Um Real Madrid que falava alemão

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Dois dos grandes meio-campistas da Alemanha na década de 70 se mudaram para o Real Madrid, formando uma dupla inesquecível na história do clube. Breitner e Netzer somaram os seus talentos para conquistar duas vezes o campeonato espanhol.

Semana passada lembramos aqui a grande dupla formada por Kevin Keegan e John Toshack, Batman e Robin do Liverpool. Desta vez falaremos de dois alemães que desembarcaram no Real Madrid na década de 70. Paul Breitner e Günter Netzer deixaram a Bundesliga para desafiar o Barcelona de Johan Cruyff e Johan Neeskens. Naqueles tempos, os dois gigantes espanhóis duelavam até no nível das contratações.

Netzer chegou em 1973, vindo do Borussia M’gladbach, onde era capitão e bicampeão alemão. O último episódio que marcou a despedida dele do Gladbach foi no mínimo curioso, quando ele se recusou a entrar no intervalo e depois peitou o treinador para salvar o time de perder a final da Copa da Alemanha para o Köln. Estabelecido no futebol, foi tentar a sorte no Real. Naquele ano, Cruyff chegou ao Barça, vindo do Ajax tricampeão europeu.

Quem levou a melhor na primeira temporada foi justamente o holandês, que levantou com o Barça o título de La Liga, superando por dez pontos o Atlético de Madrid. O Real? Terminou em oitavo, com 16 pontos a menos. O único consolo para os blanquillos foi o título da Copa do Rei, então conhecida como Copa del Generalíssimo, numa referência ao General Francisco Franco. A final foi contra o Barça e num banho de futebol, os madridistas castigaram o rival com um 4 a 0, gols de Santillana, Rubiñan, Aguilar e Pirri. Netzer não atuou.

Para a temporada 1974-75, o Barcelona trouxe Neeskens, outro grande jogador da Holanda que perdeu a Copa de 74. A resposta do Real foi contratar Breitner, campeão do mundo naquela ocasião. Aliás, Afro Paule chegou como campeão europeu com o Bayern e mundial com a Alemanha. E assim o Madrid contava com dois dos meias que derrotaram a Laranja Mecânica na decisão em Munique.

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Foto: Imortais do futebol

Sotaque alemão

Recebidos com entusiasmo pela torcida, os craques alemães iniciaram uma caminhada para tentar tirar do Barça o posto de principal força dentro da Espanha. E a missão foi cumprida com muito êxito. Os atacantes Santillana e Juan Roberto Martínez tiveram vida fácil com Breitner e Netzer organizando o jogo na meia cancha. 33 dos 66 gols do Real saíram dos pés dos atacantes, mas o homem a levar o Pichichi naquela temporada foi Carlos Ruiz, do Athletic Bilbao. Na tabela, o título merengue veio com 50 pontos, 13 a mais que o Barça, terceiro colocado.

Pela Copa do Rei, o doblete foi completo. Em cima do Atlético de Madrid, desta vez com muita dificuldade: vitória nos pênaltis por 4 a 3, após um empate sem gols no tempo normal. Breitner e Netzer não jogaram a decisão. A façanha irritou ainda mais o Barça, que em 1975-76 ficou muito perto de impedir o bicampeonato, com apenas cinco pontos de diferença.

Em campo, o Madrid viveu uma fase mais cerebral com a dupla germânica. Breitner era um meia clássico. Muita qualidade no passe, boa marcação e excelente chegada no ataque. Netzer fazia o papel de distribuidor e o homem do último passe, quando também não encostava na área e marcava. Com dois jogadores completos, o Real subiu de patamar para se tornar um time mais técnico e experiente fora da Espanha. Pela Copa dos Campeões Europeus, a caminhada parou nas semifinais diante do Bayern, com uma derrota por 3 a 1 no agregado.

O time treinado por Miljan Miljanic renovou o caneco de La Liga com 48 pontos, acompanhado de perto pelo Barcelona. Nos confrontos diretos, duas vitórias do Barcelona, por 2 a 1 no Camp Nou e 2 a 0 no Santiago Bernabéu. Nem assim os catalães impediram a conquista.

O título marcou a ruptura daquele elenco. A aposentadoria de Amancio Amaro encerrou uma relação de 13 anos com o clube, onde o atacante atuava desde 1963, quando foi contratado do Deportivo La Coruña. Junto com Amancio, Netzer também deu adeus e saiu para o Grasshopper, onde encerrou sua carreira em 78. Breitner ainda jogou mais um ano e participou do fiasco em 1976-77, quando o Real terminou o campeonato em nono, com 13 pontos a menos que o campeão Atlético.

Paul passou por uma temporada no Eintracht Braunschweig antes de retornar ao Bayern, pendurando as chuteiras em 1983. Ainda assim o Real levantou mais três vezes consecutivas o troféu de La Liga, de 78 a 80. A coincidência? Com outro alemão vindo do Borussia M’gladbach: Uli Stielike. Se isso não era um romance com a escola germânica, não sabemos o que mais pode ser…

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