O pequeno grande Osvaldo

Juninho pode até ter cara de criança prodígio do cinema, mas ninguém irá tirar a sua reputação de baixinho endiabrado, conquistada nos anos 90 por São Paulo, Atlético de Madrid e Middlesbrough. Campeão do mundo em 2002, o meia foi recompensado pelos anos em que prometeu jogar um futebol ousado, quase moleque.

Formado nas categorias de base do São Paulo, Osvaldo Giroldo Junior poderia ser muito bem mais um destes meninos com nome pedante que sobem ao time titular do Tricolor do Morumbi. Por sorte, se criou nos anos 90, auge e início da derrocada das alcunhas divertidas, parte essencial do espetáculo que é o futebol.

Entre tantos apelidos possíveis, Osvaldo virou Juninho. Que logo é tido como o queridinho da família, o xodó da vovó, aquele que ganha os presentes mais legais de natal na roda de amigos. A aparência de pentelho não era só uma faceta do lépido meia nascido na capital paulistana. Era difícil se sobressair diante de um elenco tão vencedor quanto aquele São Paulo, mas o menino conseguiu.

Dois anos depois, foi vendido ao Middlesbrough, onde conquistou a torcida inglesa com o seu carisma de Macaulay Culkin em “Esqueceram de Mim”. Contra irmãos maiores e opressores, bandidos imundos, recepcionistas de hotel linha dura, Juninho estourou e virou febre no Riverside Stadium. Se os seus pais tivessem mesmo lhe esquecido em casa, o jovem teria se divertido horrores na ausência deles. Até ficou conhecido como “The little fella” pelos torcedores do Boro, numa forma carinhosa de reconhecer tudo que ele fez pelo clube, que hoje o considera o maior jogador de sua história.

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A vida levou o camaradinha para o Atlético de Madrid, que poderia alavancar de vez o seu sucesso como jogador. Ao invés disso, o infortúnio das lesões perseguiu o jovem meia, então com 24 anos. A mais marcante delas, em 1998, num carrinho impiedoso de Michel Salgado, lateral do Celta que viria a se notabilizar no esporte como carrasco de vários adversários.

O lance tirou o brasileiro da Copa do Mundo da França, na qual ele era presença quase certa. Seis meses no estaleiro curaram a contusão na fíbula, mas não apagaram o trauma nos anos seguintes. Sem se firmar no Atleti, foi emprestado nos anos seguintes para o mesmo Middlesbrough, e depois para Vasco da Gama e Flamengo.

O reino dos baixinhos

Em São Januário, foi campeão brasileiro no ano de 2000, parte de um elenco fantástico. Hélton, Mauro Galvão, Odvan, Jorginho, Clébson, Juninho Pernambucano, Ramón, Pedrinho, Donizete, Viola e Romário: o céu era o limite para a equipe da Colina. Além do título nacional, ergueram a Copa Mercosul num jogo insano contra o Palmeiras no Parque Antárctica. Depois de sair perdendo por 3 a 0 no primeiro tempo, o Vasco conseguiu a virada com dois gols no fim (Juninho fez o terceiro, Romário todos os outros) e calou a torcida palmeirense que já ensaiava a festa do caneco.

Foto: Memórias redondas

Cedido ao Flamengo em 2002, se preparou bem para o período onde teria o gostinho de saber como é fazer parte de uma seleção campeã mundial. Opção comum no segundo tempo por parte de Felipão, Juninho até chegou a pisar em campo na final contra a Alemanha, por cinco minutos.

De volta ao Boro, não conseguiu repetir os bons tempos, já aos 30 anos e atormentado com lesões que prejudicavam o seu desempenho. Dois anos no Riverside terminaram de forma melancólica e o meia acertou com o Celtic em 2004/05. Não se adaptou muito bem e perdeu espaço no time de Martin O’Neill. Foi aí que aceitou o convite do Palmeiras, seu time de infância, para a sua volta ao Brasil depois de três anos.

Duas temporadas no Palestra Itália, futebol satisfatório. Mas o Verdão vivia uma fase mediana, inclusive com duas quedas seguidas na Libertadores para o mesmo São Paulo que revelara o seu camisa 10, 13 anos antes. Sem a sua renovação de contrato no alviverde, Juninho retornou ao Flamengo. Entrou em rota de colisão com Ney Franco após a conquista do Estadual e saiu junto com o treinador no meio do ano.

Foto: Terra

Os dribles rápidos não estavam mais lá. O sorriso fácil e a inocência de menino também não. No lugar das qualidades que o fizeram brilhar no cenário europeu, ficaram as lesões e a iminência da aposentadoria, que aconteceu bem diferente do que o jogador esperava. Ameaçou encerrar a carreira pelo Sydney FC da Austrália, em 2008, mas aceitou um convite e virou dirigente no Ituano, ainda defendendo a camisa do Galo numa campanha que quase terminou em rebaixamento no Paulistão de 2010. Cumprindo a missão de manter o rubro-negro na elite, Juninho se aposentou.

No fim, uma bela história de determinação. Juninho virou gente grande, no alto de seus 1,65. Não se espante pela voz de criança ou pela cara de adolescente: a bola que ele jogou na maior parte de sua trajetória foi de quem manjava do riscado.

Osvaldo Giroldo Junior
Nascimento: 22 de fevereiro de 1973, São Paulo
Posição: Meia
Clubes: São Paulo (1993-1995), Middlesbrough (1995-97, 1999-00, 2002-04), Atlético de Madrid (1997-2002), Vasco (2000) Flamengo (2001), Celtic (2004-05), Palmeiras (2005-06), Sydney FC (2007).
Títulos: Copa Libertadores 1993, Mundial Interclubes 1993, Recopa Sul-americana 1994, Copa Conmebol 1994, Copa das Confederações 1997, Campeonato Brasileiro 2000, Copa Mercosul 2000, Copa do Mundo 2002, Copa da Liga inglesa 2004, Campeonato Carioca 2007
Participação em Copas: 2002

Felipe Portes ainda é estudante de jornalismo, tem 23 anos e é o dono e criador da Total Football.

“O futebol na minha vida é questão de fantasia, de imaginário. Fosse uma ciência exata, seria apenas praticado por robôs. Nunca fui bom em cálculos e fórmulas, o lado humano me fascina muito mais do que o favoritismo e as vitórias consideradas certas. Surpresas são mais saborosas do que hegemonias.”

No twitter, @portesovic.

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