A crônica da máquina do tempo

Quando a gente joga futebol, parece esquecer várias coisas a partir do momento que toca a primeira vez na bola. Tem gente que esquece problema em casa, gente que esquece as contas pra pagar, aquela surra psicológica do dia-a-dia. Por essas e outras que o esporte é terapêutico se você souber levá-lo como tal.

Eu sou competitivo. Sempre fui. Quando sentia que tinha a mínima chance de vencer, entrava como se a minha vida dependesse disso. Era o menorzinho da turma, o magrinho, tanto que até hoje não sei fazer jogo de corpo. Quase vinte anos que eu me conheço por gente e que chuto bola por aí, ainda tenho um bocado a aprender.

Numa dessas corridas pra manter a forma, resolvi testar o efeito que o sol e o calor me fariam no treino. Duas semanas para o Trifonzão, ansiedade lá em cima, sigo com a minha agenda pra não fazer feio no dia. E hoje foi a primeira vez que não saí de casa depois do sol se pôr. O desafio era mesmo completar as dez voltas na pista com o tempo claro, abafado. Dei oito e já tinha gasto toda a minha água, bebendo e jogando na cabeça. Não tinha jeito, precisava ter paciência, era besteira puxar até onde eu não sabia que iria conseguir chegar.

Parei ao lado da pista de skate que geralmente a molecada usa pra bater bola por aqui. Eram quatro, por volta de 12 anos. Um menorzinho, de uns 8, não batia nem na minha cintura e já driblava feito um demônio. Parei de ouvir a música no celular e entre uma inspirada e outra, vi que eles estavam descalços. O sol ainda estava lá, firme e forte, o chão quente. Como conseguiam? Será que não tinham medo de perder uma tampa do dedão naquele concreto, encher o pé de bolhas? Ao olhar pra cada um ali do canto, notei que não havia preocupação nenhuma. Criança não tem por que esquentar a cabeça, elas geralmente só vivem.

Tirei os fones do ouvido, encostei o celular no chão ao lado da garrafa vazia. Me perguntei se seria legal finalmente chutar uma bola depois de quatro meses, já estava mesmo planejando treinar sozinho quando voltasse a morar em São Paulo, uma semana antes do torneio. Ritmo de jogo faz diferença, afinal. Depois de cinco minutos pensando, resolvi me convidar a entrar lá com eles. A essa altura já tinha me motivado tirando o tênis e a meia. Se eles não se preocupavam com isso, por que eu deveria?

Dei o primeiro passo com 23 anos, quase 24, e quando cheguei na bola, tinha 13 no máximo. Eles olhavam como se eu fosse atleta, como se fosse brincar de humilhar cada um. Mal sabiam que naquele momento era um deles, que talvez meu tamanho não fosse mais tão discrepante do deles. Fiquei meio perdido no primeiro minuto por indecisão de onde ficar no “campo”. Lembrei também que qualquer retângulo pode virar o Maracanã na cabeça de uma criança que tem a vida toda pela frente, esses milhões de sonhos que a gente vive durante a semana, jogando videogame, vendo na TV.

Como adulto, eu ainda tinha aquela neura de que talvez não conseguisse correr como antes, ando enferrujado, fora de forma. Neura de alguém pegar meu celular ali do lado. Foi só o menino japonês tentar um drible e eu desarmar pra que tudo isso virasse mero detalhe. Estava ali pra jogar e mais nada. Talvez não competitivo como quando era o menor da quadra, mas querendo provar a mim mesmo que podia ser moleque. Corri, tirei a bola, dei aquele drible, ria com as capotagens, com o caçulinha fazendo os maiores passarem vergonha pela forma como ele passava o pé por cima da pelota, ia para um lado e para outro como o Ligeirinho. Era um ratinho tremendamente habilidoso. Eu? Eu fui só o grandão que ficava atrás pra sair jogando. Ou o alemão, dizia o japonês.

Esqueci que estava preocupado com o aumento do meu ritmo e passei a correr como louco quando precisasse. Dava uns piques que realmente me fizeram voltar no tempo, naqueles anos em que eu vivia na quadra do prédio. Não podia fazer gols, então me concentrei em deixá-los debaixo dele, só pra ver o sorriso e aquela irreverência de moleque. Com o tempo, me readaptei e já estava dando chapéu, assim mesmo sem pudor. Ria da cara deles também.

A bola era murcha, quase que afundava quando eu tentava ir para um lado, ameaçar ir para o outro, pisava e mirava aplicar uma caneta pra sair na corrida. De calcanhar, de letra, tirava gols em cima da linha. Até que percebi que tinha algo me incomodando nos pés. Olhei duas vezes para entender que uma bolha enorme havia estourado em cada pé. O chão quente colaborou para aquela sensação de dor, safada, que estraga a brincadeira. Era o sinal pra voltar à realidade. Botei as meias e o tênis, disse que já voltava, fui pra casa mancando.

No caminho pra casa, pensei que isso ia me tirar alguns dias de preparação, não ia conseguir andar direito com os pés naquele estado, uma lástima, logo eu que pedia cuidado aos amigos nos dias que antecedem o torneio. Sentei na cama e peguei os pés, sujos e maltratados. Olhei para a estante dos livros e lembranças, peguei a primeira mini bola que comprei, uma da Liga dos Campeões. Tive a resposta alguns segundos depois.

Levantei, enfiei os pés num balde, lavei e arranquei a pele solta. Coloquei a meia em cima, calcei a chuteira e voltei à praça. Era eu moleque falando, não o adulto neurótico. Parecia estar pisando em cacos de vidro, mas por alguma razão valia a pena voltar lá. Corri feito louco, não tinha dor que me parasse. Sem medo mesmo, que se danem as consequências. Sou criança, né? Não tenho limites. Enquanto conseguir parar em pé, vou brincar.

Quando finalmente eles cansaram e foram embora, joguei pra eles a bola que trouxe comigo.

– Mas a gente parou…
– Eu também, vou pra casa ver o jogo. Tó.
– Como assim?
– É de vocês agora. Enche mais ela depois.
– Sério? Pô, valeu! Que da hora!
– Eu não vou precisar dela agora, tô indo embora.
– Mas você vem jogar amanhã de novo, né?
– Não sei, menino, agora eu mal consigo andar.

É bom mesmo que eu não consiga. Porque o adulto que mora em mim vai ficar muito puto se tiver de ficar com os pés pra cima o dia todo outra vez. Como é bom ser moleque de novo.

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