O início da Era Ajax na Europa

Quando Ajax e Panathinaikos entraram no gramado de Wembley em 2 de junho de 1971, a Europa veria um campeão inédito. Cerca de 90 mil pessoas testemunharam o surgimento de uma das maiores potências do futebol mundial: o esquadrão de Johann Cruyff e Rinus Michels.

É impensável imaginar o sucesso da Holanda nos anos 70 sem passar pelo Ajax que deu início a essa filosofia. Muito embora o Feyenoord tenha sido o primeiro holandês a se sagrar campeão europeu, em 1970, a façanha mais lembrada ainda é o tricampeonato dos Godenzonen na Copa dos Campeões Europeus de 71 a 73.

Liderados fora de campo por Rinus Michels e dentro das quatro linhas por Johann Cruyff, o Ajax incorporou o espírito vencedor a partir da decisão de 71, contra o Panathinaikos. Foi a primeira conquista de uma geração incrível, base da seleção holandesa que disputou duas finais de Mundiais em 74 e 78. É chover no molhado dizer que aquele time entendia o futebol como muitos demoraram mais uma década para fazer.

No caminho do Ajax, ficaram Nentori Tirana, Basel, Celtic e Estrela Vermelha. Até a decisão contra o Panathinaikos, em Londres, todos os jogos em Amsterdã eram verdadeiros passeios. Sem ser vazada como mandante, a equipe holandesa sempre tinha um placar com um dois ou mais gols, garantindo boa vantagem no agregado. Era fácil apostar nos Godenzonen como vencedores, sobretudo com aquele futebol irresistível.

be354-panathinaikos71

Foto: Completamente futebol

Do outro lado, o Panathinaikos não deixava a desejar. Em seu segundo ano como comandante do time, Ferenc Puskas levou os gregos à decisão pela primeira e única vez. Os principais destaques eram o capitão Mimis Domazos e o atacante Antonis Antoniadis, que acabou por ser o goleador daquela edição da Copa dos Campeões, com 10 gols.

O respeito por Puskas fez com que o Pana não fosse tão visto como derrotado antes da partida. A questão era se o Major Galopante conseguiria passar um pouco do seu conhecimento para os seus pupilos. Mesmo para o brilhante húngaro, era difícil encontrar uma estratégia para bater nos holandeses, donos do jogo em Londres.

O Ajax precisava estar com a bola o tempo todo. Quando conduzia suas descidas ou marcava a saída dos gregos, era dificílimo prever o que viria pela frente. Não se sabia quando Cruyff, Piet Keizer ou Nico Rijnders tentariam um drible, um passe ou um lançamento longo. Correndo de um lado para o outro tentando evitar o inevitável, o time todo do Panathinaikos ficou rendido no lance do primeiro gol, marcado pelo centroavante Dick van Dijk, logo aos cinco minutos: Rijnders rolou para o círculo central, Barry Hulshoff mandou pelo alto e achou Keizer na esquerda. O ponta fintou Aristidis Kamaras e meteu no meio da área para a cabeçada de Van Dijk.

cdac5-cruyffxpanathinaikos

Foto: The football Ramble

Pouco assustou o Panathinaikos, que chegava tímido na área, sem arriscar. Se não aproveitavam as chances, o Ajax criava até em lances que pareciam mortos. Sjaak Swart fintou bem a marcação e acionou Cruyff, que saiu de três e cruzou da direita para Gerrie Muhren. O cabeceio saiu por cima da meta alviverde.

O goleirão Takis Ikonomopoulos estava disposto a entregar a paçoca, a rapadura, o ouro e até o mapa do tesouro dos piratas, quando num cruzamento de Swart, soltou a bola no alto e quase viu van Dijk ampliar de cabeça no rebote. Um alerta para o grego permanecer atento ao jogo. A falha, no entanto, não teria acontecido se Anthimos Kapsis não tivesse ido de costas para tentar afastar a bola.

Pois a zaga do Ajax também não estava no auge de suas faculdades mentais quando o capitão Velibor Vasovic se estranhou com Johan Neeskens (jogando como lateral direito naquela tarde). Os dois foram para a bola, tentando afastar um primeiro balão dado por Hulshoff, até que Vasovic intercedeu com outra pancada para o alto. A pelota caiu no meio da área onde Antoniadis dividiu com o goleiro Heinz Stuy. Mal colocado, Stuy chegou em desvantagem para socar a bola e errou o golpe. O camisa 9 do Panathinaikos meteu a testa e a bola passou perto da trave, assistindo a Vasovic desesperado correndo para o resgate em cima da linha.

Ainda no primeiro tempo, van Dijk desperdiçou uma boa chance de dentro da área. Cruyff inverteu com Neeskens, que carimbou o arqueiro Ikonomopoulos. No rebote, van Dijk chutou colocado e errou o alvo. Cruyff mesmo já tinha perdido outro lance na direita, quando marcado por dois, arriscou de dentro da área e novamente viu Kapsis atrapalhar Ikonomopoulos. Por sorte, foi só escanteio após uma cabeçada de Kapsis, que acertou a bola.

O outro lance de perigo dos gregos veio numa jogada pensada por Kamaras, que tabelou com Vlahos e apareceu no meio da área adversária para completar. A finalização errada encerrou de forma frustrante uma ofensiva que parecia ser promissora. Incisivo, o Ajax reagia com velocidade e passes longos. No segundo tempo, a tendência foi a mesma. Sempre com lançamentos nas costas da defesa grega, Cruyff ou Muhren dominavam com espaço e chutavam.

Para sacramentar o título, Neeskens deixou dois na saudade pela direita. Achou Keizer no meio, que rolou para Cruyff. O gênio da camisa 14 correu, acompanhado de perto por dois marcadores. Fintou o primeiro e centésimos antes de fintar o segundo, rolou para Arie Haan entrar livre e bater. A bola resvalou em Haris Grammos e encobriu Ikonomopoulos, restando três minutos para o fim.
Sem chance de reação, o Ajax era campeão europeu pela primeira vez. E a Europa se renderia aos encantos do futebol total, a doutrina que obrigou técnicos ao redor do planeta a buscarem novas alternativas táticas.

Ajax 2-0 Panathinaikos
2 de junho de 1971, Wembley – Londres
Final da Copa dos Campeões

Ajax: Stuy, Vasovic, Hulshoff, Suurbier, Neeskens, Rijndeers (Haan), Muhren, Cruyff, Keizer, Swart (Blankenburg) e van Dijk. Técnico: Rinus Michels

Panathinaikos: Ikonomopoulos, Tomaras, Sourpis, Kapsis, Vlahos, Eleftherakis, Kamaras, Grammos, Filakouris, Antoniadis e Domazos. Técnico: Ferenc Puskas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *