Os bons anos de Chalana

Não se engane pelo bigodão de tio ou dono de padaria nos Jardins: Fernando Chalana teve seus anos como gênio da bola, quando Portugal passou perto de beliscar um título europeu. Venenoso, o pequeno se notabilizou quando infernizava qualquer um pela ponta do campo.

A história de Fernando Chalana no futebol começou cedo. Aos 17 anos, o baixinho barbudo já atuava pela seleção portuguesa em função de suas peripécias pelo Benfica. Nanico, cabelos esvoaçantes e uma barba de tiozão: de fato, o ponta-esquerda parecia bem mais maduro do que a sua identidade poderia sugerir. Aprendeu tudo o que poderia ao ver de perto a maior geração dos Encarnados enfileirar títulos nacionais.

Quando chegou a sua vez, desempenhou grande papel, brilhou, achou seu lugar ao sol. Não era de marcar muitos gols, fazia o trabalho difícil de dominar a bola entre os adversários, driblá-los e achar um companheiro livre para completar a jogada. A valentia para encarar oponentes de quase o dobro do seu tamanho lhe rendeu apelidos como “Chalanix”, em alusão ao gaulês Asterix, e “O Pequeno Genial”.

f06d4-chalanabenfica

Foto: A bola.pt

Precisava de pouco tempo para resolver o que faria com a pelota. Na esquerda, parecia ter tudo a seu favor, morava naquela ala. Quando acionado, usava cortes velozes, sumia aos olhos do marcador e cruzava uma bola com a canhota. E não dava dribles como se eles fossem embaixadinhas de uma foca: o recurso servia apenas para se livrar de um ou outro defensor mais persistente.

Levantou oito títulos (cinco ligas e três taças portuguesas) com o Benfica no período em que defendeu a camisa encarnada, entre 1976 e 84, reconhecidamente o seu ano de maior destaque pela seleção lusitana. Apesar de já sofrer com problemas de contusão, apresentou um futebol esplêndido durante a Eurocopa de 1984, na França, em que Portugal fez os donos da casa suarem sangue para chegar na final.

Aquele 3 a 2 foi uma das partidas mais memoráveis de todas as edições da Euro. Dois adversários no limite da forma física e em auge técnico. Les Bleus tinham amplo favoritismo e mesmo assim precisaram segurar a barra para não caírem diante da coragem portuguesa. Domergue abriu a contagem com uma pancada no canto de Manuel Bento, de falta. Chalana então apareceu fazendo uma das suas, e da esquerda, levantou uma bola na cabeça de Rui Jordão, que testou para igualar.

Já na prorrogação, Chalana recebeu na direita, entortou duas vezes um adversário e cruzou no segundo pau. Jordão dominou e fez um gol épico encobrindo Bats. Por alguns momentos, a nação lusitana sonhou com a decisão diante da Espanha. Domergue e Platini arrasaram essa esperança e botaram os franceses na final.

f0425-chalanabordeaux

Foto: Web Girondins

Por essa atuação tão decisiva, Fernando foi contratado pelo Bordeaux, um dos grandes times locais naquela época. Os girondinos alinhavam Battiston, Tigana, Giresse, Dieter Müller e Lacombe para tentar manter a hegemonia dentro do país. Em três temporadas no Chaban-Delmas, Chalana conquistou duas vezes a liga e duas a copa, mas não conseguiu se firmar como estrela da companhia em virtude de suas constantes ausências por problemas físicos.

Em 1987, voltou ao Benfica e ficou por mais três anos, completamente diferente da fase anterior. Campeão português em 1989, entrou em rápido declínio e deixou de ser convocado para a seleção ainda em 88. Defendeu o Belenenses e o Estrela Amadora antes de sua aposentadoria em 1992, aos 33 anos.

Ninguém em Portugal contesta que o baixinho foi crucial para o sucesso benfiquista nos anos 70 e 80, quanto menos que ele foi um dos responsáveis por aquele embate inesquecível contra a França em 84. Inevitavelmente se tornou uma história de um homem lutando contra a limitação do próprio corpo. Em tempos de físicos modestos, não de máquinas como Cristiano Ronaldo, Chalana conseguiu seus minutos de reconhecimento, graças aos mesmos dribles, os belos passes e vez ou outra, gols que faziam a sua torcida não sentir tanta falta assim da geração de Eusébio. Coisa que hoje, depois da morte do Pantera Negra, é impossível.

Fernando Chalana Nascimento: 10 de fevereiro de 1959, em Barreiro, Portugal Posição: Ponta-esquerda Clubes: 1976-84, 1987-90 Benfica, 1984-87 Bordeaux, 1990-91 Belenenses, 1991-92 Estrela Amadora Títulos: Liga portuguesa 1976, 77, 81, 83, 84 e 89; Taça de Portugal 1980, 81 e 83; Liga francesa 1985 e 87; Copa da França 1986 e 87 Participações em Copas: nenhuma Eurocopas: 1984

2 pensamentos em “Os bons anos de Chalana”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *