O Cristo búlgaro

Hristo Stoichkov

A arte de Stoichkov contagiou toda uma geração na Bulgária. Graças a ele, o país alcançou a sua melhor campanha em Copas, impulsionado pelos seus gols e liderança. Foram 13 anos de serviços pela sua nação e um Mundial inesquecível em 1994.

Quando Hristo tocava na bola, era como se o tempo parasse para vê-lo decidir o que faria com ela. Refém de sua habilidade em tornar o futebol numa partida de xadrez, o esporte se curvou ao atacante que tinha um canhão extremamente preciso na perna esquerda.

Driblava, pintava e bordava, como se mostrasse a todos sua perícia no controle da pelota, a imponência de um chefe de estado, mas só de vez em quando, como aperitivo para um espetáculo à parte que poderia acontecer em qualquer lance. O lado negro da pintura eram os trovões de temperamento: o craque sempre se envolvia em rusgas com adversários ou árbitros, costume que ele cultivou até o fim de sua história como atleta.

Começou sua carreira no Maritsa, mas foi revelado mesmo para o futebol internacional no CSKA Sofia. De 1984 a 1990 defendeu a camisa dos vermelhos e superou a marca dos 80 gols pela equipe da capital búlgara. Já em 1986 era chamado para a seleção nacional.

O primeiro capítulo contra Mikhailov

Um ano antes, em 1985, durante a final da Copa da Bulgária, participou de uma briga pandemônica contra o Levski Sofia do goleiro Borislav Mikhailov (aquele que usava peruca), o qual se tornaria inimigo tempos depois. Uma confusão no túnel após a partida (vencida pelo CSKA por 2 a 1) fez com que vários jogadores fossem banidos do futebol local. Entre eles, Stoichkov. A pena foi reduzida gradativamente e ele pôde ser negociado com clubes estrangeiros.

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Foto: Sport.es

Astro do Dream Team

Ainda ostentando um belo mullet, Stoichkov foi vendido ao Barcelona em 1990, que já trabalhava para montar o seu Dream Team comandado por Johan Cruyff. No Camp Nou, colecionou glórias, gols, prêmios individuais e controvérsias. Levou 11 cartões vermelhos em cinco anos, além da inesquecível suspensão de dois meses por dar uma solada em um árbitro. Até sua primeira saída do Barça, em 1995, Hristo havia conquistado uma Copa dos Campeões e quatro Campeonatos Espanhóis. Isso sem falar na Bola de Ouro em 1994, após uma Copa do Mundo absolutamente fantástica pela Bulgária.

O sonho americano

Os seis gols no Mundial dos Estados Unidos serviram para que Stoichkov levasse a Bola de Ouro da FIFA ao fim da temporada. Não bastasse ser o artilheiro do torneio ao lado de Oleg Salenko, o búlgaro deu fôlego para os companheiros alcançarem uma campanha fantástica de quarto lugar, perdendo para a Suécia na disputa do terceiro. Nunca mais a Bulgária vai produzir uma safra que tenha sido tão valente e talentosa quanto aquela de Ivanov, Balakov, Kostadinov, Letchkov, Penev, e claro, o próprio Hristo.

Velhas glórias de um velho craque

O empréstimo ao Parma iniciou um período de declínio na trajetória do atacante. Talvez tivesse achado que já venceu tudo o que poderia vencer, ou ainda tivesse ultrapassado o momento em que seu auge coincidiu com o ápice do seu clube. Uma temporada na Itália serviu para mostrar que a vida não seria mais tão badalada quanto outrora. Stoichkov voltou ao Barça, conquistou mais uma Liga, uma Taça das Taças UEFA e uma Copa do Rei. Aos 31 anos, pouco atuou no segundo ano do retorno à Catalunha.

O fim da linha

Uma rápida passagem pelo CSKA Sofia permitiu que Hristo acenasse para a torcida com a qual se acostumou a comemorar no passado. Foram poucas partidas, assim como as duas em que Stoichkov defendeu o Al-Nassr antes da Copa de 98, na França.

Ninguém esperava Paraguai e Nigéria

Eliminada na primeira fase, a Bulgária caiu no grupo de Espanha, Paraguai e Nigéria, ficando de fora ao lado da Fúria. A despedida de Copas foi um horroroso 6 a 1 sofrido contra La Roja, que também não serviu para salvar a pele de Morientes e seus companheiros. A partir daí, a caminhada do craque virou uma contagem regressiva. Só se encontrou em ligas menores como a J-League e a MLS, ainda em ascensão.

Em solo nipônico, vestiu a camisa do Kashiwa Reysol por dois anos, como contamos aqui. Na terra do Tio Sam, esteve bem pelo Chicago Fire e D.C. United, onde se aposentou em 2003. E marcou o fim de uma era. Até onde a Bulgária pode se importar, o seu principal ícone saiu de cena em campo para ocupar outros cargos como treinador e agora dirigente.

As polêmicas declarações e a rixa com Mikhailov continuam lá, nunca iriam abandonar o espírito jovem e inquieto de Stoichkov. Logo ele, que diz que não abrirá mão de seu caráter explosivo nem quando chegar na terceira idade…

Hristo Stoichkov
Nascimento: 8 de fevereiro de 1966, em Plovdiv, Bulgária
Posição: Atacante
Clubes: 1982-84 Maritsa, 1984-90, 98 CSKA Sofia, 1990-95, 96-98 Barcelona, 1995-96 Parma, 1998 Al-Nassr, 1998-99 Kashiwa Reysol, 2000-02 Chicago Fire, 2003 D.C. United
Títulos: Campeonato Búlgaro 1987, 89, 90; Copa da Bulgária 1985, 87, 88, 89; La Liga 1991, 92, 93, 94, 98; Copa dos Campeões 1992, Copa do Rei 1997, Taça das Taças UEFA 1997, Taça das Taças da Ásia 1998, US Open Cup 2000
Participação em Copas: 1994, 1998
Eurocopas: 1996

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