O aguerrido Troféu Kátia Cilene

Poderia muito bem ser um tiro no escuro organizar um torneio feminino juntamente ao Trifonzão. Já na primeira edição da Copa, várias meninas quiseram se inscrever para jogar ao nosso lado. Tecnicamente falando, elas conseguiriam sim fazer isso, mas não seria justo colocá-las para dividir bola com um bando de marmanjos.

Partimos do princípio que elas jogariam o mesmo tempo que nós. O Miúdo estava acompanhando os treinamentos de alguns times e ressaltou essa competitividade. Teríamos um torneio disputado por quatro equipes e certamente, muitas garotas com vontade de ganhar um campeonato. Da mesma forma que os caras precisavam de uma mobilização para formar uma competição, elas também careciam de um empurrãozinho.

Fizeram concentração, esquema tático, se dividiram em posição, viveram a ansiedade que nós vivemos antes de pisar no solo desconhecido que foi a primeira Trifon. Partir de um bom início seria fundamental para que elas entendessem o que seria jogar uma edição por semestre.

Viveram intensamente o sábado. Do momento da chegada até o apito final da vitória do Marsilac, vi as meninas empolgadíssimas com a importância do Troféu Kátia Cilene. Corriam de um lado para o outro do Playball fazendo torcida, observando as rivais, tomando cerveja, cornetando quem estava em campo.

Até que o dia acabasse, certamente elas não tinham noção do que estavam vivendo. O ineditismo de entrar num evento desses e estar no centro das atenções durante a decisão é algo difícil de explicar. Uma sensação de alegria, misturada com uma tensão estranha de a cada jogo ter um peso maior nas costas.

Deportivo Laparuña, Parithinaikos, Olympique Marsilac e Chivas Jabalaquara: os quatro contaram com atletas dedicadas ao que se propuseram: a jogar com raça, no máximo da sua capacidade. Foi uma vibração tão contagiante, que a decisão entre Cobrelapa x Raja Casa Verde até foi mais animada do que propriamente nervosa, como o Rad x Bayern Mairinque de outubro passado.

O espetáculo se completou com uma lavada do Marsilac em cima das meninas do Chivas: 5 a 0, show de Ana Lígia, que só faltou fazer chover. Caíram alguns pingos tímidos do céu depois que a decisão feminina teve seu desfecho. E quem acreditava que disputas de terceiro lugar eram sempre monótonas e sem sentido, o Laparuña celebrou como um título a sua vitória nos pênaltis. Foi festa pra inglês ver.

Só podemos esperar que essa alegria esteja presente na próxima Copa, seja ela em setembro, outubro, novembro ou o que quer que decidamos no futuro. Antes era impensável imaginar uma Trifon feminina, hoje já é doloroso projetá-la sem a graça que tomou conta das quadras no sábado.

Queria terminar esse texto sem falar nenhum ponto negativo, sem nenhum defeitinho, mas infelizmente não foi possível. Acontece que apesar do muito que pedimos pelo respeito entre os presentes, tivemos episódios desagradáveis em relação a algumas jogadoras. Só pra começar a conversa: a única diferença entre os dois torneios era a quantidade de equipes e o número de atletas em cada um. No Kátia Cilene, nove meninas foram escaladas e sete entravam em quadra. Elas estavam lá para a mesma finalidade que os homens: praticar o bom futebol, ainda que com caneladas, chutes errados e domínios sem qualidade. Nem nesse quesito o Trifon contrastou com o Kátia Cilene, já que nos dois vimos isso durante as partidas.

Saindo desse âmbito, ninguém na torcida tinha o direito de tratar as meninas como se elas estivessem desfilando. Tanto é que elas jogavam tanto tempo quanto nós. É bizarro pensar que numa sociedade que se diz civilizada, com convidados que parecem tão instruídos, tentativas de assédio moral ganhem espaço.

Não dá pra acreditar que gente queira sair do conforto do seu lar, entrar num recinto que sedia um campeonato, e ultrapasse os limites da boa convivência lançando comentários repreensíveis em direção de mulheres que pasmem: sabem e gostam de jogar futebol.

De onde vim, no lar em que fui criado, não se trata uma moça como se ela fosse um pedaço de carne, como se estivesse ali para agradar ao público. Amigos, entendam de uma vez por todas: a Trifon Ivanov não é um clube, uma vitrine e muito menos a banheira do Gugu, onde o objetivo é se estapear sem roupa por um sabonete que muitas vezes era só metáfora.

Acredito que vocês que estão lendo também tenham mínimas noções de convivência e a sabedoria de que não é engraçado fazer comentários com conotação sexual num contexto como aquele. Assim como não se pede a uma mulher que tire a roupa no meio da rua, não se faz isso numa quadra. E se você acha que é normal ou “parte do jogo” agir como um homem das cavernas assediando qualquer mulher que seja, solteira ou comprometida, aproveite pra parar de ler aqui, porque estamos muito bem sem a sua presença.

Não queremos o seu machismo inescrupuloso, as suas frases trogloditas e nem o seu desrespeito. Se você não sabe conviver ao lado de mulheres e tratá-las de forma igual, como deve ser, nem venha nos perguntar quando será a próxima Copa. Guarde seus modos de homem das cavernas pra qualquer lugar de quinta categoria, não o torneio que a gente se esforça tanto pra fazer dar certo. Estamos entendidos?

Antes que eu me esqueça: parabéns a todas as meninas que deram um show de coragem e garra. Esperamos vocês para mais um sábado espetacular e sem precedentes. Nós da organização garantimos que a segunda será ainda mais inesquecível do que a estreia.

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