimo e a evolução constante durante o torneio na Espanha.

Em sua segunda Copa, Gaetano continuou sem fazer muitas faltas e coordenando a movimentação dos homens de trás da Squadra Azzurra. Três empates classificaram os italianos para a segunda fase, quando foram chaveados ao lado de Brasil e Argentina para definir o quadro de semifinalistas. Foi aí que a Itália cresceu.

Passando pela Albiceleste com o placar de 2 a 1, a seleção europeia poderia muito bem ter caído diante de um Brasil tão fascinante quanto o tricampeão em 1970. A valentia de Paolo Rossi ao castigar os brasileiros com três gols foi a marca de um elenco que não se rendeu diante de grandes desafios. Um confronto épico em todos os sentidos terminou 3 a 2, selando um dos momentos mais tristes da seleção canarinho.

Não que a Itália precisasse menos daquela conquista, afinal, o escândalo Totonero tirava a credibilidade do futebol no país. Desacreditada, a equipe treinada por Bearzot escalou até o topo, com muita paciência. A Alemanha apanhou na final e não esteve nem perto de conquistar a sua terceira taça. Rossi, Altobelli e Cabrini afundaram os germânicos com o placar de 3 a 1.

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A Juventus em 1985 – Foto: Soccermond

A incrível fase final

Campeã da Copa UEFA em 1977 em cima do Athletic Bilbao, da Taça das Taças UEFA em 1984 diante do Porto e da Copa dos Campeões em 1985 contra o Liverpool, após a tragédia de Heysel, a Juventus se consolidou como um belíssimo esquadrão fora da Itália. Scirea foi o capitão e líder em campo, muito embora o cérebro fosse mesmo o francês Michel Platini.

Já na casa dos 35 anos, Gaetano decidiu por se aposentar em 1988. Como pilar da Juve e da Seleção italiana, conquistou tudo que um atleta poderia almejar. Além das diversas taças, pelo menos uma em cada torneio disputado, mostram como Scirea foi vencedor. O seu fair play é comprovado pelo fato dele nunca ter sido expulso durante sua carreira.

Nomeado como olheiro da equipe turinense, se acostumou a viajar durante os anos seguintes para estudar talentos ao redor da Europa. Numa delas, em 1989, na Polônia, sofreu um acidente de carro e morreu na estrada ao se chocar com um caminhão que trazia combustível. Mais três passageiros no seu veículo perderam a vida na tragédia, que eternizou ainda mais o mito de Scirea na torcida juventina.

A morte faz alguns inesquecíveis, outros apenas memoráveis. Scirea será eterno. Viverá para sempre na lembrança de quem viu sua escola se consagrar no futebol, ou até mesmo na memória de quem aprecia o bom jogo, disputado por homens que respeitam as regras e o senso de que a violência não precisa fazer parte do espetáculo. Infelizmente nem todo mundo nasce com o dom defensivo que Gaetano foi presenteado. Isso só contribui para a lenda.

Gaetano Scirea
Nascimento: 25 de maio de 1953, Cernusco sul Naviglio, Itália
Posição: Líbero
Clubes: 1972-74 Atalanta, 1974-88 Juventus
Títulos: Serie A 1975, 77, 78, 81, 82, 84, 86; Copa da Itália 1979 e 83; Copa UEFA 1977; Copa do Mundo 1982; Taça das Taças UEFA 1984; Copa dos Campeões 1985; Mundial Interclubes 1985
Participações em Copas: 1978, 82 e 86
Eurocopas: 1980

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