Se não acharem ninguém melhor para a função, contem comigo

Por Acácio Barros

Com palavras parecidas com essas, me dispus a exercer a espinhosa tarefa de apitar a Copa Trifon Ivanov. O fato de conhecer pessoalmente poucos participantes trazia um desejável ar de isenção à minha figura (o que acabou me gerando durante o torneio o apelido de “árbitro anônimo”). Depois de um rigoroso processo de seleção, a TRIFA – por meio do presidente de sua Comissão de Arbitragem, Coronel Marinho – oficializou que Winckler Rezende de Freitas, Cesarotti Amarilla, Giuli Castrilli e Talita Paula de Oliveira, seriam meus companheiros de tarefa no Trifonzão.

Alguns debates, orientações, congressos técnicos e tentativas de suborno depois, estávamos lá, prontos para realizar o melhor trabalho possível na Arena Trifon. O objetivo era fazer com que nossa mães, coitadas, não precisassem ser tão lembradas. Winckler apita o início do certame e só me lembro de ter parado de correr depois do derradeiro apito do dia. Apita, vai pra mesa, corre pra apitar o outro jogo, checa se tá tudo bem na outra quadra, ajuda a atleta lesionada, volta pra quadra, segue o jogo, vai pra mesa, procura o próximo time, busca uma água, interage com a CORNETÃO CHOPP, volta a apitar. A tabela cheia (alô, Bom Senso!) nos obrigou a uma pequena maratona. Prazerosa, mas cansativa.

Nesse cenário, os erros, claro, ocorreram em abundância. Porque mesmo os nossos acertos sempre estariam errados na visão de alguém. A história que fica, como sabemos, é sempre uma versão. E sem um registro tecnológico dos lances polêmicos, debateremos eternamente na internet e nas mesas de bares da vida se aquela bola entrou, se foi mesmo falta, se foi mão na bola ou bola na mão…

O importante, nesse caso, é que todos tenham a consciência que o erros de arbitragem ocorrem por todo o tipo de fator: miopia, desconcentração, falta de ângulo pra enxergar o lance ou até, quem sabe, lapsos de falta de noção da realidade. Mas posso afirmar que nem eu nem meus colegas erramos por mau-caratismo. Ali, na quadra, sabemos melhor do que ninguém o quanto vocês, atletas, levam a sério o jogo e o quanto querem sair dali vencedores. Interferir nisso deliberadamente, por qualquer motivo, seria uma filhadaputice sem tamanho.

Eu, ainda por cima, tive a ~sorte~ de ter sido designado na escala (aleatória) de arbitragem para apitar o jogo mais CATIMBADO da rica história da Copa Trifon Ivanov, já brilhantemente relatado pelos capitães dos times participantes aqui e aqui. É claro que ao pegar o apito e os cartões para sair de casa, você não espera que um jogador vá arrancar a camisa e deixar um jogo no meio, emputecido e desgraçado da cabeça com sua arbitragem. Você muito menos espera que este mesmo jogador volte 20 segundos depois como se nada tivesse acontecido. Mas as circunstâncias de catimba, gritos, faltas e NERVOUSOR do momento fizeram com que tudo isso viesse a acontecer.

É chato na hora, muitos atletas ali desejaram me esquartejar em campo (com alguma razão), mas a sequência de acontecimentos acabou produzindo um dos momentos mais engraçados para quem tava assistindo e, certamente, uma história que será lembrada por muitas copas. Se levarmos em conta os fins de galhofa da competição, até que foi positivo. E vale ressaltar aqui: preferi não dar ao apito o destino sugerido pelo revoltado atleta.

Naquele sábado, em que éramos cerca de 200 pessoas absurdamente felizes – cada uma com seu próprio sol a lhe torrar a cabeça – consegui ver em meus colegas de arbitragem um imenso prazer em participar daquilo. É muito legal quando, antes de cada partida, chamamos os capitães para definir quem sai com a bola. Naquele momento, a expectativa de cada jogador em quadra fica muito perceptível. E é muito gratificante ver que estamos contribuindo com uma pequena ajuda para tornar possível este momento tão esperado.

Ao ver aquela foto final, onde todos nós estamos na quadra – em pé, deitados, pendurados, ajoelhados, exaustos, extasiados e sorridentes – tenho a certeza de que valeu a pena cada bolha no pé. Valeu tomar aquele sol desértico na caixola durante todo o dia. Valeu cada cornetada e xingamento que recebi. E vejo, nos sorrisos de vocês, que cada um sabe que valeu a pena se matar de correr, valeu se jogar naquela bola perdida, valeu perder a unha ou operar a churrasqueira numa temperatura ambiente de 55 Cº. Valeu dar aquele gás a mais, valeu furar o chute, valeu tomar um frango. Valeu ir até lá, sorrir, cornetar e ser cornetado.

Porque ali naquele sábado, fomos juízes, atletas, cornetadores e amigos. Fomos todos Trifon.

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