Preud’homme: o santo preferido dos diabos

Muito antes de se orgulhar de uma ótima geração, a Bélgica revelava (apenas) grandes goleiros. O primeiro foi Pfaff. O segundo só brilhou mesmo depois dos 30 anos, é ídolo do Benfica e quase jogou no Fluminense na terceira divisão. Este é Michel Preud’homme (mas no International Superstar Soccer pode chamar de Van Riet).

A atuação da estreia não foi exatamente brilhante. Diante da fraca seleção de Marrocos, que viria a ser lanterna do grupo F, a Bélgica suou muito sob o sol de meio-dia e venceu somente por a 1 a 0 no Citrus Bowl, em Orlando, nos Estados Unidos. O goleiro Michel Preud’homme passou a maior parte do jogo secando a testa e fazendo sombra nos olhos com as mãos na altura das sobrancelhas, enquanto seus companheiros de equipe pediam o final da partida desde o primeiro tempo. A partida decisiva seria mesmo a seguinte.

Seis dias depois, Preud’homme se tornaria o melhor goleiro do mundo. No mesmo horário e estádio da estreia, o belga suou e se esticou diversas vezes pelo ar para segurar outra vitória magra, por 1 a 0 – dessa vez contra a favorita do grupo, a Holanda. Do início até o fim do jogo, o herdeiro das luvas de Pfaff rebateu e segurou (quando pôde) o bombardeio de Roy, Winter e Bergkamp. Quando o árbitro brasileiro Renato Marsiglia apitou o final da peleja, todos os jogadores belgas abraçaram um suado herói de 35 anos. Alguns, muito emocionados, o chamavam de “Saint Michel”.

Mais tarde, durante a coletiva de imprensa, enquanto se virava para responder as perguntas em inglês e em todas as línguas nativas do seu país (alemão, flamengo e francês) ao mesmo tempo, o goleiro confessou que já sabia que teria sucesso diante dos holandeses pela manhã.

– Normalmente, quando acordo com uma sensação de queimação nos ouvidos, é que eu vou jogar bem.

Preud'homme 2Foto: BOL

Maioridade profissional

Preud’homme chegou aos 10 anos no Standard de Liège, seu time de coração. Por lá, se criou goleiro e atleta profissional. Durante 18 anos da sua vida, ganhou dois campeonatos belgas e uma Copa local como titular. Depois de completar uma maioridade dentro do clube, os dirigentes acharam melhor transferi-lo para um rival e fazer dinheiro. Em 1986, o goleiro se mudou para as dependências do XV Mechelen.

Dois anos depois, Saint Michel começava a fazer história muito antes de receber o apelido. Ele foi o melhor jogador da decisão da Taça dos Clubes Vencedores de Taças (redundante assim mesmo) de 1987/1988 – até hoje o único título internacional ganho por um clube belga. Na decisão contra o Ajax, o Mechelen venceu por a 1 a 0 eQ teve o seu goleiro eleito como o melhor em campo. Mesmo com outras glórias na carreira, o ex-goleiro considera esse título o momento mais importante da carreira.

– Foi a festa de um clube, mas também de uma cidade, de um país. Quando regressámos, eram quatro horas da madrugada e um mar de gente nos esperava no aeroporto. Mais tarde, no estádio, tivemos outra recepção espectacular. Para vocês, portugueses, ingleses, brasileiros, tudo isto é normal. Para nós, belgas, não.

Um guarda-redes para o mundo

Preud’homme só viria a ser titular do seu país numa Copa do Mundo em 1990, aos 31 anos. Tudo por culpa de outro gênio chamado Jean-Marie Pfaff, que dominou a meta belga durante toda a década de 80. Quando Michel ganhava a Taça dos Clubes pelo Mechelan, por exemplo, em 1987, o seu rival era eleito pela Fifa como o melhor goleiro do mundo. Pfaff se aposentou no ano do Mundial da Itália e abriu espaço para o ídolo local.

A seleção da Bélgica levou em 1990 quatro gols em quatro jogos. Preud’homme fez boas defesas, mas nada que o tirasse da sua condição de ídolo local. Continuou defendendo o Mechelan, onde passou os quatros anos seguintes sem vencer nenhum título. Quando muitos já o consideravam ultrapassado, o goleiro fez uma Copa brilhante nos Estados Unidos.

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Foto:  Goalkeeping Museum

Em sua última imagem no Mundial, nas oitavas de final, rumou para a área da Alemanha no último escanteio, tentando em vão de levar o jogo para a prorrogação. O jogo terminou 3 a 2 para os então campeões mundiais. Mesmo com a eliminação precoce, Preud’homme recebeu o Troféu Lev Yashin, atual “Luva de Ouro”, dado ao melhor goleiro da Copa, e passou a ser chamado de santo. No mesmo ano, foi eleito o melhor do mundo na sua posição pela Fifa e pela IFFHS (Federação Internacional de História e de Estatísticas do Futebol).

Logo após a Copa dos EUA, Preud’homme finalmente viria a jogar num grande centro. O Benfica correu atrás do veterano goleiro e ganhou um dos maiores ídolos da sua história. Mesmo sem ter vencido nenhum título em território luso, o belga foi idolatrado enquanto frequentou o Estádio da Luz. Em sua festa de despedida, mais de 80 mil pessoas compareceram no estádio para aplaudi-lo, enquanto o “guarda-redes” dava a volta olímpica ao lado da esposa e dos filhos.

Sondagens: Real Madrid e… Fluminense

Mesmo muito querido em Portugal durante os cinco anos que defendeu os “diabos”, o belga se sentiu balançado com duas propostas. Uma do Real Madrid e outra, pasmem, do Fluminense na terceira divisão, em 1999.

Em 1996, ele foi chamado por Fabio Capello para ser nada menos que titular no Real Madrid. Michel Preud’homme apresentou a proposta para os diretores do Benfica, que não aceitaram perder o ídolo. O belga aceitou, e o treinador italiano contratou no lugar o alemão Bodo Illgner – para muitos, o melhor goleiro da Copa de 1990.

Três anos depois, quando já havia decidido largar as luavas, o goleiro recebeu uma proposta para ser o goleiro do Fluminense. Ele visitou as Laranjeiras e, depois de pedir um tempo para pensar no convite, decidiu que o melhor mesmo era se aposentar.

Mr Saint

Atualmente, Michel Preud’homme busca o seu espaço como treinador. Ele comanda o time do Brugges, atual terceiro colocado do Campeonato Belga. Antes de assumir a equipe, o ex-goleiro dirigiu o seu clube de coração, o Standard Liège, onde venceu o título nacional após um jejum de 25 anos, e também o Twente-HOL e o Al-Shabab, da Arábia Saudita.

“Saint Michel” é um dos nomes mais pedidos pela torcida do Benfica para assumir o lugar de Jesus Lopes no banco de reservas dos “diabos”. Já que é para ficar sem títulos, ele se sentem mais à vontade com um ídolo. Mesmo que ele tenha apelido de santo.

Michel Preud’homme
Nascimento: 24 de janeiro de 1959, Ougree – Bélgica
Posição: Goleiro
Clubes: 1977-86 Standard Liège, 1986-94 Club Brugge, 1994-99 Benfica
Títulos: Campeonato Belga 1981–82 e 1982–83, Copa da Bélgica 1980-81, Taça de Portugal 1995-96
Participações em Copas: 1990 e 1994
Eurocopas: 1980

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