Caniggia, o par perfeito de Maradona

Por Rafael Monteiro 

Caniggia foi o grande parceiro da carreira de Maradona. Depois de vencer uma Copa do Mundo praticamente sozinho, o gênio argentino viu na velocidade do loiro cabeludo o complemento certo para os seus passes e dribles. A amizade ultrapassou os limites do campo e foi eternizada com o beijo mais famoso da história do futebol.

“Por vezes acredito que Diego (Maradona) está apaixonado pelo meu marido. Deve ser por causa do cabelo comprido e dos seus músculos.”

A frase acima foi dita pela modelo e então esposa de Claudio Caniggia, Mariana Nannis, em 1997. O desabafo enciumado veio logo após uma das mais brilhantes atuações da carreira do marido. Na Bombonera, Cano fez três gols na goleada de 4 a 1 do Boca Juniors sobre o seu time de origem, o River Plate, em um dos jogos mais icônicos da história do Superclásico. Tanto pela partida em si como pela imagem que a eternizou.

Quando o resultado ainda estava indefinido, Maradona desperdiçou um pênalti, logo convertido em gol na sequência pelo seu amigo loiro, inspirado naquela noite. Não se sabe se por gratidão, por emoção, amizade ou qualquer outro tipo de sentimento, El Pibe, ajoelhado, puxou a cabeleira do companheiro para baixo e lhe tascou um beijo na boca. Para desmentir os boatos que os dois tinham um caso amoroso, os dois batizaram a imagem como “el beso del alma” (o beijo da alma) – o que não impediu que Caniggia tivesse problemas em casa.

Os nomes do pássaro

Claudio Caniggia deve muito a Diego Armando Maradona. E não só pelo passe do gol em cima do Brasil nas oitavas-de-final da Copa de 1990. Se não fossem as exigências do amigo gênio, “El Pajaro”, como era conhecido nos anos 80, não teria sido convocado para o Mundial da Itália.

Claudio Paul Caniggia estreou pelos profissionais do River Plate em 1985. Um ano depois, fez parte da delegação de uma das temporadas mais vitoriosas da história do clube, que trouxe aos millionarios os títulos do Campeonato Argentino, da Libertadores e do Torneio Intercontinental.

O jovem só teve mais oportunidades aos 20 anos, em 1987. Entrando sempre no segundo tempo, Caniggia impressionava pela velocidade e dribles pelo lado direito. Logo recebeu três apelidos da torcida: além de Cano, passou a atender por El Pájaro, Rayo de Luz (por causa do cabelo loiro) e Hijo del Viento (sim, muito antes do nosso Euler), que foi mais usado enquanto esteve na Europa.

Mesmo na reserva, as boas atuações do garoto lhe renderam uma convocação para a Copa América daquele ano, realizada em solo argentino. O país sede só chegaria até as semifinais, mas o atacante aproveitou bem a oportunidade. Marcou dois gols, virou titular da equipe no meio do torneio e ainda se tornou amigo do melhor jogador do mundo, ele mesmo, Maradona.

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Foto: The Gentleman Ultra

Pedido do chefe

Cano não ficou muito tempo no River Plate. Meses após de finalmente conseguir a titularidade, o ponta-direita transferiu-se para o Hellas Verona, da Itália, onde pouco fez. Com apenas três gols em 21 partidas, o argentino foi repassado na temporada seguinte para o Atalanta.

Melhor adaptado ao futebol europeu, “Hijo del Viento” finalmente rendeu o que se esperava dele: Com 10 gols, foi o artilheiro do time no Campeonato Italiano. O Atalanta terminou a competição numa honrosa sétima colocação. A Napoli, do amigo Maradona, levou o troféu daquele ano.

O problema é que, faltando um ano para a Copa da Itália, os concorrentes por uma vaga no ataque argentino faziam campanhas ainda melhores na Europa. No mesmo Campeonato Italiano, Balbo, da Udinese, marcou 11 gols. Dezotti, da rebaixada Cremonese, fez 13. Mesmo tendo feito menos gols, Caniggia acabou favorecido pela amizade com o “dono da seleção”. Maradona bateu o pé e El Pajaro teve o seu nome de batismo lembrado pelo técnico Carlos Narigón Bilardo para a disputa do Mundial.

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Foto: SBEN

O auge

A Copa de 1990 foi o ápice da carreira de Caniggia. Entrou bem no segundo tempo na derrota contra Camarões e ganhou a vaga de titular. Jogando isolado na frente, melhorou o time de Bilardo e liderou o ataque na vitória contra a União Soviética por 2 a 1. No último jogo da fase de grupos, com Maradona muito marcado, os argentinos voltaram a jogar mal e só empataram com a Romênia. Como um dos melhores terceiros colocados, a Argentina teve que enfrentar o Brasil do técnico Sebastão Lazaroni nas oitavas de final.

El Pajaro marcaria o gol mais importante da sua carreira, mas não sem a ajuda de Dieguito. Depois de driblar dois jogadores, Maradona chamou a atenção de Alemão, Dunga, Ricardo Rocha e Mauro Galvão e tocou para Caniggia. Livre, o atacante driblou Taffarel e marcou o tento solitário da partida, aos 35 minutos do segundo tempo.

Na fase seguinte, a Argentina atuou mal novamente e só passou da Iugoslávia graças às defesas de Goycochea na cobrança de pênaltis. Na semifinal, os sul-americanos saíram perdendo para a forte Itália de Bergomi, Baresi, Maldini e Baggio, mas o Higo del Viento empatou a partida, levando a seleção a mais uma decisão por pênaltis. Os atuais campeões mundiais foram à final, mas tiveram que jogar a decisão sem o seu único atacante titular. Caniggia recebeu um amarelo bobo por colocar a mão na bola contra os italianos. Os alemães venceram a Copa com um gol de pênalti – a cobrança de Andreas Brehme foi uma das poucas daquele Mundial a não parar nas mãos de Goycochea.

Buchecha sem Claudinho

Mesmo mais novo, quis o destino que Caniggia não conseguisse brilhar em Maradona na seleção. Na Copa de 1994, logo após a expulsão de Maradona da competição após ser detectado em seu organismo efedrina, uma substância proibida que fez o atleta emagrecer em pouco tempo, o atacante se machucou em partida contra a Bulgária. Os dois amigos viram da tribuna a Argentina ser eliminada pela Romênia nas oitavas-de-final.

Em 1998, Caniggia brigou com Passarela (em parte pelos cabelos longos e outra por ser amigo de Maradona, rival antigo do então técnico da seleção) e não foi convocado para a Copa. No Mundial de 2002, recebeu a oportunidade de Marcelo Bielsa, mas sequer entrou em campo. Entrou na história argentina mais uma vez ao ser expulso do banco de reservas durante a partida da eliminação contra a Suécia.

O casamento de almas

Dizem que Maradona foi a melhor e a pior coisa que já aconteceu a Caniggia.

Em 1993, quando atuava pela Roma, Cano foi pego no exame antidoping por uso de cocaína. Dois anos antes, Maradona havia sido suspenso pelo mesmo motivo. Na época, o atacante disse que só usou uma vez e não se considerava usuário. Segundo o atacante, a amizade dos dois não teve nada a ver com o caso.

Caniggia ficou um ano parado e só voltou pouco antes da Copa de 1994, atuando pelo Benfica, onde fez 16 gols em 33 jogos – a maioria deles nos primeiros jogos. Quando a má fase chegou, El Pajaro decidiu voltar para a Argentina e reviver a dupla de sucesso com o amigo Maradona no Boca Juniors.

Caniggia voltou ao Atalanta em 1999, jogou pelo Dundee FC e conseguiu retornar à seleção graças aos gols no Rangers, da Escócia. Antes de se despedir do futebol, atuou pelo Qatar SC. Aos 45 anos, decidiu jogar futebol profissional novamente pelo Wembley Football Club, clube da quarta divisão inglesa, porém se aposentou pela segunda vez pouco tempo depois.

Em nenhum destes times ou mesmo no River Plate, em sua primeira passagem pelo Atalanta ou atuando pela Roma, o atacante loiro, capaz de correr 100 metros em menos de 11 segundos, fez tantos gols como no Boca Juniors. Ao lado de Maradona, “Hijo del Viento” marcou 28 tentos em 60 partidas de 1995 a 1998. Uma união de dribles, passes, noitadas e gols que rendeu a Caniggia os momentos mais brilhantes da sua carreira. Para chamar de casamento, só faltava mesmo um beijo.

1 pensamento em “Caniggia, o par perfeito de Maradona”

  1. Sou torcedor da Atalanta por causa do Caniggia!
    Explico: nasci em Israel, filho de brasileiro com argentina. Me mudei para o Rio em 1988 com 5 anos, e não gostava daqui, por isso era do contra. Na Copa de 90, a família brasileira toda se reuniu na véspera do meu aniversário para ver o Caniggia vencer para meu delírio!
    No álbum de figurinhas, vi Atalanta e daí pros cards Pannini da época era um vício atalantino!
    Tenho a camisa do Dundee com o 33 do Caniggia!
    Parabéns pela matéria

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