Vencer sem fazer gols

Por Leonor Macedo

– Me passa um guardanapo aí que eu vou montar um esquema tático para o time! – pediu Liana, a lateral direita do Laparuña, minutos antes do nosso primeiro jogo.

A preleção estava rolando naquelas mesas engorduradas do bar do Playball e o guardanapo já estava previamente sujo com óleo de fritar coxinha. Naquela mesa, nos apresentamos para as meninas que não conhecíamos, revemos amigas de longa data e estreitamos laços com quem era só de “oi, blz? Tchau!”. Foi ali que montamos o Laparuña de verdade.

Decidimos, então, que eu seria zagueira e Vanessa Ruiz, que entrou no lugar da machucada Carol Moreno, seria a minha reserva. A hábil e ligeira Marina, apelidada de formiguinha, ficaria na lateral esquerda, um pouco mais avançada. Liana, como já dito anteriormente, na lateral direita, ajudando mais ali atrás. Giovanna e Carol Canossa ficariam no meio campo e Ana Pads e Jaq Arashida seriam nossas atacantes. A Rachel Juraski já tinha sido escalada como a nossa goleira, amém!

Na mesa imunda, imaginamos jogadas, estudamos as adversárias e bebemos cerveja. Até que já era hora de jogar e Arashida sintetizou o que combinamos:

– Resumindo: foda-se!

E assim foi feito. Nos fodemos! No primeiro jogo fomos atropeladas pelo Olympique da Ju Damasceno e da Ana Lígia, apelidada de “máquinas agrícolas” pela Juraski. Logo no começo, ela foi defender uma bola e tomou uma no olho. A lente de contato da nossa goleira pulou e poderia ter sido o fim de tudo, mas ela achou a danada da gelatina perdida naquele chão pelando do Playball, deu uma cusparada na lente e, voilá, passou a enxergar muito melhor.

No segundo jogo, perdemos de novo para o Parithinaikos da Nayara por um a zero, em uma partida que demos um pouco mais de trabalho para o adversário. No terceiro jogo, adivinhem? Perdemos de novo para o Chivas, da Mayra. No fim da fase de grupo, estávamos com 100% de aproveitamento negativo no campeonato, com o incrível saldo de 0 (zero) gols!

E continuávamos felizes! Seguíamos rindo e bebendo e esperando a próxima atropelada!

Para disputar o terceiro e quarto lugar contra o Parithinaikos, o Laparuña ficou desfalcado: a Arashida, uma das mais habilidosas do time, havia se machucado no jogo anterior e teve que ir embora. Nos revezaríamos entre as 8 para jogar naquele sol de rachar mamona.

E seguimos sem fazer nenhum gol no tempo regulamentar, com a diferença de que, dessa vez, a nossa goleira, brilhando muitíssimo, não deixou nenhum gol adversário entrar. Coroaríamos nossa participação na Trifon com uma disputa de pênaltis.

A primeira a cobrar foi Ana Pads, que não veio direto do Rio de Janeiro para fazer feio. Tomou a responsabilidade para si e fez um gol para o Laparuña. O filho único de mãe solteira que morreu no parto. Depois, Juraski foi para o nosso gol, com aquela calça cintilante e um tênis hipster dourado. Com a lente cuspida nos olhos. A batedora do Parithinaikos correu, chutou e… PRA FORA!

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O resto entrou para a história como o terceiro lugar mais comemorado desde que Charles Miller trouxe o futebol para o Brasil. Alguns podem discordar, mas poucos times da Copa simbolizaram tanto o que é a Trifon Ivanov quanto o Deportivo Laparuña. Uma mistura de falta de técnica com sorte que resulta em um terceiro lugar com zero gols no tempo regulamentar. Isso é futebol. É estar entre amigos, novos ou antigos, se divertir e dar risada, em primeiro ou em último lugar. Não era uma guerra. Era, sim, o sábado mais divertido de 2014.

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