Eu te entendo, Eguren

Cara, quando você chegou ao Palmeiras, eu sabia que não tinham te contratado pela sua técnica e nem pelo fato de você ser figurinha carimbada na seleção do Uruguai. De tão “gente boa” que o Verdão era, trazer alguém com sangue nos olhos era um bom começo para voltar a ser temido.

Convenhamos que com esse seu tamanho, armador de classe mundial é que você não seria. Mas se tenho uma coisa em comum contigo é essa raça. Que nada mais é do que uma compensação pela nossa escassez de recursos.

Veja bem, quando você errou um passe atrás do outro contra o Paulista, me vi no seu lugar. Todo sábado faço a mesma coisa, mano. Roubar a bola é uma vitória, mas daí a sair jogando com calma, não, não é nossa praia. É divertido desarmar alguém, aquela coisa de “AQUI NÃO, PÔ!”, como quando a gente dá um bicão pra afastar o perigo. Podia ser muito bem um contragolpe pensado, mas é sempre um chutão.

Sabe, cara, eu sou seu irmão nessa vida de pensar como um Vieira e jogar como um Alceu. Queria ter a técnica do Bonsanti ou os dribles do Lellis, porém, aceito ser isso aí mesmo. Ainda tô em adaptação nesse estilo de não subir ao ataque e só apagar incêndio na defesa.

Sebastián, você já passou dos 30, é experiente, já jogou Copa, já esteve em campo numa Libertadores. Eu ganhei uma, e tal, me desculpe por essa. Só que estava em posição errada. Você em algum momento deve ter pensado em ocupar outra faixa do gramado, mas daí não deu certo e foi recuando, recuando…

Eguren, você também é zagueiro que eu sei. Não precisa esconder. A gente não serve pra fazer gol, pra fazer firula, ser garçom. Somos caras sem graça, acabamos com a festa de quem quer humilhar ou mostrar que a nossa cozinha é a casa da mãe Joana.

Sebá, não tem problema nenhum em ser ruim, contanto que a gente reconheça. O futebol precisa de nós pra fazer o trabalho sujo. Alguém tem de dar cabo nisso. Imagina só a cara do meu pai quando me viu usar a camisa 10 pra jogar na zaga. Logo ele, que era craque e em algum momento pensou que eu havia herdado algumas qualidades. Então, não.

Tua carreira tá acabando, mano, mas ainda há tempo pra que você se torne ídolo aqui. Não abandone esse rótulo de xerifão, de coisa ruim, de brutamontes. Olha só pra alguns dos caras que vieram antes de você: Galeano, Mancuso, Marcinho Guerreiro, entre outros que eram exímios na arte do desarme e do chutão. Talvez não exímios, ok, mas raçudos. Não sabiam contar até 100, mas faziam o arroz com feijão e ainda batiam no peito, mostrando quem é que manda.

Por isso mesmo eu te entendo, Eguren. Porque você reconhece que driblar e fazer cruzamentos perfeitos não é o seu forte. Há diversão em trombar, ganhar pelo alto (não que eu faça isso, só achei legal acrescentar), jogar pra torcida com um carrinho aqui, uma estourada ali.

Na próxima pelada eu vou ser você, bróder. Mas assim, sabendo disso, por favor não invente mais de ser eu qualquer dia desses. Melhor não, né?

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