Um Maracanã europeu que transpira tensão

Em Belgrado, o Marakana não ganhou o nome do templo brasileiro à toa. Inaugurado em 1963, 10 anos depois do maior trauma do Brasil em Copas, o estádio sérvio é a casa do Estrela Vermelha, único time dos Bálcãs a conquistar a Liga dos Campeões. As referências não param por aí: adivinha só qual era o apelido da seleção iugoslava nos anos 80?

A Iugoslávia ficou conhecida como “o Brasil do leste europeu”, tamanha identificação com o futebol apresentado pelos dois países. Muitos craques, futebol bonito de se ver, nada da burocracia que era inerente à maioria das seleções da região.

Quase 30 anos depois da inauguração do Marakana, o dono da casa formou a sua geração mais inesquecível e a que sonhou mais alto na Europa. Para se ter uma ideia, na década de 70, o time liderado por Vladimir Petrovic venceu cinco vezes a Liga Iugoslava e seis vezes a Copa da Iugoslávia. O voo de Ícaro aconteceu na final da Copa UEFA de 1979, contra o Borussia M’gladbach, que resultou numa derrota e enterrou os sonhos da torcida dos Delije. O primeiro jogo daquela decisão foi contra os Potros foi exatamente no Marakana, um empate em 1 a 1.

Em dias de dérbi sérvio, Estrela Vermelha e Partizan não só lotavam a capacidade de 55 mil pessoas. Os eternos rivais dobravam o limite e colocavam 100, 110 mil torcedores se acotovelando para um dos espetáculos mais tensos que o futebol europeu conhece. Por esses feitos, o estádio em Belgrado ganhou a alcunha do “irmão mais velho” carioca.

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Retrato tirado em 2012
Foto: Stadium DB

Já na década de 1990, os dirigentes precisaram instalar assentos ao invés de bancadas, de forma que apenas 60.000 pessoas pudessem ser comportadas no recinto. Sentados, os torcedores do Estrela viram a campanha do título europeu em 1991, decidido em Bari, mas que passou por Belgrado quando os Heróis derrotaram o Bayern no agregado.

Vencendo por 2 a 1 na Alemanha e empatando em 2 a 2 no Marakana, o Crvena avançou para a final contra o Olympique Marseille e levou o caneco nos penais, consagrando Sinisa Mihajlovic, Vladimir Jugovic, Dejan Savicevic, Robert Prosinecki, Miodrag Belodedici e Darko Pancev. Do outro lado da disputa, Dragan Stojkovic, o filho da mesma estrela tatuada no peito dos colegas que conquistaram a Copa dos Campeões. Piksi não quis bater um pênalti contra o seu ex-clube.

Vivendo dias melancólicos na Sérvia, o Estrela Vermelha atualmente sobrevive com a sua tradição local. Sem poder concorrer com o Partizan na liga nacional, a equipe parece estar sendo atrapalhada pela sua nostalgia e se esqueceu de garantir o presente. Com ou sem troféus, a torcida segue apoiando até o fim, à sua maneira fanática, enlouquecida, obsessiva. Foram muitos os episódios de brigas colossais nas bancadas do estádio, que traz as cicatrizes de um povo que aprendeu a guerrear pelas suas crenças e costumes.

Esse costume em Belgrado não tem etnia, credo e nem bandeira: se chama futebol, e por ele, ultras estarão dispostos a atear fogo no que for preciso para que em campo o seu amor maior volte a triunfar. Fosse o sangue a medida da glória, o Estrela seria um dos mais vitoriosos do mundo. Ano após ano, os clássicos contam suas histórias. Ora com gols, ora com disputas acirradas. Mas sempre com tensão.

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