Todos nós comemoramos a mesma coisa

Por Bruno Bonsanti

Naquele calor, ensurdecedor, como diz o outro, respirar era um desafio. Pensar direito era impossível. Quando um dos melhores jogadores a edição passada da Copa Trifon Ivanov dominou a bola na entrada da área e armou o chute, despendi dois milésimos de segundos para tomar uma decisão, que considerou um único fator: não pode ser gol.

Eu não fui muito sábio ao me jogar de carrinho na frente de um chute. Para falar a verdade, nunca fui muito sábio, então não começaria a ser naquele momento. O gramado estava tão quente que queimou até pés protegidos por chuteiras, imagine a pele que reveste a parte externa da minha tíbia. A dor da ferida que foi aberta veio alguns segundos depois da consciência de que aquela tentativa de bloqueio havia sido inútil. Eu sequer toquei na bola, e o pequeno-gigante goleiro do Raja Casaverde fez a defesa. Não seria gol de jeito nenhum.

A perna ainda dói, mas eu não me incomodo. Naquele momento, o que importava era ganhar o jogo. Porque a partir da primeira rolada da bola, nenhum dos 14 amigos que correm atrás dela quer perder. E muito menos decepcionar aqueles companheiros de equipe que você mal conhece, mas já considera pacas.

E o espírito da Copa Trifon Ivanov é esse. Nem Gandhi conseguiria ser amigo do peito de 200 pessoas, mas, durante aquelas dez horas, todos dividem um sentimento que os aproxima. Trocam cornetadas, goles de cerveja, garrafas de água, piadas, apoio, carinho, torcida e gentileza. Perguntaram tantas vezes se a minha perna estava doendo que em certo momento eu pensei que estava em um churrasco de família. E, de certa forma, estava.

Aquela partida de quartas de final foi uma das mais difíceis que o Raja Casaverde enfrentou. Foi o primeiro gol sofrido pela defesa que tinha o Domingos da Guia dos Pampas, um Deus nórdico de Taubaté e o único goleiro do torneio que não pode ingerir bebida alcoólica. O chute que Gersinho acertou no ângulo foi um dos mais bonitos de toda a Copa Trifon Ivanov. Ainda assim, conseguimos avançar. Na semifinal, o adversário era o Aston Villa Mariana. Há alguns meses, eu e Miúdo estávamos lado a lado na mesma fase. Desta vez, éramos adversários.

Depois desse jogo, que ganhamos apesar do gol que eu perdi e com o qual ainda sonho, ficou a sensação de que tudo era possível. A força do Raja Casaverde, teórica quando descobri quem seriam os meus companheiros, se comprovou em campo. Sabia que teria a segurança do Guilherme Canosa no gol, o atual campeão, a velocidade e a precisão de Marcus Lellis, a compostura e os chutes de fora da área de Felipe Figueiredo e o impressionante tempo de bola de Flávio Bandeira. Tudo isso foi reforçado pela bola redonda que Samuel Aguero e Tor apresentaram, além da qualidade de Dener Gomes, o Ricardinho da Copa Trifon Ivanov, convocado para a Copa às 3h da manhã daquele mesmo sábado.

Se eu e meu pulmão cinza não atrapalhássemos muito, teríamos chances de conquistar o título. A final seria contra o Cobrelapa, favorito desde o sorteio. Um time estupendo, que atropelou todo mundo para chegar à decisão, com o capitão mais carismático da competição, o melhor jogador da edição passada e outra meia duzia de homens que sabem tratar a bola com muito carinho.

Foi muito difícil. O Beckenbauer Farroupilha abriu o placar de falta, mas a rara falha do pequeno-gigante Canosa deixou tudo igual. Agora, tão importante quanto ser campeão, precisávamos que nosso camisa 1 não se sentisse responsável por uma eventual derrota. Éramos pressionados e tentávamos sair no contra-ataque, nossa grande arma desde o primeiro jogo, mas o Cobrelapa sabia atacar com a mesma qualidade com a qual defendia. Foi em uma bola parada, um escanteio, que o Baresi Que Bebe Chimarrão fez o gol da vitória. Do título. Da glória. Conseguimos.

Eu e meus companheiros comemoramos o título. Outros times comemoraram uma vitória nos pênaltis, uma classificação às quartas de final, um gol que marcaram contra um adversário difícil. Jogadores comemoraram um drible que conseguiram acertar, uma bola na trave, um golaço que fizeram em rede nacional. Alguns comemoraram apenas o fato de estarem entre aquelas borrachinhas de society na presença de tanta gente legal. Todas essas comemorações têm a mesma importância, o mesmo peso, o mesmo significado. Porque, no fundo, todos comemoramos a mesma coisa. Comemoramos que estávamos juntos.

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