O homem grisalho

Por Rafael Monteiro

Seu estilo de jogo pedia poucos toques na bola. Os raros dribles que dava dentro da área serviam exclusivamente para preparar o chute com a perna esquerda, quase sempre firme e bem colocado. Em cruzamentos pelo alto, concluía com a mesma simplicidade – com boa colocação e quase 1,90 de altura, não precisava pular para balançar as redes. Só que Fabrizio Ravanelli não era exatamente discreto. Seu sorriso sacana no canto do rosto e seus notáveis cabelos brancos na juventude o fizeram um dos jogadores mais marcantes dos anos 90.

Desde criança (quando já nasciam os primeiros fios brancos em sua cabeça), Ravanelli sonhava jogar pela Juventus. Seu objetivo como profissional era ser ídolo do clube, o que de fato aconteceu. Mas antes de fazer dupla de ataque com a jovem promessa Del Piero, o atacante foi desgastando o tom castanho do seu cabelo em cabeçadas pelo Perugia, os nanicos Avellino e Casertana e também pelo Reggiana. Quando desembarcou no antigo Delle Alpi, Ravanelli já era um senhor grisalho com 24 anos e mais de 60 gols na carreira.

A Pena Branca

As duas boas temporadas que fez pelo Reggiana na segunda divisão do Calcio em 1990/1991 e 1991/1992 credenciaram a contratação da promessa pela Juventus. Ao todo, foram 24 gols em dois anos.

Giovanni Trapattoni, então técnico da Velha Senhora, enxergou no atacante uma aposta para o futuro. Em 1992, quando o clube italiano contava com Vialli, Roberto Baggio, Andreas Moller e Casiraghi para o ataque, era de se esperar que o reforço da segunda divisão tivesse menos oportunidades que os demais concorrentes, todos renomados.

Ravanelli só teria espaço em sua terceira temporada pelo clube, 1994-95, com Marcello Lippi no comando do time. Armando o time ofensivamente, com três atacantes, o jovem grisalho virou o centroavante ideal de um trio que contava com Vialli numa ponta e um promissor Del Piero em outra.

À medida que os gols foram saindo e a intimidade com a torcida crescia, Fabrizio Ravanelli passava a ser chamado de la Penna Bianca.

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Foto: My Juventus

O mascarado

Em sua primeira temporada como titular, Ravanelli marcou 15 gols no Calcio, que ajudaram a Juve a conquistar o seu 22º scudetto. Além do título do nacional, o clube ainda venceu a Coppa Italia e Supercoppa, ambos em cima do Parma.

Eram bons tempos para La Penna bianca, aqueles. Os gols lhe renderam convocações para a Squadra Azzurra. O atacante passaria a ser chamado frequentemente até a Euro de 1996, realizada na Inglaterra, onde viu do banco a sua seleção ser eliminada ainda na fase de grupos.

Mas Ravanelli estava feliz demais para ficar abatido com o fracasso do seu país no torneio continental. A temporada de 1995/1996 foi, de longe, a melhor da sua carreira. Nessa época, La Penna Bianca vibrava seus gols de um jeito único: levantava a camisa e cobria todo o seu rosto, correndo sem direção. Tal comemoração ganhou nome na Itália: “o mascarado”.

O gol

Entre todos os jogadores profissionais do mundo, poucos jogadores têm o prazer de vencer uma Liga dos Campeões da Europa/Champions League. Mais raros ainda são aqueles que marcam a sua história com um gol numa final do torneio de clubes mais importante do mundo (ok, esqueça Juliano Belletti. Ravanelli realmente merecia o feito)

Aos 12 minutos do primeiro tempo, no estádio da rival Roma, contra o Ajax dos irmãos De Boer e Litmanen, ele aproveitou o erro de Blind e se antecipou ao goleiro Van der Sar. Sem ângulo, mas também sem goleiro, o atacante conseguiu converter o gol de um título que só viria nas cobranças de pênaltis.

Mesmo tendo feito um dos gols mais importantes da história do clube, Ravanelli acabou vendido para o Middlesbrough no ano seguinte – o que talvez tenha sido a maior decepção da sua carreira. O jogador também acabou de fora da Copa de 1998 por problemas respiratórios, mas a Azurra nunca havia sido tão sua quanto a Velha Senhora.

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Foto: SIS-Insights

The Silver Fox

Mesmo em um ano que terminou com o rebaixamento do Boro, Ravanelli fez uma grande termporada pelo time inglês, o que gerou o novo apelido de “silver fox”. Aos 30 anos, marcou 17 gols e levou o clube às finais da FA Cup e da Carling Cup. O Middlesbrough perdeu as duas, é verdade, porém o italiano ganhou o status de ídolo como consolação.

De 1998 a 2000, La Penna Bianca fez sucesso pelo Olympique de Marseille, em sua última boa fase como profissional. Mesmo sem títulos, compôs uma ótima dupla com o irlandês Tony Cascarino e marcou 21 gols em 45 gols.

De volta à Itália, Ravanelli passou pelo banco da Lazio. Depois, em 2001, viajou novamente para a Inglaterra e defendeu o Derby Country, mudando-se logo em seguida para o Coventry City e depois para o Dundee, da Escócia. Encerrou a carreira no clube que o revelou, o Perugia, em 2005, finalizando os seus últimos cinco decadentes anos como jogador profissional.

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Brincando de arminha nos tempos de Juventus.
Foto: tumblr

Suplemento da vovó

Depois de terminar a carreira, virou comentarista de uma TV italiana. Abandonou assim que recebeu o convite para treinar os garotos da base da Juventus. O senhor de cabelos grisalhos recebeu uma boa proposta para comandar o Ajaccio, da França, com a esperança de um dia voltar para os braços da sua Velha Senhora como treinador.

O que ninguém esperava era que o ex-atacante fosse ser demitido com tão pouco tempo, pouco mais de três meses depois de assinar o contrato. Pior ainda foi a justificativa alegada pelo presidente do clube francês. Se não bastasse a péssima campanha do Ajaccio (atual último colocado do Francesão), Ravanelli é acusado de tentar dopar todos os jogadores do time titular com suplementos.

O ex-jogador, que havia sido processada por porte de drogas ilícitas em 2007, na Itália, se defendeu:

– São só suplementos. Podem ser tomados até por uma vó.

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