Renascimento

Por Juliana Damasceno

Nasci numa família de fanáticos que fizeram a vida, construíram suas casas e sua história por causa de um time de futebol. Lindo começo, não é? Mas, certamente, fossem vivos, meu avô e meu pai nada teriam do que se orgulhar: sou um fracasso com a bola nos pés.

O meu negócio sempre foi o vôlei. Que também não virou, porque escolhi o jornalismo pra viver. Meu negócio é teclar para tentar informar. Emocionar, vez em quando.

Mas como eu sabia que estaria entre amigos, que tudo seria uma grande brincadeira, resolvi aceitar de bom grado o posto de capitã do Olympique de Marsilac. Uma homenagem ao longínquo e último bairro da cidade de São Paulo, onde carros e pedestres dão lugar a cavalos e índios, em perfeita harmonia.

Longe também estávamos de qualquer pretensão no campeonato, além de comer o melhor churrasco gaúcho. Nosso time nunca se reuniu uma só vez pra jogar junto. Até tentamos. Mas um mistério pairava entre nós (e chegou ligeiramente atrasado, para aumentar nosso pânico). O fantasma tinha nome: Ana Lígia.

Ana Lígia que, ao contrário das demais garotas que já se conheciam ou já tinham se encontrado em algum bar ou quadra por aí, ninguém sabia de onde vinha, quem era, quais os motivos de sua inscrição. Mas a gente nem precisou de muito tempo pra saber: veio devagar, tranquila, mochila nas costas, atravessando o Playball lotado como se não houvesse ninguém em volta. Apresentou-se, disse que “era mediana, mas dava pro gasto” e só pediu para ficar na frente.

Naquela mesa de lanchonete, firmamos um trato: o Bozo é quem tinha razão. “Sempre rir” poderia ser o melhor remédio naquele sábado de calor desumano. Mas foi no meio do primeiro jogo que eu percebi que aquilo tudo teria outras cores. Outros tons. Celeste e branco.

Ana Lígia mostrou a que veio com uma maestria que conquistou o respeito de homens e mulheres ali presentes, sem nenhuma objeção. Boquiabertos, viam aquela menina sair passeando com a bola grudada nos pés, uma certa truculência talvez, mas uma destreza como poucas vezes eu vi na vida. Como poucas vezes tive a oportunidade de aplaudir. E o fiz.

Foi também nesta primeira partida, com a minha amiga Leonor do outro lado, que, de coração rasgado ao meio, precisei abandonar a quadra pelo resto da tarde. Por conta de um tratamento de saúde, não teria resistência para suportar aquele sol escaldante misturado com esforço físico. Ana, outra heroína com três filhos debaixo do braço, me substituiu com muito, mas muito mais eficiência até do que eu seria capaz.

Aliás, de heroínas, aquele certame estava repleto. Mas destaco em especial as nossas, as campeãs que, lindamente, conquistaram com uma raça impressionante, sem pressa, o primeiro título histórico de mulheres da Copa Trifon Ivanov. Nós, que no máximo esperávamos tomar uma cerveja ao lado dos grandes amigos.

Laura, a linda musa da resistência. Magliocca, cujo charme derrubaria qualquer arbitragem rígida. Milena, que veio de longe, só pra matar de inveja a craque das craques. Marie, que de tanta doçura, me dava até pena de botar em campo. Tersi, que diz que só grita, mas intimida. Granjeia, que de bailarina só engana todo mundo, com aquela baita força interna. E Calu, minha parceira de mais de 20 anos, que topou na hora o desafio e usou as chuteiras de seu pai. O meu Roberto Carlos.

Foi um time movido pela emoção, única e exclusivamente. De estar ali. De ter a sorte e a alegria diária de estar vivo e forte. Um time que jogou com a minha chuteira, e a quem sou muito grata. Que jogou com o meu coração. Coração que bem poderia estar partido naquele 8 de fevereiro, mas que só mudou a minha vida. Pra melhor.

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